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Rodovia às escuras: um ano depois, a RJ-102 volta a mergulhar no abandono

Após denúncias, promessas e ajustes pontuais, a principal porta de entrada de Búzios retorna ao mesmo cenário de insegurança. Moradores refazem o caminho das sombras e encontram a velha escuridão intacta
Fotografia do trecho da RJ 102 a noite - Prensa de Babel
Fotografia do trecho da RJ 102 a noite - Prensa de Babel

Na primeira vez, Marcos Nóbrega ainda acreditava que seria provisório. Professor universitário, morador da Rasa, ele descreveu à reportagem, há mais de um ano, o medo de atravessar a RJ-102 à noite, na entrada de Búzios. Falava de postes apagados, de trechos longos sem qualquer ponto de luz, de uma rodovia que parecia desaparecer no escuro. A matéria foi publicada. Vieram respostas oficiais, visitas técnicas, algumas lâmpadas trocadas. Por um curto período, a estrada voltou a ser visível.

Agora, Marcos dirige novamente no mesmo horário. O volante firme, os olhos atentos. A paisagem é outra vez a mesma: sombras contínuas, intervalos largos de escuridão, pontos de luz isolados que não iluminam o suficiente nem para afastar o medo. “Voltamos à estaca zero”, resume, sem elevar a voz.

A RJ-102 é mais que uma rodovia. É o primeiro contato de quem chega a Búzios por terra. Liga a Amaral Peixoto ao trevo do Cruzeiro, corta áreas residenciais, recebe trabalhadores, estudantes, turistas. À noite, porém, transforma-se num corredor de risco. Marcos não é o único a perceber. O militar da reserva Luiz Antonio, que no ano passado decidiu transformar a indignação em método, refez o levantamento que havia realizado antes da primeira reportagem.

Naquela época, caminhou e dirigiu pelo trecho entre a rotatória da RJ-106, ainda em Cabo Frio, e o Cruzeiro, já em território buziano. Contou poste por poste. Dividiu o trajeto usando a Rua do Suspiro, no loteamento Praias Rasas III, como marco. O resultado foi quase didático: dezenas de lâmpadas apagadas, quase metade da iluminação inoperante. O levantamento virou dado público, citado por moradores, encaminhado a órgãos oficiais.

Após a repercussão, equipes apareceram. Houve manutenção. Algumas luminárias acenderam. A rodovia respirou por alguns meses. Agora, Luiz repete o trajeto e reconhece o cenário. “As luzes voltaram a apagar. Algumas nunca mais acenderam”, diz. O padrão se repete: trechos longos sem iluminação, sensação de abandono, medo de acidentes e de assaltos.

Moradores relatam que o problema se soma a furtos de fios, vandalismo e ausência de manutenção contínua. Para quem passa todos os dias, não é um dado técnico, é uma experiência física. Cristiane Silva, comerciante da região, acompanha o movimento da estrada do próprio negócio. “Quando escurece, a rua muda. As pessoas andam mais rápido, evitam parar. Todo mundo sabe que ali fica perigoso”, conta.

Diante do retorno do problema, a Prensa de Babel voltou a procurar os responsáveis. No dia 21 de janeiro deste ano, a reportagem entrou em contato formal com a Prefeitura de Cabo Frio e com a Enel, solicitando esclarecimentos sobre a situação da iluminação pública na RJ-102, especialmente nos trechos de Maria Joaquina e Flecheira. Até o fechamento desta matéria, a Enel, taxativa, respondeu: ” (…) a iluminação pública é uma responsabilidade da gestão municipal”. APrefeitura de Cabo Frio, seguiu a mesma linha: ” (…) responsabilidade da iluminação da RJ-102 é do governo do Estado”. Governo do Estado: silêncio.

O silêncio ou a reposta “control C control V ” reforçam a sensação de abandono vivida por quem depende da rodovia. No discurso público, o roteiro segue conhecido: prefeituras apontam o Departamento de Estradas de Rodagem como responsável; o DER cita vandalismo e furtos; a concessionária de energia fala em atribuições compartilhadas. No meio desse empurra-empurra, a estrada permanece escura.

“É sempre assim. Um empurra para o outro”, diz Cristiane. “Enquanto isso, a gente anda no escuro.”

Dia e noite do ambandono da RJ 102.

O retorno da escuridão acontece no pior momento possível. O verão avança, o fluxo de veículos aumenta, turistas chegam sem conhecer o trecho, trabalhadores circulam em horários de menor movimento. A rodovia, que deveria funcionar como cartão de visita, vira um teste de sobrevivência. “Não é só desconforto. É risco real”, insiste Marcos. “Acidente, assalto, atropelamento. Tudo fica mais provável quando não se enxerga.”

Um ano depois da primeira denúncia, a história não avançou. Apenas completou o ciclo. As lâmpadas que acenderam se apagaram. As promessas se perderam no tempo. A RJ-102 voltou a ser um caminho de sombras.

E quem passa por ali à noite aprende rápido: na entrada compartilhada por Búzios e Cabo Frio, a escuridão também sabe esperar.

Octavio Raja gabaglia

Octavio Raja Gabaglia, o carismático Otavinho, é um nome que ressoa nas praias, encostas e telhados de Búzios. Esse arquiteto genial, conhecido pelo bom papo e pela mente afiada, conseguiu, com engenhosidade, domar os ventos, convidar a luz do sol para habitar as casas com gentileza, além de convencer a paisagem exuberante a fazer parte de sua obra.

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