A obra de saneamento de Cem Braças, em Búzios, acompanhada pela Prensa de Babel desde 2025 e tema da reportagem do Prensa Podcast premiada no Prêmio Prolagos de Jornalismo Ambiental, entrou em uma nova etapa e ganhou dimensão maior do que a inicialmente apresentada. A segunda fase prevê aproximadamente seis quilômetros de novas tubulações em 19 ruas e atendimento a 700 imóveis. Somadas às intervenções já concluídas, 1.116 famílias deverão ser alcançadas pelo sistema separador absoluto de esgoto.
O avanço representa um novo capítulo de uma intervenção considerada estratégica não apenas para Cem Braças. O bairro está diretamente relacionado a um problema ambiental acompanhado há anos em Manguinhos e Rasa, a presença de contribuição de esgoto no sistema de drenagem pluvial, que tem como destino final áreas próximas às praias.
A primeira etapa foi concluída em dezembro de 2025, segundo a Prolagos, com 3,1 quilômetros de rede implantados em 14 ruas e atendimento previsto para 416 imóveis. Agora, a segunda fase acrescenta outros seis quilômetros e 700 imóveis.
O que mudou desde 2025
Quando a Prensa acompanhou a intervenção em Cem Braças em 2025, o projeto estava concentrado inicialmente no atendimento a cerca de 700 imóveis. Naquele momento, a obra avançava por etapas e a Prefeitura realizava as ligações domiciliares nos trechos onde a Prolagos já havia instalado a rede pública.
Agora, os números apresentados pela concessionária mostram uma ampliação significativa do projeto.
Com as duas fases, serão aproximadamente 9,1 quilômetros de tubulações, alcançando 1.116 famílias. A segunda etapa, sozinha, prevê seis quilômetros de rede, 19 ruas, 700 imóveis e a construção de 126 poços de visita (PVs), utilizados para inspeção e manutenção do sistema.
A parceria entre Prefeitura e concessionária também permanece. A Prolagos executa a infraestrutura pública e o município realiza as adequações necessárias para conectar os imóveis à nova rede.
Essa ligação é uma etapa fundamental, ter uma tubulação disponível na rua não significa, por si só, que o esgoto daquela residência já esteja sendo coletado e tratado.
Cem Braças tem um desafio que está debaixo da terra
A nova etapa também evidencia uma característica conhecida por quem acompanha os problemas de infraestrutura de Cem Braças. O bairro possui lençol freático elevado, além de diferentes redes e estruturas já instaladas no subsolo. Essas condições tornam as escavações mais complexas.
Segundo o gerente de Engenharia da Prolagos, Iran Correia, cada trecho exige avaliação específica.
“Essa é uma obra que apresenta desafios técnicos importantes, já que está sendo executada em uma área com lençol freático elevado e diversas interferências subterrâneas, como tubulações de outras infraestruturas urbanas. Cada escavação demanda uma solução específica para garantir a segurança dos trabalhadores, preservar as estruturas existentes e assegurar a qualidade da rede que está sendo implantada”, explicou.
A execução envolve abertura e escoramento de valas, drenagem do terreno quando necessária, análise das condições do solo, instalação das tubulações, testes hidráulicos e posterior recomposição das vias.
Uma história de água, esgoto e alagamentos
A complexidade técnica ajuda a explicar um problema histórico de Cem Braças. O bairro, localizado em uma área com características que dificultam a drenagem, convive há décadas com alagamentos e com a necessidade de utilização de sistemas de bombeamento.
Antes da expansão da rede separativa, parte da região dependia do chamado sistema de coleta em tempo seco, que busca interceptar contribuição de esgoto presente na drenagem.
Na reportagem produzida pela Prensa em 2025, moradores e técnicos relataram como o problema ultrapassava os limites do bairro.
As águas pluviais provenientes da região seguem em direção ao litoral e o lançamento irregular de esgoto na drenagem tinha reflexos especialmente em Manguinhos, incluindo a área da Rua Rancho Mutã/Barra Grande.
