Por Belén Maria Baigorria, representante do Movimento Por Nossos Filhos e da Rede de Mãe à Mãe_
Há um fenômeno social acontecendo bem debaixo dos nossos narizes e somente alguns poucos se atrevem a escrever com honestidade, assim como fez meu amigo Charles Pontes Gomes, em seu brilhante artigo “Novo voto de cabresto com margem de erro”. Foi a partir da leitura dele que essa reflexão nasceu em mim.
Ele me convidou a observar. E eu observei.
Observei nas feiras, nas filas do posto de saúde, nos grupos de mães da escola, no ponto do ônibus. E observei também no último domingo, dia 22, na manifestação dos estudantes do “Vozes Livres”. Ali ficou escancarado: foi um êxito total de adesão da cidade, não só pela participação corajosa de quem estava na rua, mas pelo apoio nítido de quem passava, de quem observava das janelas de suas casas e das portas de seus comércios.
Ali eu vi, ao vivo, esse percentual significativo da população que, legitimamente, não sabe em quem votar. E não é por desinformação.
São pessoas lúcidas, informadas, trabalhadoras. Mas que carregam uma agonia silenciosa e solitária: a de ter que se decidir por alguém, ou por um pacote de parâmetros sociais, econômicos e culturais que simplesmente não se encaixam na sua psique.
Eu as escuto. E o que ouço não é alienação. É um descompasso profundo entre o que o sistema político oferece e o que a alma humana pede.
A régua que lhes é imposta mede crescimento, aliança, mercado, palanque. A régua interna delas mede outra coisa: humanidade. Mede compaixão. Mede cuidado.
Num país de voto obrigatório, esse descompasso vira violência. Porque essas pessoas são obrigadas a votar e, pior, são obrigadas a se justificar o tempo todo. Há um tribunal duplo em curso: o julgamento externo, que as chama de isentas, em cima do muro, alienadas; e o julgamento interno, que as faz sentir culpa por não conseguirem vestir uma camisa com entusiasmo.
Quantas vezes, como observadora, vi pessoas limparem a própria reputação social com um voto que não existiria se não fosse o medo do preconceito? Votam não porque acreditam, mas para não serem excluídas da roda, da família, do grupo de trabalho. Escolhem um número para comprar o direito de continuar pertencendo.
Existe, e eu vejo claramente, uma parcela da população que gostaria de ter o privilégio mais subversivo dos nossos tempos: o privilégio de não querer saber. Não por ignorância, mas por lucidez e autopreservação. O privilégio de dizer: “nenhuma dessas narrativas me representa, e eu me recuso a violentar minha consciência só para cumprir um ritual”.
Mas o sistema não permite. Ele as arrasta até a urna no último minuto e exige que definam, sobre a hora, em dois segundos, quatro anos de suas vidas.
Se eu pudesse fazer um convite a essas pessoas que observo com tanto respeito – inclusive àqueles vizinhos solidários que apoiaram os estudantes no domingo desde suas janelas -, eu diria:
Se já que o voto é obrigatório e vocês terão que votar, que esse gesto final não seja definido pelo medo, pela raiva, pela estratégia do “menos pior” ou pelo que vão pensar de vocês.
Que, nestes casos-limite, o voto seja definido pelo único parâmetro que nunca falha: o amor.
Não o amor romântico por um candidato, mas o amor como lei universal. Votar se perguntando: qual dessas escolhas, ainda que imperfeita, se aproxima mais da humanidade? Qual fere menos? Qual cuida mais? Qual se aproxima da lei de que nenhuma criança deve ter fome, de que nenhuma mãe deve ser deixada só, de que a escola deve ser um lugar de afeto?
Quando a política não encaixa, só o que é humano encaixa.
E talvez seja esse voto, o voto silencioso, envergonhado, dado por amor e não por cartilha, o mais honesto de todos.



