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República de influencers

Antes de serem escolhidos, foram recomendados
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Barbara Baez é advogada formada na UFRJ, pós graduada em direito público, mãe e buziana

Em 2022, Lucas Pavanato disputou sua primeira eleição e ficou na suplência, com 36 mil votos. Quatro anos depois, aos 28 anos, recebeu mais de 3 milhões. Ao lado de Nikolas Ferreira, de 30, que ultrapassou os 3,1 milhões em Minas Gerais, tornou-se um dos dois deputados federais mais votados da história do país. O que os projetou não foi o partido, o sindicato ou a universidade, mas a tela de um celular. O que os une não é o currículo, mas o alcance.

Há algo de revelador numa sociedade em que a pergunta “quem disse?” perde terreno para “quantas visualizações?”. A popularidade passa a conferir autoridade antes conquistada pelo conhecimento, pela experiência ou pelas realizações. A extrema direita soube converter essa inversão em projeto de poder.

Surge, assim, uma república em que representantes eleitos chegam às urnas impulsionados por uma lógica que privilegia a fama em detrimento do preparo e das propostas. O problema não é o influenciador em geral, mas aquele que transforma visibilidade em mandato, alimentando uma política em que a atenção é moeda, a verdade rende pouco, o saber é suspeito, e a grosseria é credencial.

As plataformas disputam sobretudo a atenção. O que tem mais visibilidade costuma ser aquilo que indigna, simplifica e confirma convicções. A verdade, lenta e pouco fotogênica, entra nesse leilão em desvantagem. Quando a mentira rende mais do que o fato, a indignação se transforma em capital político.

Para boa parte da população, quem narra o mundo é quem tem câmera, não necessariamente formação ou compromisso com a checagem. O “eu acho” ocupa o lugar do que se sabe, e assuntos como economia, saúde, segurança e direito são tratados com a desenvoltura de quem domina a exposição, não o tema. O passo seguinte é desmoralizar quem sabe. Cientista vira “ideólogo”, universidade vira “doutrinação”, especialista vira “elite”. O ceticismo, virtude da ciência, é convertido em desconfiança universal, com uma exceção conveniente, o influenciador de estimação.

Essa demolição tem estética própria. A falta de educação passa por autenticidade, a ignorância por coragem de “falar o que pensa”, a aversão à complexidade por bom senso. Hesitar, estudar e duvidar tornam-se sinais de fraqueza num mundo que premia a certeza berrada.

A reputação também deixou de depender da biografia. Constrói-se uma imagem de competência sem realizações, de honestidade sem compromisso com a verdade, de autoridade sem conhecimento. A trajetória real, com seus fatos inconvenientes, perde espaço para um personagem cuidadosamente editado. O que alguém fez importa menos do que aquilo que milhões foram levados a acreditar que fez.

Os coaches compreenderam o potencial desse mercado. Já não vendem apenas fórmulas de enriquecimento. Disputam a maneira como as pessoas compreendem o sucesso, a fé, a beleza e o próprio valor. Apropriam-se de narrativas religiosas, aspiracionais e culturais, oferecendo respostas simples para angústias complexas. O fracasso vira falta de esforço, a pobreza vira deficiência individual, a riqueza vira prova de virtude. A desigualdade desaparece como problema coletivo e reaparece como incapacidade pessoal de vencer. Quem molda essas aspirações pode influenciar eleições sem jamais disputar uma.

Numa cultura em que enriquecer se tornou finalidade suficiente, o dinheiro já não precisa vir acompanhado de mérito ou integridade. A ostentação funciona como prova de sucesso, e o sucesso, como salvo-conduto moral. A origem dos recursos perde importância diante da fortuna exibida, mesmo quando há indícios de exploração, fraude ou outras práticas ilícitas. O rico não precisa demonstrar virtude. Sua conta bancária parece absolvê-lo.

O mesmo mecanismo captura a fé. A instrumentalização política da religião não é novidade. Novos são a velocidade, o alcance e o palco. Dispensa-se a teologia, preserva-se o fervor, e líderes carismáticos assumem uma autoridade quase sagrada. Conferir o que dizem seria duvidar, e duvidar seria traição.

A política já havia reconhecido o próprio reflexo. Em 2024, o ex-coach Pablo Marçal quase chegou ao segundo turno da eleição paulistana. Às vésperas da votação, divulgou um laudo médico falso contra Guilherme Boulos, episódio pelo qual foi posteriormente indiciado pela Polícia Federal.

Em 2026, o PL elegeu 121 deputados federais, formando a maior bancada da Câmara e confirmando a força eleitoral de um campo político que fez das redes um de seus principais instrumentos de mobilização.

O combustível são espantalhos. “Ideologia de gênero” não é um conceito científico consolidado, mas uma expressão convertida em arma política contra o debate sobre gênero nas escolas. Em 2025, o STF invalidou, por unanimidade, leis municipais que impediam a abordagem dessas questões no ensino. A suposta “doutrinação esquerdista” segue lógica semelhante, uma acusação genérica que dispensa provas e transforma qualquer discordância em confirmação da ameaça. Em lugar de soluções, oferecem-se inimigos.

A extrema direita compreendeu algo que seus adversários frequentemente subestimaram. Por trás da indignação havia anseios legítimos, frustrações acumuladas e promessas de ascensão social jamais cumpridas. Soube alcançar, pelas redes, inclusive populações historicamente marginalizadas, oferecendo reconhecimento, pertencimento e culpados para suas dificuldades. A contradição é que muitas das soluções defendidas por esses movimentos contrariam os direitos dessas mesmas populações.

