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Livro sobre emancipação de Búzios evita heróis e reconstrói um processo coletivo

Obra de Walter Marcelo, lançada nos 30 anos do município, analisa a luta autonomista como fenômeno histórico, social e midiático, com base em jornais, documentos e memória oral
O historiador Walter Marcelo, autor de 12 de Novembro de 1995, livro que analisa a emancipação de Búzios sem mitificações, a partir de documentos, imprensa e memória histórica
O historiador Walter Marcelo, autor de 12 de Novembro de 1995, livro que analisa a emancipação de Búzios sem mitificações, a partir de documentos, imprensa e memória histórica

Trinta anos depois da emancipação política de Armação dos Búzios, a história do processo que levou à criação do município ganha sua primeira síntese autoral. O livro “12 de Novembro de 1995 – A História da Emancipação de Búzios” é uma iniciativa do Centro de Memória de Búzios, equipamento vinculado à Secretaria de Cultura e Patrimônio Histórico do município, e foi escrito pelo historiador Walter Marcelo, com lançamento previsto para o dia 22. A obra propõe um deslocamento importante: em vez de personagens elevados à condição de heróis, o foco recai sobre os conflitos, as disputas de projetos e a construção coletiva de uma identidade que se afirmava distinta de Cabo Frio.

“Não há intenção de criar heróis”

Professor da rede municipal desde 2012, doutorando em História e autor de artigos acadêmicos, Walter estreia no formato livro com uma obra que ele próprio define como “um livro de História”. “Não há intenção de criar heróis ou narrativas paralelas”, afirma, em conversa exclusiva com a Prensa. “O esforço foi compreender Búzios dentro do processo mais amplo das emancipações municipais no Brasil, sobretudo no contexto da redemocratização.”

O autor Walter Marcelo – professor e doutorando em história – acervo pessoal

De exposição frustrada a livro

A gênese do livro está em um projeto que não chegou a se concretizar. A ideia inicial era uma exposição interativa sobre a emancipação, pensada em 2024. A falta de tempo inviabilizou a montagem, mas a frustração acabou abrindo caminho para algo mais ambicioso. “Quando a exposição não aconteceu, ficou claro que o material pedia outra escala”, relata o autor. Com o incentivo do professor e historiador José Francisco de Moura, conhecido como Chição, e do secretário de Cultura, Alan Câmara, o projeto foi ampliado e transformado em livro, alinhado às comemorações dos 30 anos do município, que culminam agora com o lançamento público da obra.

Pesquisa em jornais e construção coletiva

Parte decisiva do material veio da pesquisa reunida por Chição, especialmente em jornais do Rio de Janeiro, incorporada ao trabalho final. Alan contribuiu com debates conceituais, conversas e indicações bibliográficas. “O livro também nasce desse processo de troca”, diz Walter. Embora já pesquisasse a história de Búzios havia anos, o trabalho de organizar fontes, entrevistar, contextualizar e escrever consumiu cerca de um ano inteiro — ritmo que ele considera rápido para um trabalho histórico, mas sustentado por base documental sólida. “Foi um processo intenso, mas bem amparado pelas fontes”, afirma.

O Mexilhão, publicação assumidamente militante que atuou como uma das principais vozes do movimento emancipacionista de Búzios, analisada no livro 12 de Novembro de 1995 como peça central do debate público da época

A imprensa como agente da emancipação

Um dos eixos centrais do livro é o papel da imprensa local no movimento emancipacionista. Walter cita, durante a entrevista, três jornais que ajudaram a moldar o debate público, além de outros. O Mexilhão surge como porta-voz direto da emancipação, assumidamente militante. “Era um jornal criado com esse objetivo explícito”, observa. O Perú Molhado aparece como um espaço de provocação e tensão, interessado em dar voz a diferentes grupos e em problematizar a divisão entre “ser da terra” e “não ser da terra”, mas engajado. “Ali havia o esforço de tensionar, de evitar leituras simplificadoras”, diz o historiador. Já o Buziano adota postura mais cautelosa e analítica, menos entusiasmada, preocupada em apurar fatos e refletir sobre o que viria depois da separação administrativa.

Conflitos, divergências e projetos de cidade

Essa diversidade de abordagens ajuda a compreender a complexidade do processo. A emancipação não foi resultado de um consenso homogêneo, mas de embates entre empresários do turismo, moradores antigos, recém-chegados e diferentes visões de cidade. “Havia conflito, divergência e disputa de projetos”, resume Walter. O livro mostra como essas tensões foram expostas, discutidas e, em alguns momentos, exacerbadas no espaço público.

Identidade própria e ruptura com Cabo Frio

Ao analisar os anos 1980, o autor identifica um elemento comum entre grupos distintos: a percepção de que Búzios possuía uma identidade própria, dissociada de Cabo Frio. “Existia um sentimento de deslocamento”, afirma. “E o desejo de assumir o controle do próprio destino, especialmente no que diz respeito ao turismo e ao modelo de desenvolvimento urbano.” A condição simbólica de Búzios — um lugar pequeno, mas com repercussão nacional e até internacional — também pesou na forma como a emancipação foi pensada e vivida.

Método histórico e foco no contexto

Do ponto de vista metodológico, Walter optou por privilegiar o contexto. Foram realizadas seis entrevistas, número reduzido de forma deliberada. “A escolha foi entender o processo como um todo”, explica. Personagens que não puderam ser ouvidos diretamente tiveram sua atuação reconstruída a partir de registros históricos, documentos oficiais e reportagens da época. “A documentação permitiu recompor essas trajetórias”, diz.

História da memória e legado institucional

O último capítulo do livro se dedica à chamada “história da memória”: como, naquele momento decisivo, os atores envolvidos projetavam o futuro da cidade. “Era importante entender não só o que aconteceu, mas o que se imaginava que Búzios poderia se tornar”, afirma o autor. Esse olhar para frente dialoga com a função que a obra pretende cumprir agora, justamente no momento em que chega ao público. Mais do que um registro comemorativo, o livro nasce como o primeiro grande legado do futuro Centro Municipal de Memória de Búzios, equipamento pensado para suprir uma lacuna deixada pelo currículo escolar nacional, que raramente permite aprofundar a história local.

Memória organizada para compreender o passado

Ao sistematizar fatos, disputas e expectativas, “12 de Novembro de 1995” pretende colocar a história de Búzios em movimento. Ajuda a entender por que a emancipação ocorreu, como ela se deu e quais tensões atravessaram o processo. “A memória precisa ser organizada para fazer sentido”, afirma Walter. Ao fazer isso sem mitificações, o livro contribui para a preservação da memória coletiva e para uma leitura mais madura do passado recente de um dos municípios mais simbólicos do país.

Octavio Raja gabaglia

Octavio Raja Gabaglia, o carismático Otavinho, é um nome que ressoa nas praias, encostas e telhados de Búzios. Esse arquiteto genial, conhecido pelo bom papo e pela mente afiada, conseguiu, com engenhosidade, domar os ventos, convidar a luz do sol para habitar as casas com gentileza, além de convencer a paisagem exuberante a fazer parte de sua obra.

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