A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e seus sindicatos filiados criticaram o formato e a condução do debate presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), realizado pela TV Bandeirantes no domingo (18). Em nota divulgada nesta segunda-feira (19), as entidades afirmam que o confronto deu espaço a provocações, ataques pessoais e afirmações sem o devido questionamento, em prejuízo da apresentação de propostas e do direito dos eleitores à informação de qualidade.
Intitulado “Debate eleitoral não é espetáculo. Jornalismo exige compromisso com a verdade e a democracia!”, o documento questiona a responsabilidade editorial da emissora e defende mudanças nas regras dos debates eleitorais.
A manifestação ocorre na última semana antes do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de outubro. O encontro promovido pela Band foi o primeiro confronto direto entre os dois candidatos nesta etapa da disputa.
Para a Fenaj, a função jornalística de um debate não se limita a oferecer espaço para que os concorrentes se enfrentem. Também envolve apresentar informações relevantes, confrontar versões e assegurar que os eleitores tenham elementos para avaliar propostas e declarações.
Fenaj questiona responsabilidade editorial da Band
Na nota, a Fenaj reconhece a trajetória profissional dos jornalistas responsáveis pela mediação, mas direciona suas críticas às regras do programa e às decisões editoriais da Band.
A entidade considera insuficiente garantir apenas igualdade de tempo entre os candidatos. Defende que os debates tenham mecanismos capazes de estimular respostas às perguntas e permitir intervenções diante de informações comprovadamente falsas.
A crítica também alcança o uso dos confrontos eleitorais como material para redes sociais. Segundo a Federação, a busca por frases de efeito, provocações e vídeos curtos pode deslocar a atenção de temas diretamente relacionados à vida da população.
Saúde, educação, emprego, renda, desigualdade, segurança, soberania nacional, meio ambiente e direitos sociais estão entre os assuntos que, na avaliação da entidade, deveriam ocupar espaço central nas discussões entre candidatos à Presidência.
Imparcialidade jornalística não significa ausência de questionamento
Um dos principais argumentos do documento é que a obrigação jornalística de ouvir diferentes posições não elimina o dever de verificar informações e questionar declarações sem sustentação factual.
Para a Federação, a imparcialidade jornalística exige tratamento responsável dos fatos, e não a reprodução de todas as afirmações como se tivessem o mesmo grau de comprovação.
A nota sustenta que o jornalismo deve perguntar, confrontar versões, contextualizar acontecimentos e exigir esclarecimentos. A entidade alerta que a ausência de intervenção diante da desinformação pode contribuir para conferir legitimidade a afirmações falsas.
A discussão encontra respaldo na cobertura posterior ao debate. Uma checagem publicada pela Folha de S.Paulo identificou declarações incorretas, imprecisas ou exageradas feitas por ambos os candidatos, incluindo afirmações sobre economia e gastos do governo.
A Fenaj não propõe impedir o confronto político. O que defende é a adoção de regras que preservem o contraditório sem abrir mão da verificação de fatos e da responsabilidade editorial.
Jornalistas da Band destacam participação dos mediadores
A avaliação apresentada pela Fenaj contrasta com manifestações de profissionais da Band após o debate.
O diretor de jornalismo da emissora, Fernando Mitre, afirmou que as perguntas formuladas pelos jornalistas foram responsáveis por trazer conteúdo programático ao encontro. Em sua análise, o confronto direto entre os candidatos foi marcado por ataques mútuos, enquanto as intervenções da imprensa permitiram abordar questões de interesse público.
Mitre também destacou que o programa combinou um bloco de confronto com banco de tempo e rodadas tradicionais de perguntas, respostas, réplicas e tréplicas.
A jornalista Adriana Araújo, uma das mediadoras, avaliou após a transmissão que a emissora cumpriu sua missão ao proporcionar o confronto entre os candidatos. Ela reconheceu os momentos de tensão e ressaltou o trabalho de controle da plateia e de condução do programa.
Essas manifestações foram feitas após o debate e não representam uma resposta específica à nota da Fenaj, divulgada posteriormente.
Debate eleitoral deve informar, não apenas gerar audiência
Ao cobrar mudanças nos formatos adotados pelas emissoras, a Federação Nacional dos Jornalistas coloca em discussão os limites entre liberdade de expressão dos candidatos, autonomia editorial e responsabilidade jornalística.
A entidade defende regras que favoreçam respostas objetivas, intervenções diante de informações comprovadamente falsas e consequências para o descumprimento das normas estabelecidas para os debates.
O documento também sustenta que a busca por audiência não deve se sobrepor à finalidade informativa de um debate eleitoral.
A discussão ganha relevância na reta final da campanha, quando os debates televisivos oferecem aos eleitores uma das últimas oportunidades de acompanhar os candidatos em confronto direto.
Para a Fenaj, preservar esse espaço como instrumento de informação pública é parte da responsabilidade dos veículos de comunicação no processo democrático.
Leia a nota completa da Fenaj: https://fenaj.org.br/debate-eleitoral-nao-e-espetaculo-jornalismo-exige-compromisso-com-a-verdade-e-a-democracia/



