A Geração Z representa 6% dos empreendedores do Estado do Rio de Janeiro, mas enfrenta dificuldades maiores para formalizar e administrar os próprios negócios. Entre os jovens empreendedores, 84% não possuem CNPJ, a renda média é de pouco mais de R$ 2 mil e apenas cerca de 3% são empregadores, segundo levantamento do Sebrae Rio elaborado a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad-C), do IBGE.
Os dados mostram que o setor de serviços concentra 69% dos empreendedores dessa geração no estado. O comércio aparece em seguida, com 17%, seguido por construção (6%), indústria (5%) e agropecuária (2%).
A informalidade e as dificuldades de gestão colocam capacitação, planejamento financeiro e acesso ao crédito entre os desafios para quem decide abrir um negócio ainda jovem.
No Estado do Rio, o Programa “Sou Jovem, Sou Empreendedor”, instituído pela Lei Estadual 9.848/2022, busca incentivar a criação de empresas e estimular o empreendedorismo entre jovens. Podem ser beneficiados estudantes da rede pública, bolsistas de cursos técnicos e superiores e pessoas entre 16 e 29 anos que já tenham uma empresa ou pretendam abrir o primeiro negócio.
O programa foi estruturado em etapas que incluem diagnóstico do perfil empreendedor, cursos de iniciação ao empreendedorismo e gestão empresarial, elaboração de plano de negócios, acesso a crédito, criação da primeira empresa e acompanhamento dos empreendimentos durante os dois primeiros anos.
Negócio próprio
Aos 27 anos, Thaís Duarte conhece na prática algumas das dificuldades apontadas pelo levantamento. À frente da confeitaria Doce Mel, ela começou a empreender em julho de 2020, durante a pandemia, depois de perder o estágio e descobrir que sua cachorra, Mel, estava com câncer no fígado.
“Tinha acabado de perder o estágio e descobri que minha cachorrinha Mel estava com câncer no fígado. Eu testei uma receita de brownie, que era um doce que nunca tinha dado certo comigo, e pela primeira vez ele realmente deu certo. Então mandei uns pedaços para dois primos e um deles pediu para eu fazer mais, que ele iria pagar. Foi aí que surgiu a ideia de como ter dinheiro para ajudar no tratamento da Mel”, relembra.
Seis anos depois, Thaís aponta a organização financeira como um dos maiores obstáculos que encontrou para manter o negócio.
“A falta de estudo me fez ter erros quase fatais para o funcionamento da loja. Normalmente, a gente acha que doce é só seguir uma receita e acreditar que tudo vai dar certo, mas, se a farinha muda, isso pode afetar toda a receita. Saber o que você está fazendo é essencial. E não falo só de receita: saber precificar, atender, marketing e tudo o que envolve a sua empresa, principalmente quando você está começando, que normalmente é sozinho”, afirma.
Para ela, iniciativas de capacitação podem diminuir erros que comprometem a sobrevivência dos pequenos negócios.
“Instruções podem salvar uma empresa da falência e fazê-la crescer mais rápido. Saber em que mundo você está entrando vai evitar erros e ajudar a saber como corrigir. Acho que, se eu tivesse ajuda no começo, a loja teria evoluído mais rápido”, avalia.
Os desafios de gestão não estão restritos aos empreendedores mais jovens. Outro levantamento do Sebrae Rio, divulgado em setembro, mostra que o estado reúne mais de 2 milhões de pequenos negócios, responsáveis por 89,2% das empresas ativas. Os microempreendedores individuais representam 55,3% das empresas fluminenses, enquanto as microempresas correspondem a 27,6% e as empresas de pequeno porte, a 6,3%.
A confeiteira Tais Bordin, de 39 anos, faz parte desse universo. Formada em marketing e com mais de dez anos de atuação na área, ela começou a transformar a confeitaria, até então um hobby, em profissão. Em 2021, depois de se profissionalizar, abriu o próprio negócio.
Além da produção dos doces, Tais administra o financeiro, as redes sociais e o estoque. Trabalhar sozinha em diferentes frentes fez com que percebesse a dimensão da gestão necessária para manter uma empresa.
“Meu erro acho que foi não dimensionar o que eu teria que administrar tendo algo próprio e achar que teria muita liberdade e flexibilidade. Hoje, com organização e disciplina, eu consigo trabalhar muito melhor que no começo”, conta.
Para Tais, oferecer orientação aos empreendedores ainda no início pode evitar que conhecimentos essenciais sejam adquiridos apenas depois dos erros.
“Acho que pode ajudar muito os jovens a aprenderem coisas que nós só aprendemos na ‘marra’. Um olhar de fora, de quem tem a acrescentar, pode acalmar e ajudar a empresa a já começar organizada”, afirma.
O empresário e diretor criativo Misael Mululo também aprendeu sobre gestão depois de uma primeira experiência malsucedida. Fundador da Fluxus, empresa voltada ao mercado criativo e audiovisual, ele abriu o primeiro estúdio aos 23 anos.
“A Fluxus nasceu de uma vontade que eu já carregava há muitos anos: eu não queria apenas executar, queria construir as minhas próprias ideias e liderar projetos a partir da minha visão criativa, impactando pessoas positivamente. A empresa atua na interseção entre estratégia, criatividade, tecnologia e comunicação”, explica.
