Padre Omar Raposo, reitor do Santuário do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, reconheceu a si mesmo assim que viu a peça. Diante dele estava um retrato feito por Eva Gomes, a Tia Eva, com fibras naturais. O sacerdote observou os detalhes, sorriu e mostrou a obra aos presentes. A identificação imediata deu lugar à emoção — e a uma brincadeira da artesã.
Eva é conhecida por transformar taboa, palha de milho, fibra de bananeira e fibra de coco em figuras sacras e personagens. Ao entregar o retrato ao padre, lembrou que boa parte de sua trajetória foi dedicada a representar santos que já morreram e foram canonizados pela Igreja. Agora, disse ela, Padre Omar teria um compromisso: também precisava virar santo.
A piada provocou risos, mas o momento carregava uma relação construída ao longo do tempo. Padre Omar é também presidente da Obra Social O Sol, no Jardim Botânico, espaço que faz parte da própria formação de Eva. Foi ali que ela teve contato com o artesanato ainda na década de 1970. Hoje, a artesã retorna ao local como mestre, ensinando outras mulheres a trabalhar com fibras naturais no projeto “Simples e Divino – Fibra que Vira Arte”.

A proximidade também ganhou uma dimensão internacional. Eva acaba de entregar mais um presépio que representará o Brasil na exposição “100 Presépios no Vaticano”. Desta vez, a artista parte da paisagem do Rio de Janeiro para construir sua leitura do nascimento de Jesus.
A nova obra evoca as favelas cariocas e o contexto social dos morros da cidade. Casas, relevo e ocupação urbana entram na composição do presépio, aproximando uma cena tradicional da realidade brasileira. Como nos trabalhos anteriores, Eva utiliza fibras naturais reaproveitadas, mantendo no material a relação com a terra e com o território de onde vem sua arte.
A peça entregue a Padre Omar, porém, tem outra intimidade. Não representa um personagem religioso distante nem uma figura histórica. É o retrato de alguém diante de quem Eva esteve pessoalmente, captando em fibras naturais os traços de um sacerdote que também se tornou parte da história recente de seu trabalho.
Quando Padre Omar se reconheceu e fez questão de mostrar a peça aos presentes, Eva assistiu à cena com a familiaridade de quem sabe que seu artesanato pode carregar mais do que uma imagem. Naquele encontro, carregou também afeto, memória e humor.
E deixou para o padre uma tarefa que, segundo ela, ainda está por fazer: virar santo.
Uma aspas que preserve a emoção do momento e a brincadeira, sem soar ensaiada:
“Eu já fiz tantos santos que já partiram e foram reconhecidos pela Igreja. Agora fiz o Padre Omar. Já falei para ele que o próximo compromisso é virar santo também. Mas, antes disso, eu queria que ele recebesse essa peça como um gesto de carinho e de gratidão por tudo o que ele representa para a nossa arte.”, disse.





