A disputa pela presidência da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) ganhou um novo capítulo nesta terça-feira (3), com a decisão do PT de colocar André Ceciliano à frente das articulações para comandar a Casa a partir de 2027. Ex-presidente do Legislativo fluminense e ex-integrante do terceiro governo Lula, Ceciliano retorna ao cenário parlamentar com a experiência de quem já comandou a Assembleia e mantém interlocução com diferentes forças políticas do estado.
A decisão foi tomada durante uma reunião dos deputados estaduais eleitos pelo PT, realizada no Centro do Rio. A bancada petista passará de cinco para nove parlamentares na próxima legislatura, ampliando sua representação na Alerj. O crescimento, entretanto, não garante os votos necessários para eleger o presidente da Casa, o que coloca a construção de alianças no centro das negociações.


Ceciliano presidiu a Alerj entre 2017 e 2023, período em que consolidou relações com deputados de diferentes partidos. Em 2021, foi reeleito para o comando da Assembleia com 64 votos favoráveis, resultado que demonstrou sua capacidade de reunir apoio parlamentar para além de sua própria legenda naquele momento.
Ex-prefeito de Paracambi, na Baixada Fluminense, o petista também construiu relações políticas com lideranças municipais do interior do estado. Essa trajetória, associada à experiência na presidência da Assembleia, é apontada nas análises da imprensa fluminense como um dos elementos de sua articulação para retornar ao cargo.
Após deixar a Alerj, Ceciliano integrou o terceiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ocupando funções de articulação política, entre elas as secretarias de Assuntos Federativos e de Assuntos Parlamentares. A passagem por Brasília ampliou sua experiência nas relações entre o governo federal, o Congresso e representantes dos estados e municípios.
A Assembleia terá 70 deputados estaduais, dos quais 21 pertencem ao PL. Embora seja a maior bancada, o partido também não dispõe isoladamente dos votos necessários para controlar a presidência. O resultado dependerá dos acordos construídos entre as legendas.
PL escolhe Anderson Moraes, mas enfrenta divergências internas
Do outro lado das articulações está Anderson Moraes (PL), escolhido pelo grupo político do governador eleito Douglas Ruas para disputar a presidência da Alerj.
A indicação, entretanto, não encerrou as discussões dentro do partido. Parte dos parlamentares demonstra preferência por Guilherme Delaroli, atual vice-presidente da Assembleia, enquanto Moraes busca consolidar apoios entre as demais bancadas. A federação União Progressista já manifestou apoio ao nome indicado pelo grupo governista.
Deputado estadual, Anderson Moraes também integrou o governo Cláudio Castro como secretário estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação.
Sua trajetória legislativa inclui uma proposta que provocou forte reação da comunidade acadêmica fluminense. Em 2021, Moraes apresentou o Projeto de Lei 4.673/2021, que autorizava a extinção da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e a transferência da oferta de vagas do ensino superior para instituições privadas.
O texto também previa a destinação de bens da universidade à iniciativa privada e a concessão de bolsas de estudo para estudantes de baixa renda. A proposta foi repudiada pela Uerj, que questionou sua constitucionalidade. Na época, André Ceciliano presidia a Assembleia e se posicionou contra o projeto.
Entre os seus projetos e posicionamentos mais polêmicos de Moraes, destacam-se:
Restrições sobre educação sexual: Apresentou projetos de lei desenhados para limitar e impor parâmetros rígidos sobre como temas ligados à sexualidade podem ser abordados dentro do Sistema Estadual de Educação, alinhando-se a pautas do movimento “Escola sem Partido”. Em manifestação nesta terça-feira (3), Moraes confirmou que está à disposição para disputar a presidência e reconheceu a necessidade de dialogar com deputados de outras bancadas.
Programa “Guardião da Segurança” (Legalização de “Justiceiros”): Protocolado no final de 2023, o projeto visava autorizar grupos de cidadãos comuns — como praticantes de artes marciais e ex-agentes de segurança privada — a atuar no policiamento de áreas com altos índices de roubos. A proposta estipulava pagamento estatal por cada criminoso imobilizado e preso. Críticos e especialistas apontaram que a medida flertava com a oficialização de milícias privadas e grupos de “justiceiros”.
Ações contra medidas sanitárias na Pandemia: O parlamentar apresentou projetos de lei focados em proibir a obrigatoriedade da vacina contra a Covid-19 e impedir a exigência do “passaporte de vacinação” no estado do Rio de Janeiro. Nenhuma dessas propostas avançou na Assembleia.
Classificação de facções como grupos terroristas: Moraes protocolou propostas para classificar formalmente facções criminosas que atuam no Rio de Janeiro, como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), sob a tipificação de grupos terroristas.
Homenagem a Cássia Kis pós-polêmica: Em 2026, propôs a criação do prêmio “Defesa das Mulheres Fluminenses – Defensora das Mulheres – Cássia Kis”. A escolha do nome da atriz gerou controvérsia, ocorrendo logo após ela ter sido denunciada ao Ministério Público sob suspeita de transfobia em um shopping do Rio.
Com a posse dos novos deputados prevista para 1º de fevereiro de 2027, as articulações devem continuar nos próximos meses. A disputa colocará à prova tanto a capacidade do grupo governista de reunir sua base quanto a articulação de Ceciliano para construir uma composição com parlamentares de diferentes partidos.



