Por Belén Maria Baigorria, representante do Movimento Por Nossos Filhos e da Rede de Mãe à Mãe_
Não posso ser omissa ao que vem acontecendo na nossa cidade. Dois feminicídios em menos de uma semana, no mesmo bairro, Vila Verde.
Duas mulheres. Duas vidas arrancadas com uma brutalidade que nos enche de dor, de medo e de uma indignação que não cabe mais no silêncio. Duas famílias destruídas. E uma cidade inteira que se pergunta: até quando?
O Brasil já mata, em média, quatro mulheres por dia por serem mulheres. É o maior número da nossa história. No mundo, uma em cada três mulheres já sofreu violência. Os números não são frios. São o retrato de uma falência global e nossa. A lei existe, mas ela chega tarde demais. Ela só recolhe os corpos.
E essa semana, em meio a esse luto, precisamos ouvir algo inadmissível. Uma advogada que trabalha na própria Secretaria da Mulher, assessorando casos de violência desde 2021, gravou um vídeo dizendo que o aumento dos feminicídios seria culpa da esquerda.
É uma fala partidária, irresponsável e fora da realidade. E ela esquece um detalhe fundamental: fomos justamente nós, as mulheres feministas e progressistas desta cidade, que lutamos na rua, no conselho e na Câmara para criar a Patrulha Maria da Penha e para fortalecer a Secretaria da Mulher. Usar o cargo que nós ajudamos a criar para espalhar desinformação partidária em cima do corpo de mulheres mortas é desrespeitar a história e desrespeitar as vítimas.
E eu me pergunto: que educação estamos nos dando?
Não estou falando só da escola. Estou falando da sociedade que educa, da família que educa, do indivíduo que precisa se reeducar. Estamos falhando em todos esses lugares.
Falhamos quando trocamos uma educação emocional e existencial profunda por slogans vazios. Falhamos quando transformamos conceitos feministas vitais, que deveriam ser pontes de igualdade, em armas para uma guerra de acusação mútua – seja para atacar ou para fazer politicagem barata. Isso não transforma. Isso potencializa a raiva.
O que ensinamos aos nossos meninos sobre frustração, rejeição, sobre limite e sobre amor? Uma educação que não ensina a sentir, a respeitar e a existir com o outro, não educa. Ela arma o agressor.
E não posso deixar de perguntar: o que o narcotráfico tem a ver com isso? Tudo.
Quem mora em Búzios sabe que o tráfico não vende só droga. Ele impõe um modelo de ser homem: poder é ter uma arma, respeito é gerar medo, e mulher é objeto. Quando o Estado não ocupa com educação, cultura e oportunidade, é essa pedagogia do crime que ocupa. É essa pedagogia que está condicionando nossos jovens e que está nos matando cada vez mais. É falta de preparo para combater ou é conivência que já normalizamos?







Não dá mais para aceitar.
Não podemos continuar com medidas protetivas que são um pedaço de papel que o agressor rasga antes de matar. O sistema atual não protege. Precisamos exigir uma reforma judicial de verdade.
Precisamos de canais de denúncia diretos, seguros e que funcionem 24 horas, sem que a mulher precise peregrinar e se expor. Precisamos que a medida protetiva seja fiscalizada com tornozeleira eletrônica no agressor e não com medo na vítima. Precisamos de penalidades muito mais altas, sem progressão fácil de regime para quem mata uma mulher por ser mulher. Precisamos que a justiça seja rápida, antes que vire feminicídio.
Esses dois crimes em Vila Verde não são casos isolados. São o grito de uma cidade que precisa decidir o que quer ensinar e que tipo de justiça quer ter.
Hoje, o silêncio nos torna cúmplices.



