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Quase crime

Uma ossada encontrada no mato de Búzios coloca um repórter diante de um dilema ético entre o furo jornalístico e o risco real de cometer um crime
Ilustração inspirada em fato real retrata o dilema de um repórter diante da descoberta de uma ossada em área de mata em Búzios. Crédito: Ilustração / Agência Prensa de Babel
Ilustração inspirada em fato real retrata o dilema de um repórter diante da descoberta de uma ossada em área de mata em Búzios. Crédito: Ilustração / Agência Prensa de Babel

Vinte anos atrás eu trabalhava no Perú Molhado. Uma dia, estava no bairro dos Ossos bebericando uma caipivodka de maracujá no Capitans Bar quando recebi uma chamada no meu celular. Era meu amigo Cláudio, que anos depois viria ser meu sócio Ele me contou uma história estranha. Uma pessoa conhecida dele, havia encontrado um cadáver próximo ao ponto final onde a empresa 1001- que muita gente chama de rodoviária, tem seu ponto final. De imediato fiquei surpreso pois se trata de uma área com bastante fluxo de pessoas e perguntei se a polícia já não havia sido informada.

Meu amigo disse que ” o corpo” estava dentro do mato e que o amigo que achou queria que eu visse e noticiasse no Perú Molhado – do qual era leitor. Meio encabrunhado avisei que iria ver o tal cadáver mas que demoraria um pouco pois estava num momento de lazer. Após terminar a chamada, olhei na tela de celular e vi 15:45.

Conscientemente sorvia meu drink sem pressa pois não tinha grana para o segundo e Ivan, o dono do Bar não vendia fiado.
mas meu inconsciente insistia no assunto.
E se for uma boa história? E se for uma pessoa conhecida?

Retirei o canudo do copo e engoli o que restava sem cerimônia. Engoli gelo e sementes sem medo. Voltei com passos apressados pela Orla Bardot em direção a Praça Santos Dumont – onde meu amigo Cláudio tinha comércio. Chegando lá, o vi com um velho ( em todos os sentidos) conhecido. Homem de poucas virtudes e com muitos casos não resolvidos.

-Que roubada, pensei baixinho.

Entre o silêncio da mata, a pressa do furo jornalístico e a sombra de um crime, o repórter se vê diante de um dilema ético que mistura medo, estratégia e adrenalina. Ilustração / Agência Prensa de Babel

Meu amigo no entanto, exalava entusiasmo. Sua emoção era visível, seus olhos brilhavam e ele nem conseguia explicar direito o caso. Foi o outro, o tal de poucas virtudes e por quem eu não tinha nenhum apreço que começou a falar.

-Entre a escola Paulo Freire e a parada da 1001 tem uns terrenos ainda com mata nativa, com algumas trilhas que são usadas por trabalhadores da região da Ferradura. Eles usam o atalho para chegar mais cedo e um cara achou uma pessoa morta debaixo de uma árvore. Quer ir lá ver?

Disse que sim, e seguimos os três até o local indicado Estávamos no inverno e o sol já estava indo acordar os japoneses. Chegamos a rua onde ficava o tal terreno e entramos por uma trilha estreita. Uns dez minutos de busca e nada de nada. Pensei, até com um pouco de preconceito: é mais uma alucinação desse velho louco.

Saímos do mato calados e eu desconfiando que havia caído numa balela. meu amigo Cláudio cabisbaixo pensando talvez o mesmo e o velho olhando para frente fazendo cálculos. De repente grita:
Entramos na trilha errada! A entrada é mais adiante.
E seguimos atrás do guia, por assim dizer, até outra entrada na vegetação primária da Mata Atlântico.