Por isso, a implantação da rede separadora representa mais do que a substituição de fossas, filtros e sumidouros dentro de Cem Braças.
O objetivo ambiental é fazer com que esgoto e água da chuva sigam caminhos diferentes.
O impacto que precisa ser medido em Manguinhos
Durante a apuração realizada pela Prensa, Prefeitura, moradores e representantes da sociedade civil já apontavam redução dos episódios de despejo emergencial na região da Rancho Mutã.
Na ocasião, a Prefeitura informou que uma bomba instalada na Avenida José Bento Ribeiro Dantas permanecia em funcionamento contínuo para encaminhar o efluente à estrutura da Prolagos, evitando que seguisse pela drenagem em direção ao mar.
A Associação de Moradores das Praias de Manguinhos e Rasa (Amanrasa) também acompanhava a execução e os efeitos ambientais das intervenções.
Com a ampliação da rede, uma das questões que passa a ser relevante é justamente mensurar esse resultado: quantas residências deixaram efetivamente de contribuir com esgoto para a drenagem e qual impacto essa mudança já produziu sobre a qualidade ambiental de Manguinhos e Rasa.
Prefeitura fará as ligações das residências
Um dos diferenciais do projeto continua sendo a divisão de responsabilidades entre concessionária e poder público.
Enquanto a Prolagos instala a rede pública, a Prefeitura realiza as adequações internas necessárias para conectar as residências.
Na primeira etapa acompanhada pela Prensa, a administração municipal informou que decidiu assumir o custo dessas ligações, que normalmente seria responsabilidade do proprietário do imóvel.
O secretário municipal de Saneamento e Drenagem, Aziel Vieira, afirma que a medida é determinante para que a infraestrutura instalada seja efetivamente utilizada.
“Essa dobradinha com a concessionária é inédita e vai garantir a efetividade da obra, pois estamos entrando para fazer a conexão das casas após a instalação da rede de esgoto. O sistema separador absoluto vai dispensar o uso de fossa, filtro e sumidouro”, afirmou.
Ao final do processo, os imóveis conectados deixarão de depender dessas soluções individuais e terão o esgoto encaminhado para tratamento.

Esgoto segue para tratamento terciário
Todo o esgoto coletado pela nova rede será encaminhado para a Estação de Tratamento de Esgoto de São José, em Búzios.
Segundo a Prolagos, a unidade opera com tratamento em nível terciário, etapa mais avançada do processo e destinada a aumentar a remoção de poluentes antes da devolução do efluente tratado ao meio ambiente.
Cem Braças passa, assim, a ampliar sua integração ao sistema separador absoluto já presente em diferentes áreas do município.
A concessionária cita entre as regiões atendidas Manguinhos, Geribá, Centro, João Fernandes, Ossos, Praia Brava, Praia do Forno, Ferradura, Praia do Canto, Vila Caranga, Alto de Búzios, Tartaruga, Canto Esquerdo, Tucuns, Hospital, Aretê e Balneário de Búzios.
Do trabalho premiado à segunda fase da obra
O saneamento de Cem Braças foi um dos pontos centrais da reportagem produzida pela jornalista Camila Raupp para o Prensa Podcast, trabalho que conquistou o segundo lugar no Prêmio Prolagos de Jornalismo Ambiental de 2025.
A apuração acompanhou não apenas a implantação das tubulações, mas a relação entre saneamento, drenagem e qualidade das águas que chegam às praias de Manguinhos e Rasa.
Naquele momento, moradores já começavam a perceber mudanças nos trechos onde as primeiras ligações haviam sido realizadas, enquanto permanecia o desafio de levar o sistema ao restante do bairro.
A nova fase mostra que o projeto avançou e teve seu alcance ampliado. Ao mesmo tempo, abre uma nova etapa de acompanhamento. Depois dos quilômetros de tubos instalados, o próximo número que importa é outro: quanto esgoto efetivamente deixou de seguir em direção ao mar.



