Por Paulo Roberto Araújo
Posso dizer que sou uma “pessoa antiga”, e por isso quero dizer que comecei a entender o que eram as coisas e como funcionava o mundo no século passado, no século XX. Naquela época, a “Engenharia” ainda era uma profissão que trabalhava com “coisas”, ou seja, era uma atividade cuja finalidade principal era, e ainda é projetar, construir e colocar coisas para funcionar das quais literalmente víamos, tocávamos e até mesmo sentíamos seu cheiro. Coisas tangíveis, enfim.
Mas eu hoje vivo em uma realidade na qual muitas coisas das quais que dependo, não são necessariamente “tangíveis”. Por exemplo, quando faço uma busca no Google, tudo o que ele me devolve são palavras. O próprio Google é uma “máquina” muito diferente do significado que esta palavra tinha até o século XX. Até aquela época, uma “Máquina” era um artefato físico projetado e construído para realizar um conjunto de tarefas. Mas então, vieram os computadores, e mais precisamente um inglês de nome Alan Turing, que mudou completamente o conceito de “Máquina”. A partir de Turing, uma “Máquina” passou a ser entendida também como um conjunto de instruções que realizavam uma tarefa, mas essa propriedade não implicava que tivesse uma materialidade física. Ou seja, uma “Máquina”, para existir poderia estar contida em um computador, por exemplo. Nesse sentido, um software pode ser entendido como uma “Máquina”.
Esse novo significado que as tarefas antes eram realizadas por máquinas físicas poderiam ser “programadas” em um computador e realizadas por meio de softwares criados especificamente para este fim. Isso era uma “ideia antiga”, ou seja, era uma daquelas coisas que surgiram no século XX, mas que hoje estão plenamente integradas à nossa vida cotidiana. Do ponto histórico e social foi assim que nasceu a Inteligência Artificial, algo que atualmente está se tornando cada vez presente em nossas vidas.
Pois bem, considero a discussão sobre o impacto da Inteligência Artificial, a questão mais importante do ponto de vista social e econômico no Brasil de hoje. Muita tinta se gasta sobre os destinos da Política, principalmente depois da eleição de Jair Bolsonaro, qual o lugar que a Esquerda terá neste contexto, e assim por diante. Tudo isso é relevante por hora, na atual conjuntura, mas tenho sérias dúvidas se daqui há 15, 20 anos vamos sequer nos lembrar destes eventos, quanto mais refletir sobre eles.
Não sei, posso estar errado, mas creio que nossa realidade será provavelmente mais transformada pelo impacto da Automação em nossas vidas, do que qualquer mudança política que eventualmente venha a ocorrer. Explico a afirmação da seguinte maneira: a Automação tem um efeito muito mais profundo em nossas vidas cotidianas do que “a Política”, tal como a entendemos e vivenciamos no dia a dia.
No século XX, ir à uma agência bancária significava lidar com dezenas de pessoas, do Vigia na porta da agência ao Gerente. Hoje, mesmo com a automação, as filas não acabaram, mas as pessoas naquele ambiente de trabalho são em cada vez menor número. Ninguém hoje pensaria em usar serviços bancários sem abrir mão da automação, o que mostra que esta mudança em nossas vidas cotidianas é irreversível. Pode ser que não estejamos atentos para este fato, mas a cada dia estamos sendo cada vez mais governados por coisas que para existirem não exigem mais que elas tenham uma presença “física”, tal como as coisas que a Engenharia do século XX estava acostumada a construir.
Essas “coisas” que são construídas hoje e das quais tanto dependemos são os algoritmos, que estão por trás dos aplicativos que baixamos, quando precisamos fazer uma corrida de táxi, ou mesmo para agendar um encontro amoroso. Este será não o Brasil que queremos, mas aquele que teremos no futuro, gostemos ou não.
Paulo Roberto Araújo é professor de História e suburbano convicto