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Pernas pra que te quero

Entre memória pessoal, ditadura, lenda urbana e um episódio insólito no Cemitério dos Ossos, texto cruza história política, humor e o absurdo do cotidiano
Sandro resgata a lenda da perna cabeluda e um episódio real no Cemitério dos Ossos - Imagem gerada por IA - Agência Prensa de Babel
Sandro resgata a lenda da perna cabeluda e um episódio real no Cemitério dos Ossos - Imagem gerada por IA - Agência Prensa de Babel

A perna cabeluda

Em 1977, ano em que se situa o filme O Agente Secreto do Diretor Kleber Mendonça Filho,eu tinha 12 anos e morava numa cidade cerca de 60 quilômetros do Recife. Era uma cidade canavieira na Zona da Mata Norte de Pernambuco e ainda bastante tranquila. O Brasil vivia um momento brutal politicamente falando. O general Ernesto Geisel era o ditador da hora e seu governo estava rachado pois o mesmo havia começado o que se chamou de abertura política ” lenta, gradual e segura” o que desagrada os militares de linha dura, que queriam manter não só as mamatas, como também aumentar a brutalidade de terror contra o povo que não aceitava calado o regime ditatorial. É bom lembrar que nessa época a resistência armada já havia sido derrotada, os maiores líderes estavam mortos, presos ou refugiados e havia uma ainda incipiente reação com os movimentos estudantis, a reorganização sindical e as greves no ABC Paulista, onde surgiu o que viria ser a maior liderança política de esquerda da América Latina . Luis Inácio Lula da Silva.

repodrução de jornal da época

Se no Rio em São paulo a repressão era comandada pelos cabeças, no Recife quem promovia o terror e a carnificina eram, por assim dizer, os guardas da esquina. Policiais de merda que se achavam representantes dos golpistas da casa grande.
E não foi por falta de aviso: em 1968, durante o comando do general Costa e Silva, o então vice Pedro Aleixo ( um civil colocado na vice-presidência para fingir normalidade democrática) se negou a assinar o AI-5, ato institucional que endurecida ainda mais as regras do regime.

-não temo o poder do alto comando, o que me assusta é o poder que daremos ao guarda da esquina.
Em outras palavras, foi mais ou menos isso que ele falou.

Esses “guardas de esquinas” tocavam o terror no estado de Pernambuco e eram temidos por todos. Um dia, surgiu a lenda urbana de uma perna masculina decepada e cabeluda que saltitando pelas ruas,perseguiam as pessoas dando-lhes chutes, rasteiras e pasmem, até tapas. E o que era comentado nas mesas de bares, filas de supermercados, roletas de ônibus a saídas de missas ganhou as páginas dos jornais. Algumas vezes os casos da perna eram usados para tapar buracos da edição quando alguma matéria caia por causa da censura. Quem acreditava na lenda se deliciava com os textos bem escritos pelos jornalistas e quem tinha um pouco de juízo entendia que a censura havia escondido algo.

Distante da capital, a perna cabeluda demorou a chegar em minha cidade. Mas num domingo após o almoço, quando saía de casa para jogar futebol com uns amigos num campinho de terra batida, fui aconselhado por uma senhora a voltar.
-Volta pra casa meu filho. A perna cabeluda foi vista na Estrada Nova. Está todo mundo trancando as casas.
Ouvi com respeito e segui meu caminho. Aquilo não fazia sentido. Se eu não acreditava em Deus, como poderia acreditar numa perna que saltita sem rumo? E essa foi a única vez que eu estive próximo de ver a assombração.

A outra perna

O Cemitério de Sant’Anna ou apenas “dos Ossos”

Anos depois em Búzios, repórter do O Perú Molhado, fui designado pelo Editor Marcelo Lartigue para fazer pela enesima vez, a cobertura do dia de Finados no Cemitério dos Ossos. Nome mais correto para um cemitério não existe.
O mês de novembro geralmente faz calor mas nesse dia a coisa estava pior ainda. Antes de subir a ladeira em direção da última morada, fiz um pit-stop no Capitans Bar. Eu adoro aquele cantinho mas gostava mais quando tinha a companhia do meu amigo Ivan.

