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Opinião: Feminismo virou palavrão. Quem ganha com isso?

Barbara Baez é dvogada formada na UFRJ, pós graduada em direito público, mãe e buziana

Barbara Baez é advogada formada na UFRJ, pós graduada em direito público, mãe e buziana

Transformar uma reivindicação em insulto impede o debate. Quando “feminista” passa a significar inimiga dos homens, da maternidade e da família, constranger quem reivindica substitui qualquer resposta. Quem ganha quando a luta por igualdade vira motivo de vergonha?

A propaganda da extrema-direita explora esse mecanismo. “Direitos humanos” são reduzidos à defesa de criminosos; “comunismo” vira rótulo para propostas de proteção social; e “ideologia de gênero” transforma debates sobre igualdade e diversidade em ameaça. Repetidas à exaustão, essas expressões provocam rejeição e funcionam como senhas de pertencimento. Reconhecer o suposto inimigo dispensa compreender o assunto.

Com o feminismo, a discussão sobre violência, autonomia e trabalho é substituída pela caricatura da mulher ressentida, empenhada em destruir homens e família. O estigma é tão eficaz que até mulheres defensoras de direitos conquistados pelos movimentos feministas fazem questão de declarar que “não são feministas”.

Essa lógica permite celebrar mulheres no poder enquanto se condenam aquelas que questionam sua distribuição. Foram eleitas 51 deputadas federais em 2014, 77 em 2018, 91 em 2022 e 109 em 2026. Somos 52,8% do eleitorado, mas ocuparemos apenas 21,2% das cadeiras da Câmara. Até nosso recorde revela o tamanho da exclusão.

Presença feminina, porém, não garante defesa dos direitos das mulheres. Em 2024, Chris Tonietto relatou favoravelmente a PEC que pretende estabelecer o direito à vida desde a concepção. Segundo a própria Câmara, a proposta impediria o aborto legal, inclusive em casos de estupro. No campo antifeminista, há até vozes contrárias ao voto feminino. Celebra-se a ascensão de algumas enquanto se questiona o direito das demais de escolher quem governa.

Há também a inclusão de vitrine, ou tokenização. Mulheres ocupam cargos e mobilizam eleitoras, mas o controle sobre recursos, candidaturas e prioridades permanece concentrado em outras mãos. Sua presença é exibida como prova de igualdade, sem uma divisão correspondente do poder de decisão.

Joice Hasselmann perdeu a liderança do governo no Congresso em 2019 depois de contrariar Bolsonaro na disputa pelo comando do PSL. Mais recentemente, Michelle Bolsonaro defendeu Priscila Costa para o Senado no Ceará, mas a indicação foi preterida em favor de Alcides Fernandes. Mesmo presidindo o PL Mulher, Michelle manifestou insatisfação com os limites à sua autonomia e afirmou ter sido desrespeitada pelo enteado e candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro. Esses episódios mostram que o prestígio feminino, útil aos partidos para mobilizar eleitoras, não assegura influência nas decisões. Até quem ocupa a vitrine pode descobrir que as decisões são tomadas em outra sala. A autonomia feminina interessa também a quem rejeita o feminismo.

Esses limites começam muito antes dos partidos. Mulheres sempre trabalharam. Pobres, negras e escravizadas já trabalhavam fora do lar antes de isso ser celebrado como emancipação entre as mulheres de classe média. Ampliamos o acesso ao trabalho remunerado, mas as responsabilidades domésticas não foram redistribuídas na mesma medida. Acumulamos jornadas e recebemos salário por apenas uma delas.

Diz-se que o feminismo prometeu liberdade e entregou exaustão. Mas a exaustão vem da exploração econômica, da precarização do trabalho e das tarefas domésticas que continuam recaindo sobretudo sobre nós. Culpar o feminismo pela sobrecarga poupa quem se beneficia dela e oferece a dependência como solução.

Em 2022, mulheres eram responsáveis por 49,1% dos domicílios e dedicavam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas, contra 11,7 dos homens. Ocupavam apenas 39,3% dos cargos gerenciais. A sobrecarga reduz nosso tempo para a vida pública e depois serve para justificar nossa ausência nos espaços de comando.

Criar filhos, limpar, alimentar, acompanhar doentes e amparar idosos sustenta toda a sociedade. Empresas e Estado se beneficiam desse trabalho sem assumir integralmente seus custos. O tempo disponível de quem trabalha e governa frequentemente depende do tempo comprometido de quem cuida.