A terra girou mais um pouco e a iluminação solar se foi. Mas ainda havia um tiquinho de luminosidade quando encontramos a árvore onde o tal cadáver repousava.
Era uma árvore de porte médio, com copa larga com galhos chegando até o chão – parecendo uma oca indígena.
Entramos com certa dificuldade afastando os galhos mais finos a ao chegarmos embaixo da copa não havia cadáver algum. Apenas um esqueleto, totalmente limpo, sem nenhum vestígio de carne, músculos ou cabelos. Apenas ossos limpos, todos em seus lugares como se apenas pequenos animais como répteis ou insetos tivessem comido aquele mórbido ( ao menos aos meus olhos). banquete.
O senhor que indicou o lugar estava tranquilo, o amigo Cláudio meio nervoso e eu, ex- coveiro de profissão, não titubeei e comecei a fotografar o que restava do corpo.

Usava uma câmera Leica digital, coisa do Marcelo Lartigue, que sempre procurou ter no jornal o que havia de melhor em fotografia e computação.

Satisfeito com os registros, sai da cena bem devagar, arrastando os pés para apagar as marcas do meu sapato ( os outros estavam de Havaianas), e em minutos chegamos na rua.
Eu tranquilo, meu amigo extasiado e o senhor que havia descoberto o esqueleto se vangloriando , como tivesse se redimindo das tantas vezes que mentiu.

-Eu não falei! Viu? Agora vamos chamar a polícia.

Eu ia avisar a polícia. Era o certo. Mas havia um problema. O Perú Molhado, jornal mais tradicional da cidade pela primeira vez tinha um concorrente. Que apesar de só sair de terça à sábado se dizia diário. Estávamos numa terça-feira, o Perú fechava a edição na quinta e o jornal só chegava às ruas na sexta.

Se eu avisasse a polícia, o jornal Primeira Hora daria a notícia antes e todo meu trabalho seria inútil. Em verdade eu iria trabalhar para o concorrente.

Convenci meu amigo e o amigo dele a segurar a informação, fui para casa escrever a matéria e no outro dia informei tudo ao meu editor Marcelo Lartigue. Ele riu, concordou com minha estratégia e depois de baixar as fotos no computador, enviei para o diagramador fazer os tratamentos de luz .
Toda a redação do jornal sabia do furo de reportagem e eu, aguardava ansioso o momento de informar a polícia. Tinha que ser na quinta, preferencialmente no fim do dia. Enquanto ainda houvesse iluminação natural ( minhas fotos me dedurariam) mas tarde o suficiente para o Primeira Hora não ter tempo de cobrir. Diferente do Perú Molhado (que era uma bagunça onde não respeitávamos hierarquia, horários ou até mesmo as regras gramaticais), o PH tinha hora para fechar a edição e eu sabia que eles não passavam das seis da tarde.

Eu no entanto tinha um problema: como explicar a descoberta da ossada? A polícia poderia me perguntar afinal, a mesma estava dentro do mato, longe dos olhos de todos.
-,Aguém me ligou, pensei em responder.
Meu medo era ser acusado de ocultação de cadáver. Afinal se eu sabia há alguns dias que havia uma pessoa morta e mesmo assim nao reportei a polícia, poderia ter cometido um crime.

Comprei um cartão de telefone público, fui até um Orelhão que havia na Rua das Pedras e liguei para meu celular. Atendi, e por óbvio fiquei calado contando os segundos que seriam suficientes para uma conversa sobre a descoberta de um cadáver e sai tranquilo.

Meu álibi estava pronto. Sou repórter de um jornal conhecido, alguém me ligou de maneira anônima e sim, achei o que restou do corpo.

Em tempo: nessa época não havia como rastrear os celulares e nem câmeras de vídeo em todas as ruas e esquinas.

Mais tranquilo, caminhei até a rua onde estava a trilha e ao chegar perto gelei. Meu plano tinha um furo.
E se alguém, ou até mesmo um cachorro tivesse mexido no morto? Minhas fotos mostravam um esqueleto deitado de frente, com o que restava de uma mochila de escola embaixo do crânio e perfeitamente completo. Parecia a primeira vista que a pessoa deitou para dormir e faleceu.