A promessa de justiça social cede espaço à fantasia da vitória individual. Em vez de questionar por que tantos permanecem excluídos, cada um é estimulado a sonhar em ser a exceção que conseguiu escapar. O sucesso de poucos passa a justificar o fracasso de muitos, como se todos tivessem as mesmas oportunidades. Quem deveria reivindicar direitos é convidado a combater os direitos alheios.

Tudo isso fermenta numa solidão peculiar, a solidão premium. Confortável, personalizada, povoada por milhares de rostos que não conhecem quem os assiste. O mundo se reduz à moldura da tela, e a vida em comum cede lugar a vínculos parassociais. A intimidade é fabricada em pequenas doses. O bom-dia em tom de confidência, a live como conversa de sala, a sensação de proximidade cuidadosamente cultivada. Do outro lado, ninguém conhece aquele espectador, suas dívidas ou seus medos, mas conhece os mecanismos capazes de capturar sua atenção.

Capturado o afeto, o resto é logística. A relação com o líder se aproxima do apaixonamento. Idealiza-se o personagem, desculpam-se suas contradições e rejeitam-se os fatos que ameacem a imagem construída. Quanto mais evidente a incoerência, maior o esforço para justificá-la. A razão já não orienta o julgamento, mas é convocada para defender uma conclusão tomada de antemão. O candidato deixa de ser alguém a quem se cobram explicações e se torna alguém a quem se oferecem desculpas. Questioná-lo seria questionar a si mesmo.

O jornalismo, que deveria funcionar como contrapeso, chega a esse embate combalido, com o modelo de negócio corroído, redações enxutas e dependência das mesmas plataformas que o devoram. Frequentemente assiste à captura do debate público como espectador, refém de uma falsa equivalência que apresenta fato e fabulação como “dois lados”. A imparcialidade mal compreendida vira omissão. Enquanto a redação pondera, um vídeo de trinta segundos já moldou a opinião de milhares de pessoas.

Há uma diferença fundamental entre disputar os rumos da democracia e deslegitimar suas regras. Quando um movimento trata o pluralismo como ameaça, as minorias como inimigas e as instituições independentes como obstáculos a eliminar, questiona as próprias condições da convivência democrática.

Por isso, a polarização mais preocupante não é entre direita e esquerda, mas entre o real e o inventado. Direita e esquerda podem divergir sobre o que fazer diante dos mesmos fatos. O inventado inaugura outra fratura, entre quem admite ser desmentido e quem rejeita qualquer verificação. Divergir pressupõe um mundo comum a disputar. Quando uma narrativa se torna imune aos fatos, esse território compartilhado encolhe.

Nada disso é um julgamento de quem votou em um ou em outro candidato. O eleitor não é o problema, é também o alvo. Muitos chegaram até ali movidos por queixas reais, como o medo da violência, o aperto no fim do mês e a sensação de abandono. A fábrica de versões não inventou essas dores. Aprendeu a reconhecê-las e revendê-las como raiva contra inimigos convenientes.

A vitória de Lula neste domingo, com 51,79% dos votos válidos contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, representa uma importante afirmação da democracia brasileira. Mas seria um erro confundir a vitória nas urnas com a superação das forças que ameaçam a convivência democrática. Quase metade dos votos válidos foi destinada ao projeto derrotado. A eleição terminou. A tarefa democrática, não.

Não basta derrotar eleitoralmente a extrema direita. É preciso compreender por que suas narrativas encontram acolhida, enfrentar as condições materiais que alimentam o ressentimento e reconstruir vínculos com cidadãos que passaram a desconfiar de qualquer informação externa às suas bolhas. Não se trata de impor uma verdade oficial ou substituir uma devoção por outra, mas de recuperar a disposição para ouvir, questionar e admitir a possibilidade de estar errado. Nenhum candidato, partido ou governo deve estar acima desse exercício.

A democracia não se esgota no voto, nem está concluída quando vence o candidato que preferimos. Exige instituições responsáveis, direitos efetivos e cidadãos capazes de fiscalizar inclusive aqueles que elegeram. Exige também que a política ofereça respostas concretas às necessidades da população.

A democracia pressupõe um mínimo de realidade compartilhada. Sem ela, não há debate, apenas tribos que se reconhecem pelo que rejeitam. A “república de influencers” não é uma república, mas um mercado de atenção vestido de espaço público. Reconstruir o comum exige regular as plataformas, proteger o bom jornalismo, valorizar o conhecimento e devolver ao diálogo o lugar que lhe pertence.

Que os anos vindouros sejam uma oportunidade de reconstruir pontes. Que possamos discordar sem transformar adversários em inimigos, confrontar ideias sem abandonar os fatos e reconhecer que a razão não pertence exclusivamente a nenhum campo político. A democracia precisa de menos devoção e mais pensamento crítico, menos impulsionamento e mais informação. E de um gesto simples, cada vez mais difícil, que nenhum algoritmo recomenda: desviar os olhos da moldura e voltar a conversar com quem está ao seu lado.


Fontes: Agência Câmara dos Deputados e Tribunal Superior Eleitoral (resultados das eleições de 2026); Agência Senado (reeleição presidencial de 25/10/2026); cobertura jornalística da eleição paulistana de 2024 e do indiciamento de Pablo Marçal; Supremo Tribunal Federal (ADPFs 466 e 522, julgadas em 2025).

Sandro Peixoto

Sandro Peixoto, jornalista, cronista de Búzios, foi repórter em O Perú Molhado

Octavio Raja gabaglia

Octavio Raja Gabaglia, o carismático Otavinho, é um nome que ressoa nas praias, encostas e telhados de Búzios. Esse arquiteto genial, conhecido pelo bom papo e pela mente afiada, conseguiu, com engenhosidade, domar os ventos, convidar a luz do sol para habitar as casas com gentileza, além de convencer a paisagem exuberante a fazer parte de sua obra.

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