A Operação Occulta Manus, da Polícia Federal, e uma nova mudança no comando da Secretaria Municipal de Ambiente e Urbanismo aprofundaram nesta quarta-feira (12) a sequência de investigações e decisões judiciais envolvendo a área ambiental de Búzios. Entre os alvos das buscas estão a então secretária de Ambiente e Urbanismo, Roseli de Almeida Pereira, e o secretário do Clima e Sustentabilidade, Evanildo Nascimento. No mesmo dia da operação, o Boletim Oficial do município publicou a exoneração de Roseli, com Denize Tonani assumindo, interinamente, o comando da pasta.
A Polícia Federal investiga um suposto esquema de corrupção, fraude em procedimentos de licenciamento ambiental e favorecimento de interesses privados dentro da Secretaria de Ambiente e Urbanismo.
Durante as buscas, foram apreendidos cerca de R$ 26 mil em espécie, celulares, notebooks, discos rígidos e outros dispositivos de armazenamento, além de documentos e procedimentos administrativos da secretaria.
Ao todo, a Operação Occulta Manus cumpriu oito mandados de busca e apreensão: quatro em Búzios, dois em Cabo Frio, um em Araruama e um em Saquarema. As ordens foram expedidas pela 5ª Vara Federal Criminal da Seção Judiciária do Rio de Janeiro.
A operação foi realizada pela Polícia Federal em conjunto com o Ministério Público Federal (MPF) e a 1ª Promotoria de Justiça de Armação dos Búzios.
A exoneração de Roseli representa mais uma mudança em uma pasta que, em poucas semanas, passou por afastamento judicial da secretária, nomeação de uma substituta interina, decisão do Tribunal de Justiça determinando a recondução ao cargo e, agora, buscas da Polícia Federal e uma nova troca de comando.
PF investiga favorecimento em licenciamentos ambientais
Segundo a investigação, agentes públicos teriam utilizado as funções exercidas na administração municipal para favorecer interesses privados por meio da concessão irregular de licenças e autorizações ambientais.
Os investigadores também apuram a possível facilitação da instalação e do funcionamento de empreendimentos potencialmente poluidores sem as autorizações exigidas pelos órgãos competentes.
Entre os crimes sob investigação estão corrupção passiva e ativa, advocacia administrativa, associação criminosa, prevaricação e concessão irregular de licenças e autorizações ambientais.
A investigação busca agora identificar a extensão do possível esquema, outros eventuais envolvidos e quais particulares ou empreendimentos podem ter sido beneficiados.
R$ 26 mil, equipamentos e processos apreendidos
Um dos principais resultados conhecidos até agora da operação foi a apreensão de aproximadamente R$ 26 mil em dinheiro.
A PF também recolheu celulares, notebooks, discos rígidos e outros dispositivos de armazenamento.
Na Secretaria de Ambiente e Urbanismo foram apreendidos documentos e procedimentos administrativos, que deverão ser analisados pela Polícia Federal em Macaé.
O material poderá permitir o cruzamento entre a tramitação dos processos de licenciamento sob investigação e informações encontradas em mensagens, arquivos e registros armazenados nos equipamentos apreendidos.
A apreensão de dinheiro, documentos e equipamentos, assim como a condição de alvo de mandado de busca, não significa comprovação de participação nos crimes investigados. As responsabilidades ainda deverão ser individualizadas no decorrer das investigações.
Linha do tempo mostra sucessivas mudanças na pasta
A operação da Polícia Federal não é o primeiro episódio envolvendo a Secretaria de Ambiente e Urbanismo nas últimas semanas. A pasta já estava no centro de investigações conduzidas pelo Ministério Público e de decisões judiciais.
30 de julho — Justiça afasta Roseli
A Justiça determinou o afastamento cautelar de Roseli de Almeida Pereira do comando da Secretaria de Ambiente e Urbanismo após pedido do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ).
Segundo o MPRJ, o objetivo era impedir eventuais dificuldades na obtenção de documentos e preservar o andamento de investigações.
O Ministério Público informou que havia apresentado duas denúncias criminais contra Roseli relacionadas a episódios em que teria ocorrido demora, omissão ou recusa na entrega de documentos e informações técnicas requisitados pelo órgão.
Investigações envolviam Pai Vitório e José Gonçalves
Uma das apurações estava relacionada a intervenções realizadas na Ponta do Pai Vitório, área ambientalmente sensível do município.
Segundo o MPRJ, foram requisitados processos de licenciamento, autorizações e estudos técnicos referentes às intervenções. O órgão afirmou que documentos só foram entregues depois que a Justiça autorizou uma medida de busca e apreensão.
A outra investigação tratava do uso de saibro retirado do antigo Lixão da Baía Formosa em obras realizadas no Campo de José Gonçalves.
O Ministério Público informou que um laudo produzido durante investigação da Polícia Federal teria apontado retirada irregular do material e sua utilização na obra.
A apuração busca esclarecer eventuais impactos ambientais e riscos à saúde, considerando também que o espaço é frequentado por crianças.
