O lançamento oficial do livro 12 de Novembro de 1995 – A História da Emancipação de Búzios, realizado nesta terça-feira (22), transformou a comemoração dos 30 anos do município em um exercício público de memória política. Mais do que apresentar uma obra histórica, o evento reuniu personagens, gerações e discursos que ajudaram a reposicionar o debate sobre como Búzios se tornou cidade — e como escolhe narrar esse processo hoje.
Escrito pelo historiador Walter Marcelo, o livro é uma iniciativa do Centro de Memória de Búzios, ligado à Secretaria de Cultura e Patrimônio Histórico. Ao falar sobre o trabalho, o autor destacou que a escrita foi orientada pela tentativa de compreender decisões e disputas concretas. “A emancipação não foi um gesto isolado, mas uma construção atravessada por interesses distintos, registros públicos e posicionamentos claros na imprensa”, disse. “O livro nasce da necessidade de organizar essa memória para que ela continue produzindo reflexão.”


O secretário de Cultura, Alan Câmara, contextualizou a publicação dentro de uma política cultural voltada ao futuro. Ao parafrasear o prefeito Alexandre Martins, resumiu o momento como o de “fazer coisas inéditas, olhando para frente”, defendendo a memória como ferramenta de planejamento, e não apenas de celebração.
Alexandre Martins, por sua vez, trouxe ao centro da conversa nomes e gestos fundadores do processo emancipatório. Citou o arquiteto e urbanista Octavio Raja Gabaglia, então vereador quando Búzios ainda era distrito de Cabo Frio, responsável por receber as primeiras assinaturas que deram início formal ao pedido de emancipação. “A política começa com atos concretos. Aquela coleta de assinaturas foi um deles”, afirmou.
O prefeito também chamou atenção para a presença simbólica de duas gerações à frente da política cultural do município. Ao lembrar de Toninho Português, primeiro secretário de Cultura de Búzios e pai de Alan Câmara, Alexandre ressaltou a continuidade institucional. Em sua fala, Toninho sintetizou essa visão em uma frase direta: “A cultura é a mola mestra da felicidade de um povo”.

Outro ponto sublinhado por Alexandre foi o caráter híbrido da identidade buziana. “Muitos de nós não nascemos aqui. De alguma forma, fomos turistas, nos apaixonamos por Búzios e ficamos”, disse, ao destacar que essa condição também atravessou o processo de emancipação e os projetos de cidade que estavam em disputa nos anos 1980 e 1990.
A pesquisa de Walter Marcelo reuniu acervo documental, jornais da época e entrevistas com personagens diretamente envolvidos na história política local. Entre os nomes citados no livro estão Valmir Conceição, o Valmir da Rasa; Toninho Português; Manoel Gomes; Marlene Pantoja, do jornal O Mexilhão; Marcos Lodeose; Maria Alice, primeira vereadora de Búzios; e a arquiteta Mirian Danowisk, uma das proprietárias do Perú Molhado. As entrevistas e os registros ajudam a reconstruir o ambiente de debate público que antecedeu o plebiscito e a criação do município.

Ao fim do lançamento, a percepção compartilhada entre os presentes era a de que o livro inaugura uma nova etapa no modo como Búzios lida com sua própria história. Não como um ponto final, mas como um documento de trabalho. “Memória organizada é memória que continua falando”, resumiu Walter Marcelo.


