Manoel Carlos nunca tratou Búzios como cenário neutro. Para ele, a cidade era experiência vivida, recorrência afetiva e matéria dramática. Frequentador assíduo do balneário por décadas, hospedava-se com a família na Pousada La Borie, em Geribá, e observava a vida local com a mesma atenção dedicada às esquinas do Leblon que consagraram suas novelas.
Essa intimidade transbordou para a ficção. Em Viver a Vida (2009), Búzios dividiu com o Rio de Janeiro o centro da narrativa. A Helena interpretada por Taís Araújo — a primeira e única Helena negra do autor — tem origem buziana, marcada por uma infância à beira-mar antes da migração precoce para a capital. A escolha não foi casual: Búzios surge como lugar de formação, liberdade e promessa, um contraponto à rigidez urbana do Rio.
Maneco soube captar uma cidade em transição. A Búzios que aparece na novela dialoga menos com o cartão-postal e mais com o cotidiano filtrado pelo olhar de quem a frequentava fora da alta temporada. Há referências diretas ao jornal satírico O Perú Molhado, parte do folclore intelectual local, com personagens sendo “entrevistados” pelo periódico. Há a piada recorrente de que “todas as casas são feitas pelo Octavio”, menção transparente ao arquiteto e urbanista Octavio Raja Gabaglia, figura central na construção do chamado Estilo Búzios. Há, ainda, a participação de Mario Paz, proprietário do Gran Cine Bardot, interpretando um hoteleiro argentino de apelido sugestivo: Maradora.
Nada disso é decorativo. Manoel Carlos sempre escreveu a partir de microclimas sociais. Se o Leblon foi, por décadas, seu laboratório para discutir afetos, conflitos de classe e contradições morais da elite carioca, Búzios aparece como extensão desse método — um território onde sofisticação, improviso e desejo convivem de forma instável.
O efeito foi imediato e mensurável. Durante a exibição de Viver a Vida, o turismo explodiu e o mercado imobiliário reagiu com rapidez. Casas de temporada tiveram alta expressiva nos aluguéis, e imóveis passaram por valorizações próximas de 50% em menos de um ano. Especialistas locais passaram a falar abertamente em “efeito Manoel Carlos”, repetindo fenômeno já observado em bairros do Rio após novelas do autor.
Esse impacto, porém, nunca foi consenso entre moradores antigos. Muitos apontam que a Búzios da televisão reforçou uma imagem idealizada, pouco conectada à complexidade social da cidade, pressionando infraestrutura, encarecendo o custo de vida e acelerando processos de exclusão. A crítica ecoa algo que o próprio Manoel Carlos sempre enfrentou: a acusação de caricaturar o Brasil popular enquanto escrevia com precisão cirúrgica sobre as classes médias altas.
Ainda assim, sua relação com Búzios foi menos instrumental do que afetiva. Quando, como repórter e editor de O Perú Molhado, eu interpretei, em um editorial, o senso comum, ao menos desejado por muitos frequentadores cariocas, da cidade como “o bairro mais distante da Zona Sul — e o mais legal também”, a frase sintetizava um espírito que Maneco reconhecia. Quando o entrevistei em 2010 ele expressou que Búzios era, para ele, um lugar onde o Rio se deslocava, perdia rigidez e ganhava outra cadência.
Manoel Carlos morreu no dia 10 de janeiro de 2026, no Rio, aos 92 anos. Neste domingo (11), familiares e amigos se despediram do autor no cemitério São João Batista, em cerimônia reservada. Fica uma obra que ajudou a moldar não apenas personagens; suas Helenas e Capitus, e bordões, mas também a forma como o país passou a imaginar certos lugares. Entre eles, Búzios — vista por Maneco com intimidade suficiente para ser ficção e realidade ao mesmo tempo.


