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Três vezes não

Uma história real em Búzios onde memória falha, malandragem e coincidência transformam o mesmo carro em três roubos — e nenhum
Entre goles, desencontros e memória falha, um carro vira “roubado” três vezes na mesma noite em Búzios — e nunca saiu do lugar certo - Imagem ilustrativa gerada por IA
Entre goles, desencontros e memória falha, um carro vira “roubado” três vezes na mesma noite em Búzios — e nunca saiu do lugar certo - Imagem ilustrativa gerada por IA

Três vezes não

Éramos mais que amigos. Quase irmãos. Ele repetia aos quatro cantos que só estava em Búzios por minha causa.
O conheci em 1997, na saudosa Pousada/Bar A Estalagem, na Rua das Pedras, que havia arrendado do Bruce Henry um ano antes.

Se apresentou como contrabandista (a palavra é essa mesma) de whisky, bebidas em geral e cigarro Gudang Garam. Tudo made in Paraguai.

Sim, ele vendia whisky falsificado, mas também tinha produtos originais. Ficava ao sabor do cliente. Eu comprava pouco, mas usei minha influência e o apresentei a outros comerciantes — o que fez aumentar suas vendas.

E assim, passou a morar em Manguinhos e, entre uma e outra ida à Praia de João Fernandes para entregar mercadorias, conheceu um argentino decepcionado com a cidade e passou a alugar os caiaques que o gringo acreditava que o fariam rico. Meu amigo herdou uma dívida, vários caiaques e um bugre. E, em pouco tempo, virou referência na praia.

Carioca do bairro do Méier, sempre gostou de jogos e, por algum tempo, comandou as mesas de baralho no Morro do Alemão. Preparava as mesas, servia cafezinho, controlava as apostas e, claro, ficava com parte do rateio. Sendo assim, sempre ganhava. A casa sempre ganha.

Teve infância e adolescência fartas graças ao pai, que trabalhava na melhor loja de produtos alimentícios importados da época. Por causa da ascendência paterna, tinha acesso ao que havia de melhor da cultura italiana — o que favoreceu seu paladar.

Quebrado em Búzios, tentava de tudo para se reerguer e voltar a ser o que foi um dia: um bon vivant afeito a bons whiskies, cigarros importados e comidas de primeira.

Parou de vender bebidas e se dedicou totalmente ao negócio da praia, e viu a vida melhorar: comprou carros, barco, criou um bolão com jogos de futebol e ficou tão famoso que alguns amigos tentaram levá-lo para a política.

Recusou de primeira. Dizia que políticos eram todos corruptos, ladrões etc. Mas ele mesmo não era nenhum exemplo de bom cidadão. Quase sempre vestido com uma jaqueta camuflada, repetia que, na época da ditadura militar, o Brasil era melhor. Porém, nada fazia para melhorar a pátria.

Não gostava de pagar as contas. Comprou a prazo dois carros usados de amigos, pagou algumas prestações e depois se fingiu de morto. Fez o mesmo com o dono do barco, outro amigo que lhe perdoou a dívida. Costumava alugar casas por um valor específico e, com o passar dos dias, começava a colocar defeitos nos imóveis para pedir descontos. Um senhorio menos atento poderia acabar pagando em vez de receber.

O cara era terrível. Dirigia bêbado e com habilitação vencida. Tinha sempre que podia “gato” na água e na luz. Internet, sugava da vizinhança.
“Nunca dei um cheque bom”, era esse seu bordão. O famoso 171 brasileiro.
Mas era um sujeito bom, apesar de tantos defeitos. Vivo hoje, seria mais bolsonarista que o próprio Bolsonaro.

Uma noite, esse amigo de quem tenho saudades bebeu demais no meu bar — coisa que fazia com frequência. Teimou em voltar dirigindo e tentei evitar. Como último recurso, propus dirigir o carro até sua casa e voltar de táxi. Ele aceitou e fomos até a rua onde o carro estaria, uma quadra adiante.

Como não respeitava quase nenhuma regra, estacionava seu carro numa das duas vagas do Ministério Público, coisa que quase ninguém ousava. Chegamos lá e, para nossa surpresa, o veículo não estava. Nem o tradicional flanelinha da rua para nos dar alguma informação.

Rebocado não foi, pois esse serviço não havia na cidade. Só podia ter sido roubo — afinal, estávamos no verão, época em que esse tipo de crime aumenta. Ele ficou puto, falou que ia ligar para um amigo delegado, para um general etc.

Eu, mais tranquilo, acreditava mesmo que o carro deveria estar em outro lugar. Chamei um táxi e pedi para levar o bêbado até sua casa. Por instinto, lhe pedi as chaves do veículo. Voltei ao bar e, horas depois, o fechei.

Com as ruas quase vazias, saí em busca do tal carro roubado e o encontrei uns duzentos metros de onde deveria estar. Levei até a rua onde morava e o deixei defronte à janela do meu quarto, num sobrado onde vivi por 25 anos.

Por causa do trabalho, dormia e acordava tarde, mas meu amigo, dono de barraca de praia, acordava cedo. Refeito da bebedeira, lembrou onde havia deixado seu Fiat Palio com B.A., a famosa busca e apreensão por falta de pagamentos.

Chamou seu funcionário de maior confiança, lhe entregou a chave reserva e indicou o local onde deixou o bem. O funcionário, ao chegar ao local, não encontrou o veículo. Tentou avisar ao patrão, mas ele já estava na praia e, lá, o sinal do celular não funcionava bem.

Esse lapso de tempo é muito importante nessa história, e peço que prestem bem atenção.

O amigo, sem informações, trabalhando na praia; eu, dormindo; e o funcionário indo em direção à casa lotérica. E foi nessa caminhada que ele passou em frente à minha casa, encontrou o carro e, sem ter como avisar ao patrão, o levou.

Minutos depois, meu amigo me liga e, antes que eu fale qualquer coisa, lamenta:

— Poxa, Sandro, roubaram meu carro mesmo.

— Não, amigo. Você não o deixou em frente ao MP.

— Eu sei. Lembrei de manhã e mandei o Gerê ao lugar certo, e o carro não estava lá.

Eu estava em pé e, antes de informar que o carro estava em frente à minha casa, abri a janela e… cadê? O mesmo não estava lá.
E então foi a minha vez de errar:

— Roubaram mesmo.

E foi assim que, por algum tempo, o mesmo carro havia sido roubado três vezes — e nenhuma.

Foi somente quando o funcionário chegou à praia que o mistério foi resolvido

Sandro Peixoto, jornalista e cronista, em Búzios foi repórter por mais de uma decáda de O Perú Molhado.

Octavio Raja gabaglia

Octavio Raja Gabaglia, o carismático Otavinho, é um nome que ressoa nas praias, encostas e telhados de Búzios. Esse arquiteto genial, conhecido pelo bom papo e pela mente afiada, conseguiu, com engenhosidade, domar os ventos, convidar a luz do sol para habitar as casas com gentileza, além de convencer a paisagem exuberante a fazer parte de sua obra.

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