Antes da Fluxus, porém, Misael diz que confundiu talento profissional com capacidade para administrar uma empresa.
“Éramos jovens, tínhamos vontade de fazer acontecer, mas não tínhamos a estrutura necessária para administrar uma empresa e ela acabou quebrando. Aquela experiência me ensinou que não basta saber produzir. Você precisa saber vender, precificar, controlar custos, organizar processos, construir relacionamento com clientes e tomar decisões pensando no negócio, e não apenas no próximo projeto”, pontua.
Para o empresário, programas de apoio podem encurtar esse processo de aprendizado.
“Quando abri esse estúdio que deu errado, um programa como esse poderia ter feito uma diferença enorme na minha trajetória. Minha história me mostrou que talento pode abrir uma porta, mas é preciso aprender a transformar esse talento em uma estrutura capaz de gerar valor e sustentar um negócio. Iniciativas como essa fazem com que outros jovens tenham acesso a informações e ferramentas que eu precisei descobrir sozinho ao longo de muitos anos”, afirma.
Além do programa voltado aos jovens, a Alerj analisa o Projeto de Lei 6.315/2025, de autoria do deputado Arthur Monteiro, que propõe a criação do Programa Comunidade que Empreende e Prospera. A proposta prevê capacitação, orientação técnica e mecanismos de acesso ao crédito para pequenos empreendedores e moradores de comunidades.
Entre o público previsto estão pessoas que já desenvolvem ou pretendem desenvolver atividades econômicas em comunidades, jovens e adultos interessados em abrir um pequeno negócio ou formalizar empreendimentos informais e moradores de áreas classificadas como de vulnerabilidade social.
A proposta prevê cursos sobre gestão de negócios e finanças pessoais, planejamento estratégico, controle orçamentário, formalização e MEI, marketing digital, vendas, inovação e desenvolvimento sustentável. As capacitações poderão ocorrer presencialmente ou pela internet. Também estão previstas consultorias individualizadas, desde a análise inicial da ideia ou do empreendimento até a elaboração de planos de negócio e o acompanhamento da consolidação e expansão da empresa.
Aos 27 anos, Maria Eduarda Oliveira, moradora da Ladeira dos Tabajaras, em Copacabana, conhece algumas das dificuldades que a proposta pretende alcançar. Ela criou a Mary Pops, marca de pipoca gourmet que comercializa pelas ruas do Rio.
“A ideia de empreender surgiu em um momento de transição da minha vida. Eu estava procurando oportunidades, não estava na faculdade, não tinha sido aprovada em um concurso e também estava procurando emprego. Eu colocava currículos, mas as coisas não estavam caminhando como eu esperava. Até que, em um culto na igreja, ouvi um pastor contar uma história bíblica que me inspirou. Uma das minhas avós me ensinou a fazer pipoca gourmet. Foi então, naquele culto, que olhei para mim e percebi que eu tinha algumas coisas nas minhas mãos”, relembra.
A rotina começa cedo. Pela manhã, Duda prepara a produção e, depois, organiza novamente a cozinha antes de sair para vender.
“Pela manhã, organizo a cozinha, limpo, preparo os materiais e começo a produção das pipocas. Normalmente fico produzindo durante toda a manhã, até por volta das 10h ou 10h30. Depois da produção, vem uma parte que muitas vezes as pessoas não enxergam: limpar e organizar tudo novamente, deixar a cozinha em ordem, organizar os materiais e me preparar para sair”, explica.
Para ela, empreender a partir de uma comunidade acrescenta dificuldades relacionadas à estrutura e à falta de orientação.
“Hoje, um dos meus maiores desafios é a estrutura. Eu ainda não tenho um espaço que me permita manter um estoque de materiais. Outra questão é não ter uma orientação, alguém que diga como tocar o negócio”, afirma.
Ao conhecer o projeto em análise na Alerj, Maria Eduarda identificou na proposta pontos que considera importantes para quem está começando.
“Quando parei para conhecer o projeto, fiquei feliz por ver que a proposta prevê justamente alguns pontos que considero importantes para quem está começando: capacitação gratuita, orientação técnica, gestão financeira, planejamento, inovação, formalização e possibilidades de acesso a crédito. O projeto também propõe uma rede de apoio para pequenos empreendedores, jovens e pessoas que vivem ou trabalham em comunidades e áreas de vulnerabilidade social”, diz.
“Acredito que podemos mudar a nossa realidade através do trabalho digno, da criatividade, da persistência e também da fé. E o meu sonho é que aquilo que começou com uma pequena cestinha de pipoca nas ruas possa crescer, gerar dignidade, renda e, no futuro, também gerar oportunidades”, completa.
Pelo texto do Projeto de Lei 6.315/2025, o programa poderá ainda oferecer linhas de crédito em parceria com instituições públicas e privadas, com condições diferenciadas, como juros reduzidos, prazos ampliados e carência de até 12 meses. A proposta também prevê parcerias com universidades, organizações, incubadoras e redes de mentoria para oferecer apoio técnico aos empreendedores.