1º de agosto — Denize Tonani assume interinamente
Após o afastamento, a Prefeitura designou a subsecretária municipal de Licenciamento Ambiental, Denize Tonani Freire, para responder de forma interina e cumulativa pela Secretaria Municipal de Ambiente e Urbanismo.
A designação ocorreu por meio da Portaria nº 529, com efeitos retroativos a 1º de agosto.
Denize passou a acumular as funções enquanto Roseli permanecia afastada.
TJRJ derruba afastamento e determina retorno
O afastamento, porém, foi posteriormente cassado pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ).
A decisão do Tribunal determinou a recondução de Roseli ao comando da secretaria, revertendo a medida cautelar determinada em primeira instância.
A decisão permitiu o retorno ao cargo, mas não significou o encerramento das investigações.
12 de agosto — Polícia Federal chega à secretaria
Nesta quarta-feira (12), a situação ganhou um novo capítulo com a deflagração da Operação Occulta Manus.
Diferentemente das apurações anteriores, a nova investigação envolve atuação conjunta da Polícia Federal, Ministério Público Federal e 1ª Promotoria de Justiça de Armação dos Búzios e concentra-se em suspeitas relacionadas à tramitação de licenciamentos ambientais e possível favorecimento de interesses privados.
Roseli e o secretário do Clima e Sustentabilidade, Evanildo Nascimento, estão entre os alvos das buscas.
Quatro dos oito mandados foram cumpridos em Búzios.
12 de agosto — Roseli é exonerada
No mesmo dia da operação, o Boletim Oficial de Búzios publicou a exoneração de Roseli de Almeida Pereira, encerrando administrativamente sua passagem pelo comando da Secretaria de Ambiente e Urbanismo.
Com a mudança, Denize Tonani assume novamente a pasta, agora após a exoneração da titular.
Não há, nas informações disponíveis até o momento, elemento que permita afirmar que a exoneração tenha sido determinada ou provocada pela Operação Occulta Manus. Os dois acontecimentos ocorreram no mesmo dia e integram o cenário de mudanças e investigações envolvendo a área ambiental do município, mas uma relação causal entre eles não foi oficialmente estabelecida.
Secretaria estratégica entra em nova fase
A sequência de acontecimentos coloca sob atenção uma das áreas mais sensíveis da administração de Búzios.
A Secretaria de Ambiente e Urbanismo concentra atribuições relacionadas ao licenciamento ambiental, fiscalização urbanística, controle ambiental e ordenamento urbano em um município marcado pela presença de áreas ambientalmente protegidas e por forte pressão imobiliária.
A análise do material apreendido pela Polícia Federal deverá determinar os próximos passos da Operação Occulta Manus.
Além de reconstruir a tramitação dos processos investigados, PF e Ministério Público buscam identificar outros possíveis envolvidos e particulares ou empreendimentos eventualmente beneficiados pelas supostas irregularidades.
ATUALIZAÇÃO — 14 de agosto de 2026
Após a publicação desta reportagem, a Prefeitura de Armação dos Búzios procurou a Prensa de Babel e solicitou a correção da informação relacionada à apreensão de cerca de R$ 26 mil durante a Operação Occulta Manus. Segundo o município, a forma como a informação foi apresentada poderia levar ao entendimento de que o dinheiro havia sido apreendido nas dependências da Secretaria Municipal de Ambiente e Urbanismo.
Na solicitação encaminhada à reportagem, a Prefeitura afirmou que o valor não havia sido apreendido na sede da Secretaria e pediu que a Prensa informasse objetivamente o local onde o dinheiro foi encontrado.
A reportagem publicada pela Prensa informava que a Polícia Federal havia apreendido cerca de R$ 26 mil em espécie durante a Operação Occulta Manus e, separadamente, que documentos e procedimentos administrativos da Secretaria de Ambiente e Urbanismo haviam sido recolhidos. Em nenhum trecho foi afirmado que o dinheiro havia sido encontrado dentro da Secretaria.
Diante da contestação apresentada pelo município, a Prensa de Babel voltou à Polícia Federal, fonte oficial responsável pela operação, para esclarecer precisamente onde ocorreram as apreensões.
Em resposta à reportagem nesta sexta-feira (14), a Polícia Federal confirmou que os cerca de R$ 26 mil em espécie foram apreendidos na residência de Roseli de Almeida Pereira, ex-secretária municipal de Ambiente e Urbanismo de Búzios.
A PF também confirmou que documentos foram apreendidos nas dependências da Secretaria Municipal de Ambiente e Urbanismo.
Com o esclarecimento da Polícia Federal, a informação fica, portanto, delimitada da seguinte forma: os R$ 26 mil foram encontrados na residência da ex-secretária Roseli de Almeida Pereira; os documentos relacionados à investigação foram apreendidos na Secretaria de Ambiente e Urbanismo.
A Prensa de Babel atualiza a reportagem para acrescentar a localização exata das apreensões, informação que não constava do material disponível na publicação original, mantendo o compromisso de esclarecer aos leitores tanto a manifestação da Prefeitura quanto a confirmação posteriormente obtida junto à Polícia Federal.



