No território do Quilombo da Baía Formosa, em Búzios, a água deixou de ser incerteza cotidiana. Um projeto de segurança hídrica implantado na comunidade passou a garantir acesso regular ao recurso para atividades básicas de subsistência — resultado de uma iniciativa que agora ultrapassa fronteiras: a experiência foi selecionada para apresentação em um congresso internacional ligado à ONU.

O projeto nasce da pesquisa de mestrado da geóloga Dandara Santos Rodrigues, vinculada à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A proposta combina estudo hidrogeológico com diálogo direto com a comunidade quilombola, integrando conhecimento científico e práticas tradicionais de uso da terra.
A pesquisa será apresentada em encontro da International Federation of Surveyors (FIG), organização reconhecida pela Organização das Nações Unidas, que reúne especialistas de mais de 120 países. O congresso ocorrerá na África do Sul e discute gestão territorial, recursos naturais e sustentabilidade.
Comunidade marcada pela resistência
O Quilombo da Baía Formosa reúne cerca de 190 famílias organizadas em quatro núcleos: Zebina, Cesarina, Famílias Expulsas e Famílias que vivem nas proximidades do território tradicional. A comunidade foi reconhecida oficialmente em 2011 pela Fundação Cultural Palmares.
Ali, tradições seguem presentes no cotidiano: agricultura familiar, saberes artesanais e culinária feita no fogão a lenha. Durante décadas, porém, o território também carregou uma marca de conflito fundiário.
Na década de 1970, cerca de 60 famílias foram expulsas das terras que ocupavam havia gerações. A ruptura interrompeu um modo de vida baseado na roça, na pesca e na produção comunitária. Muitas dessas famílias se dispersaram por bairros próximos, enquanto mantinham a memória do território.
A retomada do território
A virada começou de forma inesperada em uma reunião em Búzios que discutia questões ambientais envolvendo a fazenda Porto Velho. No encontro estavam representantes do Ministério Público Federal, proprietários da área e integrantes de um empreendimento imobiliário interessado no local.
A quilombola Beth Fernandes entrou na reunião sem aviso e ampliou o debate. Ao relatar a história das famílias expulsas, colocou o tema quilombola no centro da discussão.
A intervenção levou o procurador Leandro Mitidieri a iniciar uma mediação que resultaria em um acordo inédito no país. Em assembleia realizada na própria comunidade, o fazendeiro Francisco da Cunha Bueno formalizou a doação de 800 mil metros quadrados da Fazenda Porto Velho para a Associação dos Remanescentes Quilombolas de Baía Formosa.
O entendimento foi reconhecido pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), que passou a tratar a área como território coletivo quilombola, iniciando o processo de regularização fundiária.
O acordo permitiu que famílias voltassem a pisar na terra onde viveram seus pais e avós.
Planejamento do retorno

Com o território novamente reconhecido, a comunidade iniciou o planejamento da ocupação. Uma das etapas recentes foi a realização da topografia completa da área de 800 mil metros quadrados — levantamento técnico que define relevo, limites e possibilidades de uso do solo.
A ação foi articulada com apoio da prefeitura de Búzios, da Associação Quilombola e de entidades ligadas à defesa do território.
O mapeamento permite organizar a retomada de forma estruturada: definir áreas de moradia, cultivo, preservação ambiental e equipamentos comunitários.
Água como ponto de partida
É nesse contexto de reconstrução territorial que surge o projeto de segurança hídrica. A iniciativa desenvolvida por pesquisadores da UFRJ identifica fontes subterrâneas de água e orienta o uso responsável do recurso, garantindo abastecimento para a comunidade.
A execução contou com a participação da empresa Minas Energias, especializada em soluções energéticas.
Para os responsáveis, a experiência pode servir de modelo para outras comunidades rurais e tradicionais que enfrentam dificuldades semelhantes de acesso à água.
Num cenário marcado por mudanças climáticas, eventos extremos e falhas em sistemas de abastecimento, iniciativas locais como a do Quilombo da Baía Formosa passam a ocupar espaço em debates internacionais sobre sustentabilidade, território e justiça ambiental.
Em Búzios, onde a história da comunidade foi marcada por expulsão e retorno, a água passa agora a representar também permanência.


