Por Belén Maria Baigorria, representante do Movimento Por Nossos Filhos e da Rede de Mãe à Mãe_

Toda cidade que quer mudar de verdade precisa responder uma pergunta simples: onde essa mudança começa?
Em Búzios, a resposta que vem ganhando força entre mães, professoras, coletivos e moradores é a mesma: começa na escola.
Não na escola só como lugar de passar conteúdo. Na escola como lugar onde uma criança aprende a se cuidar, a respeitar o outro, a entender limite, a lidar com emoção, a resolver conflito sem violência e a perceber que diferença não é defeito.
Se isso for bem implantado, todos os dias, e não só numa palestra uma vez por ano, a escola vira ferramenta de transformação da sociedade. Se ficar só no discurso, vira mais uma promessa.
Educar para prevenir, não só para remediar
A gente costuma falar de segurança só depois que algo grave acontece. Depois do medo, depois da denúncia, depois da perda.
Mas a prevenção começa muito antes. Começa quando uma criança aprende o que é respeito, o que é consentimento, o que é limite do próprio corpo e do corpo do outro. Começa quando um adolescente aprende a nomear o que sente, em vez de explodir, de se calar ou de descontar no outro.
É isso que se espera de um programa permanente de educação emocional e de prevenção à violência nas escolas: atividade cotidiana, sobre autocuidado, autoestima, bem-estar, respeito mútuo, gestão das emoções e resolução não violenta de conflitos.
E não é só para o aluno. É formação continuada para quem educa, para saber identificar um sinal precoce, saber escutar sem julgar e saber encaminhar sem expor. E é trabalho com as famílias, porque a criança aprende em casa e na escola, ao mesmo tempo.
Quando a escola faz isso bem, ela não resolve só a violência de hoje. Ela forma adultos que não vão reproduzir a violência de amanhã.
Uma escola que caiba todo mundo
Não dá para falar de transformação sem falar de inclusão.
Uma escola que transforma é uma escola onde uma criança com deficiência, com autismo ou com outra neurodivergência, uma criança surda, cega, com dificuldade de locomoção, pode aprender, brincar, participar e ser respeitada como qualquer outra.
Isso pede coisa bem concreta: acessibilidade física, material acessível, Libras quando necessário, profissionais de apoio e mediadores, professores formados para a inclusão e um olhar individual para cada forma de aprender.
E pede também uma mudança de cultura: desde cedo, as crianças aprendem que ninguém fica de fora, que ajuda não é favor, que respeito se pratica. Uma cidade que aprende isso na escola, aprende para a vida.
A inclusão também é proteção. Uma mulher com deficiência, um adolescente autista, uma criança surda, precisam de atendimento que entenda a sua forma de se comunicar, em todas as etapas, da escola ao acolhimento. Se a escola já ensina isso, a rede inteira aprende junto.
A escola não faz sozinha, mas sem ela nada se sustenta
É importante dizer: a escola não vai resolver sozinha a violência, a falta de segurança e a falta de acesso a direitos. Ela precisa da saúde mental funcionando, da assistência social presente desde o primeiro atendimento, de uma rede de proteção que converse entre si, de profissionais capacitados e de políticas com meta, prazo e avaliação.
Mas sem a escola, o resto fica sempre correndo atrás do prejuízo.
Por isso, entre os temas que serão apresentados nos próximos dias por coletivos de Búzios, a educação aparece como eixo central: programa permanente nas escolas, formação de profissionais, trabalho com famílias, inclusão de verdade e acompanhamento dos resultados.
Não como projeto de um governo, de um ano, de uma gestão. Como política permanente da cidade.
Búzios é conhecida no mundo inteiro pelo mar, pela beleza, pelo turismo. Mas uma cidade só é boa para visitar quando é boa para viver. E viver bem aqui significa uma menina poder ir e voltar da escola em segurança, uma criança com deficiência poder aprender sem barreira, e um adolescente poder crescer sabendo que respeito, cuidado e limite fazem parte da vida, não são exceção.
A transformação não começa com uma obra grande, nem com um discurso bonito. Começa numa sala de aula, todos os dias, quando a escola é levada a sério.



