O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) foi entrevistado nesta sexta-feira (28) pelo Jornal Nacional, dando sequência à série da TV Globo com os presidenciáveis. Em cerca de 40 minutos, o senador respondeu a questionamentos sobre economia, democracia, 8 de Janeiro, Banco Master, milícias e a trajetória política da família Bolsonaro. Na apresentação de um projeto próprio para o país, porém, predominou a exposição de diretrizes gerais, com poucas respostas sobre como as propostas seriam executadas.
Na economia, Flávio prometeu promover um ajuste fiscal sem alterar aposentadorias ou a política de valorização do salário mínimo. Entre os caminhos citados estão o combate a fraudes, a redução do número de ministérios e de cargos comissionados e uma proposta de contenção de despesas envolvendo os Três Poderes. O candidato também falou em reduzir impostos e criar um programa de renegociação de dívidas voltado a mais de 100 milhões de brasileiros.
Quando questionado sobre o tamanho do ajuste necessário nas contas públicas, no entanto, Flávio não apresentou valores nem indicou quanto pretende economizar com os cortes. Também não detalhou quais ministérios seriam eliminados ou quais despesas seriam reduzidas.
A dificuldade em transformar as diretrizes econômicas em medidas concretas já havia aparecido antes da entrevista. Daniella Marques, responsável pela área econômica da campanha, afirmou à Folha de S.Paulo nesta semana que parte do detalhamento dependerá das discussões no Congresso. Em encontros com empresários e representantes do mercado financeiro, foi ela quem concentrou a apresentação das propostas econômicas, enquanto Flávio tratou principalmente das questões políticas.
Sobre os juros, o candidato afirmou que a recuperação da confiança na economia a partir de sua eleição ajudaria a reduzir a taxa. A Selic, no entanto, é definida pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central. Flávio não apresentou durante a entrevista uma política específica que sustentasse a previsão de queda.
O senador também defendeu o fim da reeleição para cargos do Executivo e já apresentou uma proposta de emenda à Constituição sobre o tema. A ideia discutida pelo candidato prevê substituir a possibilidade de reeleição por um mandato único mais longo.
Bolsonaro, 8 de Janeiro e controvérsias ocuparam parte da entrevista
Boa parte da sabatina acabou concentrada em temas ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro e à própria trajetória política de Flávio.
Questionado sobre o processo eleitoral, o candidato afirmou que respeitará o resultado das eleições de outubro. Também reconheceu ter errado ao dizer anteriormente que as urnas eletrônicas brasileiras eram fabricadas por uma empresa venezuelana.
Flávio, por outro lado, negou que tenha ocorrido uma tentativa de golpe de Estado após a derrota de Jair Bolsonaro em 2022 e prometeu anistiar os envolvidos nos atos de 8 de Janeiro de 2023. O ex-presidente foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal por participação na tentativa de ruptura institucional.
Outro momento da entrevista tratou do financiamento de “Dark Horse”, produção cinematográfica sobre Jair Bolsonaro que recebeu recursos relacionados ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.
Flávio defendeu a legalidade do financiamento e afirmou que as informações relevantes sobre o projeto estavam públicas. A declaração foi posteriormente classificada como falsa em checagem do UOL, que apontou que não havia sido divulgada publicamente uma prestação de contas da produção.
O candidato também respondeu sobre a homenagem que concedeu ao ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega, posteriormente apontado pelas autoridades como liderança de uma milícia. A entrevista abordou ainda questionamentos anteriores de Flávio sobre o sistema eleitoral e declarações sobre mudanças climáticas.
Visualmente, Flávio também recuperou uma estratégia utilizada pelo pai. Durante a entrevista, apareceu com as palavras “mudança”, “futuro” e “7/set” escritas na palma da mão. Jair Bolsonaro utilizou anotações semelhantes nas entrevistas ao Jornal Nacional durante as campanhas de 2018 e 2022.
Ao fim da sabatina, foi possível identificar algumas propostas — redução da estrutura do governo, controle de gastos, corte de impostos, renegociação de dívidas e fim da reeleição —, mas questões centrais sobre custos, metas, prioridades e formas de implementação permaneceram sem detalhamento.
A entrevista também evidenciou quanto a candidatura de Flávio Bolsonaro permanece vinculada ao legado político do pai. Entre perguntas sobre Jair Bolsonaro, 8 de Janeiro, Banco Master e episódios da própria trajetória do senador, o espaço destinado à apresentação de um programa de governo acabou reduzido.
A série de entrevistas
Flávio Bolsonaro deu sequência à rodada de entrevistas do Jornal Nacional acompanhada pela Prensa de Babel. Nas sabatinas anteriores, Romeu Zema (Novo) ganhou repercussão por uma troca de palavras ao responder sobre políticas de enfrentamento à violência contra a mulher; Ronaldo Caiado defendeu anistia aos envolvidos no 8 de Janeiro e teve dificuldade para transformar parte de suas respostas em propostas objetivas; Renan Santos (Missão) mostrou desenvoltura na entrevista, mas apresentou medidas com entraves constitucionais ou de aplicação; e Lula (PT) enfrentou questionamentos sobre economia, governo e as investigações envolvendo um de seus filhos.
A rodada permite comparar não apenas o desempenho dos candidatos diante dos entrevistadores, mas principalmente quais propostas cada um apresentou, como pretende executá-las e quais perguntas ficaram sem respostas concretas.



