A possibilidade de um mandato-tampão no governo do Rio deixou de ser conversa abstrata nos corredores da Assembleia Legislativa. Nos bastidores da Alerj, a disputa já começa a se organizar em torno de dois polos: o secretário estadual das Cidades, Douglas Ruas, e o secretário nacional de Assuntos Parlamentares, André Ceciliano. Correndo por fora, o deputado Chico Machado passa a circular como nome de composição.
A movimentação ganhou intensidade depois que o cenário jurídico do governador Cláudio Castro voltou ao centro da política estadual. O Tribunal Superior Eleitoral retomará em 24 de março o julgamento do caso envolvendo o Fundação Ceperj. O processo já registra dois votos pela cassação e inelegibilidade do governador. A sessão foi interrompida por pedido de vista do ministro Kassio Nunes Marques, mas os votos da relatora Isabel Gallotti e do ministro Antonio Carlos Ferreira elevaram a temperatura política no estado.
Diante da possibilidade de derrota no tribunal, passou a circular com força a hipótese de uma renúncia antecipada de Castro — possivelmente na véspera da retomada do julgamento — para disputar o Senado. A saída abriria espaço para uma eleição indireta na Alerj, mecanismo que a própria Assembleia já regulamentou em fevereiro para casos de dupla vacância no governo.
Nesse tabuleiro, Ruas aparece como o candidato mais próximo da atual base governista. Filiado ao PL, ele dialoga com a engrenagem política que hoje gravita em torno de Castro e das bancadas ligadas ao bolsonarismo no estado. A aposta é que a força numérica dessas bancadas pese na votação indireta.
Ceciliano, por sua vez, tenta se apresentar como figura de transição. Ex-presidente da Alerj e hoje no governo federal, ele articula apoio no campo da esquerda e entre setores do PSD ligados ao prefeito do Rio, Eduardo Paes. Nos bastidores, a leitura é que um eventual mandato curto permitiria reorganizar pontes políticas antes da eleição estadual de outubro.
É nesse espaço que surge o nome de Chico Machado. Deputados veem nele um perfil menos polarizado, com trânsito em diferentes bancadas. Em uma eleição indireta, em que pragmatismo costuma superar ideologia, nomes desse tipo frequentemente ganham peso de última hora.
Interior observa o jogo
Fora da capital, o cenário também provoca rearranjos. No interior do estado, prefeitos e lideranças regionais acompanham a disputa com atenção porque ela pode embaralhar alianças para outubro.
Em Macaé, o prefeito Welberth Rezende vem demonstrando proximidade política com Eduardo Paes, hoje visto como favorito para disputar o governo estadual com apoio do PT. A equação, porém, ficaria mais complexa caso Ceciliano assumisse um eventual mandato-tampão: o principal articulador petista no estado passaria a ocupar o Palácio Guanabara, alterando o equilíbrio interno da própria aliança.
Na Região dos Lagos, onde Ceciliano construiu pontes políticas além de sua base original na Baixada Fluminense, o cálculo também não é simples. Em Búzios, o prefeito Alexandre Martins tem sinalizado maior proximidade com o campo político ligado a Castro e ao candidato que o grupo governista pretende lançar para outubro.
Já em Cabo Frio, o prefeito Serginho se move em um espectro mais alinhado à direita, acompanhando a reorganização das forças conservadoras no estado.
Nesse mapa político, Ceciliano tem uma vantagem silenciosa: conhece bem o interior fluminense e mantém relações antigas em cidades da Região dos Lagos, especialmente em Búzios e Cabo Frio. Chico Machado, por sua vez, vem de Macaé e mantém forte presença política no Norte e no Noroeste Fluminense, regiões que tradicionalmente buscam maior peso nas decisões estaduais.
Eleição ainda hipotética, mas cada vez mais plausível
Nada disso ocorrerá se Castro permanecer no cargo. Formalmente, o governador só precisaria deixar o posto no início de abril para disputar o Senado.
Mas a sobreposição entre calendário judicial e calendário político mudou o clima. O que até poucas semanas atrás parecia um cenário remoto passou a ser tratado com naturalidade nos corredores da Alerj.
Se a vacância ocorrer, os deputados estaduais escolherão o novo governador para completar o mandato até o fim de 2026. A disputa indireta não mobiliza o eleitorado, mas tem potencial para reorganizar — em poucos dias — todo o tabuleiro político do estado.
Nos gabinetes da Assembleia, ninguém fala em campanha. Mas o traçado do campo já está desenhado.
Informações de bastidores foram publicadas por Agenda do Poder, Tempo Real e Diário do Rio.


