A Doença de Crohn (DC), inflamação intestinal crônica que pode afetar qualquer trecho do sistema digestivo, tem avançado no Brasil e preocupa especialistas pela dificuldade de diagnóstico precoce e pelo risco de complicações graves.
Com maior incidência nas regiões Sul e Sudeste, a doença tem avançado no Brasil. Dados da pesquisa "Tendências temporais na epidemiologia das doenças inflamatórias intestinais no sistema público de saúde no Brasil: um grande estudo de base populacional", publicada na revista The Lancet Regional Health – Américas e repercutida pelo Jornal da USP, indicam crescimento médio de 12% ao ano no país.
De acordo com o cirurgião do aparelho digestivo e coloproctologista, especialista em doença de Crohn do Instituto Medicina em Foco, Dr. Rodrigo Barbosa, a DC impacta profundamente a rotina do paciente. No aspecto alimentar, muitas pessoas passam a temer a alimentação devido à dor, à diarreia ou à distensão abdominal, o que pode levar à restrição excessiva e à desnutrição.
No ambiente de trabalho, as crises inflamatórias podem provocar afastamentos frequentes, fadiga intensa e dificuldade de concentração. "Do ponto de vista emocional, é comum observar ansiedade, insegurança social e até sintomas depressivos, especialmente em pacientes jovens que convivem com uma doença crônica e imprevisível", acrescenta o médico.
Segundo o especialista, a origem é multifatorial. Há predisposição genética, sobretudo em indivíduos com histórico familiar de doenças inflamatórias intestinais. "Fatores ambientais também influenciam, como tabagismo, alterações da microbiota intestinal, dieta ultraprocessada e possíveis gatilhos infecciosos. No entanto, nenhum fator isolado explica totalmente o desenvolvimento da doença", detalha o Dr. Rodrigo Barbosa.
Diagnóstico precoce evita complicações
Diagnosticado em 2020 com a doença de Crohn, o jornalista Evaristo Costa foi internado no início de 2024 para tratar uma crise relacionada à condição. "Quero que saibam que agora estou bem. Sem dores, medicado e assistido 24h", publicou em seu perfil no Instagram. Casos envolvendo figuras públicas ampliam o debate sobre a doença e reforçam a importância do diagnóstico e do tratamento adequados.
Conforme ressalta o especialista, o atraso no diagnóstico está entre os principais fatores associados a complicações. A inflamação persistente pode evoluir para estenoses, fístulas, abscessos e demandar cirurgias mais complexas.
"Quanto mais tempo a doença permanece ativa sem tratamento adequado, maior o risco de dano estrutural irreversível ao intestino. O diagnóstico precoce permite controle inflamatório antes que essas complicações se instalem", observa.
Entre os sinais que exigem investigação especializada estão diarreia persistente por mais de quatro semanas, dor abdominal recorrente, perda de peso involuntária, presença de sangue nas fezes, febre sem causa definida e anemia.
Avanços no tratamento e cuidado contínuo
Segundo o Dr. Rodrigo, que também é fundador do NuDii (Núcleo de Doenças Inflamatórias Intestinais do Instituto Medicina em Foco), o tratamento da Doença de Crohn evoluiu de forma importante nos últimos anos. Além das terapias imunomoduladoras e biológicas já consolidadas, novas abordagens vêm ampliando o controle da inflamação intestinal, como o Guselcumabe, anticorpo monoclonal direcionado à via da interleucina-23, que tem demonstrado resultados promissores na indução e manutenção da remissão da doença.
"O objetivo atual não é apenas controlar sintomas, mas alcançar a cicatrização da mucosa intestinal e evitar a progressão da inflamação", explica.
Ele destaca ainda que o manejo da doença exige acompanhamento contínuo e abordagem multidisciplinar, com orientação nutricional, controle de fatores de risco — como o tabagismo — e adesão adequada ao tratamento, mesmo durante os períodos de remissão.
Pesquisa clínica e novos medicamentos
Além do cuidado assistencial, o NuDii também participa do desenvolvimento de novas terapias para doenças inflamatórias intestinais por meio da pesquisa clínica. O braço de pesquisa do núcleo é a Solare Trials, centro dedicado à condução de estudos clínicos que avaliam medicamentos inovadores para condições como a Doença de Crohn.
Esses estudos permitem ampliar o conhecimento científico e, em alguns casos, oferecer aos pacientes acesso a terapias em investigação sob acompanhamento especializado.
Portadores de Doença de Crohn que buscam cuidado integrado podem acessar o portal do NuDii e saber mais sobre acompanhamento especializado e oportunidades de participação em pesquisas clínicas.



