A forte ressaca que atingiu Búzios na madrugada de domingo (24) destruiu parte da orla da Praia do Canto e danificou nove imóveis, oito deles com desabamentos parciais. O episódio levou a Prefeitura a isolar o trecho de maior risco e acendeu um alerta antigo: a combinação entre desequilíbrio climático e décadas de ocupação irregular sobre áreas de marinha está tornando a linha de frente da cidade cada vez mais vulnerável.
Segundo a Defesa Civil, muros de contenção cederam com a força das ondas e estruturas foram levadas pelo mar. O coordenador Flávio Salme informou que engenheiros da Secretaria do Ambiente avaliam os danos para definir se haverá interdições definitivas ou apenas notificações para retirada de entulhos e reconstrução de muros.
Avanço do mar e avanço da ocupação
O impacto não pode ser explicado apenas pelas ressacas cada vez mais intensas. A Praia do Canto, como grande parte do litoral brasileiro, foi alvo de décadas de construções em áreas de marinha — faixas de terra pertencentes à União que funcionam como zonas de transição natural entre mar e continente. Ao longo do tempo, essas áreas foram ocupadas por casas e muros erguidos à beira da água, eliminando barreiras naturais e aumentando o risco de colapso diante do avanço do mar.
Especialistas apontam que, nessas situações, o mar não invade o continente sozinho; encontra, já de frente, muros de contenção mal planejados e imóveis construídos em faixa costeira estreita, o que potencializa a erosão.
Casos semelhantes no país
A cena não é isolada. Em 2010, no balneário de Ponta Negra, em Natal (RN), a erosão destruiu parte do calçadão, levando a um processo de revitalização que durou anos e exigiu grandes obras de engorda de praia. Em Balneário Camboriú (SC), a solução encontrada foi ampliar a faixa de areia por meio de dragagem, para reduzir o impacto direto do mar sobre os prédios erguidos muito próximos da linha costeira. No Rio de Janeiro, o bairro do Recreio, na Zona Oeste, já convive com muros e ciclovias cedendo em dias de ressaca, justamente pela pressão da maré sobre áreas urbanizadas.
Esses casos ilustram um dilema comum: parte do problema decorre da intensificação de fenômenos climáticos extremos, mas outra parte é resultado direto da ocupação histórica de áreas de marinha.
Debate adiado
Em Búzios, o isolamento da área afetada é apenas uma medida emergencial. O episódio reforça a necessidade de discutir, de forma ampla, como equilibrar a segurança da população, a preservação ambiental e o histórico de ocupações consolidadas em faixa costeira.
Enquanto a avaliação técnica não é concluída, moradores vivem entre o receio de novas ressacas e a expectativa de que a orla da Praia do Canto se torne um caso de estudo para o que já se desenha como uma realidade inevitável em diferentes pontos do litoral brasileiro.
ENTENDA
- Faixa de terra que se estende 33 metros para dentro do continente, contados a partir da linha média da maré alta do ano de 1831.
- Pertencem à União e estão sob gestão da Secretaria de Patrimônio da União (SPU).
- Foram originalmente delimitadas para garantir acesso público ao mar e preservar a faixa natural de transição costeira.
Números
- 8.698 km: extensão do litoral brasileiro, onde se aplicam as áreas de marinha.
- 33 m: largura da faixa de marinha, medida a partir da linha do preamar médio de 1831.
- Mais de 500 mil imóveis no Brasil estão hoje registrados como ocupantes de áreas de marinha, segundo dados da SPU.
Por que importa
- Servem como barreira natural contra ressacas e avanço do mar.
- Ocupações irregulares retiram a função de proteção da faixa costeira, aumentando erosão e risco de desabamentos.
- Estão no centro de disputas judiciais e ambientais em cidades litorâneas como Búzios, Balneário Camboriú, Recife e Natal.