Não! Eu teria que voltar ao local, e desta vez sozinho e refazer outras fotos. Foi o que fiz e para minha sorte tudo estava do jeito de deixamos. Dessa vez deixei de propósito as marcas do meu sapato número 45/46.

Ato seguinte, liguei para o 190.
Foram cinco tentativas em vão e quase desisti. Na sexta alguém atendeu e eu tentei explicar o fato.

-Mas o corpo está aonde?, perguntou o policial.

-Não tem corpo, são só ossos?

  • Você tem certeza que é de humano?

-Sim! Tem crânio, úmeros, costelas, fêmur, patela, e até falanges. É humano sim. Já fui coveiro e sei reconhecer um esqueleto humano.

  • Aliás, quem quem está falando, perguntou o policial.

Nesse momento lembrei que nem havia me anunciando.

-Desculpe, meu nome e Sandro Peixoto e trabalho no jornal O Perú Molhado. Alguém me ligou informando que havia uma pessoa morta dentro do mato. Vim até o local e achei um esqueleto.

O policial pediu para eu ficar aonde estava e disse que iria mandar uma viatura.

O celular marcava 17:45hs.

Ansioso para me livrar do caso, fui até a esquina esperar a chegada da polícia. Minutos depois vejo uma viatura se aproximando mas ela passa direto. Minutos depois enfim aparecem duas viaturas e sem me surpreender, chega também uma equipe de jornalismo, com repórter e fotógrafo do Primeira Hora. Ao que parece havia uma boa relação entre a polícia e o jornal.

Indiquei aos policiais o local do ” corpo ” e ao me afastar fui inquirido pela jornalista do Primeira Hora. Ela queria saber como estava a situação. Já estava escurecendo e eu, ainda temeroso em perder a notícia, taquei o terror.

-Amiga, é uma coisa horrível, estou até agora querendo vomitar. Fosse vocês não iria lá.

A jornalista fez cara de enjoo, o fotógrafo não se pronunciou e assim foram embora.

Mais tranquilo, fiquei sozinho esperando a volta dos PMs. Quando enfim voltaram me disseram que iriam chamar os peritos da Polícia Civil, em Cabo Frio.
Eu sabia que iriam demorar e então fui embora satisfeito e feliz por minha estratégia ter dado certo. Mas minha paz durou pouco.

Ao tentar atravessar a Estrada da Usina, um amigo que trabalhava numa loja de turismo no Shopping Tatui veio em minha direção e perguntou o porquê de tanta polícia naquela área.
Contei que tinha alguém morto naquele local e para minha surpresa ele respondeu:

-Eu vi você com o Cláudio e outro senhor entrando no mato terça-feira.

Rapidamente inventei uma desculpa.

-Verdade. Uma pessoa ligou pro jornal falando que havia alguém morto naquele lugar. Naquele dia viemos procurar mas não achamos. Hoje o cara ligou de novo e eu achei e chamei a polícia.

E sai de fininho em direção à Redação do jornal onde a edição daquela semana estada sendo fechada.

PS: dias depois fiquei sabendo que o morto era um funcionário de um famoso restaurante da cidade, e que foi morto com dois tiros. Os peritos ao resgatarem os ossos encontraram na parte de trás do crânio marcas da saída de duas balas de revólver

Sandro Peixoto é escritor e cronista de Búzios. Foi reporter de O Perú Molhado.

Octavio Raja gabaglia

Octavio Raja Gabaglia, o carismático Otavinho, é um nome que ressoa nas praias, encostas e telhados de Búzios. Esse arquiteto genial, conhecido pelo bom papo e pela mente afiada, conseguiu, com engenhosidade, domar os ventos, convidar a luz do sol para habitar as casas com gentileza, além de convencer a paisagem exuberante a fazer parte de sua obra.

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