Tomei um drink, peguei uma água e fui fazer meu trabalho. Era pouco mais de duas da tarde e chegando lá encontrei o cemitério vazio e apenas um rapaz sentado numa cadeira em frente a uma mesa com um bloco de anotações. Dei boa tarde e caminhei um pouco entre os becos pensando o que iria escrever. Para quem não conhece, o cemitério de Búzios fica atrás da igreja da Sant’Anna no bairro dos Ossos, e é do tipo armário, ou seja, paredes com gavetas e os caixões são lacrados. Quando volto a entrada encontro uma senhora já bem idosa bastante curiosa com aquela construção. Ao saber que era o cemitério a mesma fez um comentário bastante singelo.

-que organizado. Bem limpinho. Dá vontade de morrer.

Ficamos eu e o rapaz calados enquanto a senhora caminhava entre os mortos. Olhei para um lado e vi algumas latinhas de cervejas jogadas próximo ao muro.


-algumas pessoas entram sem querer e quando percebemos que é um cemitério se constrangem e jogam fora.


Lembrei que o Dia de Finados é feriado e aquele caminho liga a praia da Armação à Praia dos Ossos e muitos turistas passam ali. Perguntei ao rapaz o que fazia ,e ele me disse tinha a lista dos túmulos.


-Recebemos visitas de amigos e parentes que não sabem ou não lembram onde o ente querrido foi enterrado. Aqui nesse caderno tem os nomes e o local.


Nesse momento entra um jovem rapaz com um capacete de moto no cotovelo, camiseta regata e vários cordões de aço inox no pescoço. Ele perguntou onde estava o caixão da mãe e o atendente perguntou nome e data do sepultamento. Ao receber as informações ele disse que não poderia ajudar pois a empresa que atualmente administrava o cemitério e para qual trabalhava, só havia assumido ha dois anos e o cadastro dos sepultamentos anteriores estava na prefeitura.


Satisfeito com a resposta o motoqueiro fez outra pergunta que me chamou bastante a atenção.


-E o meu túmulo está aonde?


Se a perguntou me perturbou, a resposta elucidou. Mas me deixou perpexlo.


-É membro inferior né?


Foi somente então que vi que o jovem tinha uma prótese de metal do joelho para baixo da perna direita.
E descobri que quando uma pessoa perde um órgão, o hospital cuida do descarte, mas quando se trata de membros, tem que haver um sepultamento.

Não precisa ter funeral com velório ou cortejo, nem o dono precisa ir, mas o membro precisa ser depositado em local determinado por lei. E eu, coveiro de profissão, não sabia desses detalhe e enquanto o dono da perna seguia o caminho indicado fiquei a pensar: o que ele irá dizer frente a gaveta onde repousa seu membro. “Saudades de você”? Quanto tempo faz que a gente não bate uma bolinha”?. Melhor deixar pra lá, deduzi. Já tinha uma história para contar e pensamentos intrusivos começaram a me perturbar no caminho de volta pra casa. Coisas macabras me vinham à mente. Eu teria que escrever uma história para o jornal com início meio e fim. E se possível, uma pitada de humor (e sem zombar da situação) para fazer juiz a história do jornal.

Pensei numa situação hipotética: uma pessoa com diabetes e morando em Vitória, no Espírito Santo, teve que amputar uma perna por necrose no pé e o membro sepultado lá. Anos depois essa mesma vem morar em Cabo Frio e por desgraça do destino perde a outra perna e a enterrado aqui. Como ela faria para visitar seus membros no Dia de Finados. A palavra finados significa como ” algo que findou “, e nesse caso a pessoa em questão estaria findando aos poucos. Outra questão: será que as funerárias dão desconto? Afinal o coitado seria enterrado no mínimo três vezes. E se o destino fosse mais cruel e ele perdesse um braço já morando em outro estado?


Chegando em casa tomei um banho frio e ao sentar frente ao computador resolvi contar uma história menos macabra. E foi assim que por duas vezes tive uma perna como personagem na minha história.

Sandro Peixoto, cronista, escritor, foi repórter de O Perú Molhado.

Octavio Raja gabaglia

Octavio Raja Gabaglia, o carismático Otavinho, é um nome que ressoa nas praias, encostas e telhados de Búzios. Esse arquiteto genial, conhecido pelo bom papo e pela mente afiada, conseguiu, com engenhosidade, domar os ventos, convidar a luz do sol para habitar as casas com gentileza, além de convencer a paisagem exuberante a fazer parte de sua obra.

Noticiário das Caravelas

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