A obrigação doméstica ganha aparência de virtude nos elogios à “mãe dedicada”, à “esposa exemplar” e à “filha prestativa”. O elogio pode cobrar disponibilidade ilimitada. Quem recusa o sacrifício corre o risco de ser chamada de egoísta. O feminismo incomoda porque questiona uma obrigação cuja manutenção beneficia quem se acostumou a dispor do trabalho das mulheres.

O custo da desigualdade e quem se beneficia dela

Essa expectativa ganha autoridade religiosa quando leituras conservadoras apresentam a submissão feminina como mandamento e o cuidado como destino. No Brasil, esse discurso aparece em setores conservadores de igrejas evangélicas e em sua atuação política. A desigualdade recebe justificativa divina, e questioná-la passa a significar afrontar a família, a tradição e o próprio Deus. O sacrifício feminino torna-se obrigação espiritual.

Nenhuma fé é uniforme nem pertence à extrema-direita. Há mulheres evangélicas que lutam por igualdade dentro e fora das igrejas. O problema surge quando lideranças políticas e religiosas transformam uma interpretação particular em regra para todas. Orientar a própria vida pela fé é uma liberdade; impor essa orientação às demais é negá-la. Defender a família exige proteger quem vive nela, inclusive contra a violência, a dependência e a submissão impostas em seu nome.

Em O segundo sexo, Simone de Beauvoir observa que até o homem mais desfavorecido pode encontrar, na mulher que o serve, a sensação de possuir alguma coisa. Sofrer exploração não impede reproduzi-la dentro de casa. A pobreza não dissolve a hierarquia entre os sexos.

O privilégio permite transferir a sobrecarga a empregadas, babás e cuidadoras. Quando há baixos salários, informalidade e jornadas excessivas, a autonomia de uma mulher pode repousar sobre a exaustão de outra, que volta para casa e continua cuidando. No final de 2025, 68% das trabalhadoras domésticas eram negras. Gênero, raça e classe se cruzam nessa desigualdade.

Uma mulher privilegiada que usa sua experiência para desqualificar o feminismo confunde proteção individual com igualdade coletiva. Poder pagar para transferir a sobrecarga não prova que ela foi superada. Pode apenas retirá-la de seu campo de visão.

O antifeminismo protege essa ordem. Ganham os que dispõem do trabalho feminino sem compartilhar responsabilidades, preservam vantagens ou conquistam votos oferecendo inimigos no lugar de soluções. Perdem as mulheres cujo tempo, corpo e liberdade continuam tratados como recursos à disposição dos outros.

A cobrança alcança também a esquerda. Sem apagar diferenças políticas nem negar conquistas, é preciso exigir coerência entre discurso, orçamento e legislação. Creches, serviços de cuidado, autonomia econômica e representatividade nos espaços de poder permanecem aquém do necessário. É uma pauta de toda a sociedade, ainda tratada como assunto de um segmento.

O custo desse estigma aparece na violência persistente, na autonomia negada e nas vidas desprotegidas. Parem de tratar o feminismo como vilão. Precisamos dele todos os dias. O feminicídio é real, assim como a violência enfrentada pela Lei Maria da Penha. Reconhecer direitos é indispensável, mas não basta para assegurar vida e liberdade.

Igualdade formal reconhece os mesmos direitos perante a lei. Igualdade material enfrenta as condições que impedem seu exercício, como violência, dependência econômica, sobrecarga e exclusão do poder. O feminismo não exige que a mulher abandone o lar; exige que nenhuma seja confinada a ele. Desmoralizá-lo facilita o desmonte dessas conquistas, cujas proteções alcançam inclusive quem acredita não precisar delas.

Quando o feminismo vira palavrão, a desigualdade ganha um álibi. E quem sempre pagou a conta continua pagando.

Sandro Peixoto

Sandro Peixoto, jornalista, cronista de Búzios, foi repórter em O Perú Molhado

Octavio Raja gabaglia

Octavio Raja Gabaglia, o carismático Otavinho, é um nome que ressoa nas praias, encostas e telhados de Búzios. Esse arquiteto genial, conhecido pelo bom papo e pela mente afiada, conseguiu, com engenhosidade, domar os ventos, convidar a luz do sol para habitar as casas com gentileza, além de convencer a paisagem exuberante a fazer parte de sua obra.

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