Um dos casos criminais de maior repercussão da história recente da Região dos Lagos terá um novo capítulo em setembro. Glaidson Acácio dos Santos, conhecido como “Faraó dos Bitcoins”, será levado a júri popular no dia 2 de setembro, no Rio de Janeiro, em processo relacionado às acusações de crimes contra a vida atribuídos ao grupo que, segundo o Ministério Público, atuava sob seu comando.
O julgamento aconteceria originalmente em Cabo Frio, cidade onde a GAS Consultoria ganhou projeção e transformou Glaidson em uma figura conhecida muito antes de sua prisão. O júri, no entanto, foi transferido para a capital fluminense.
Glaidson está preso desde agosto de 2021, quando foi alvo da Operação Kryptos, da Polícia Federal, que investigou as operações financeiras da GAS Consultoria. A empresa atraía clientes com a promessa de rendimentos mensais ligados a operações com criptomoedas.
Cinco anos depois da prisão, a trajetória que começou na Região dos Lagos acumula processos por crimes financeiros, organização criminosa e acusações relacionadas a homicídios e já chegou também às páginas de um livro e a um projeto de adaptação para o cinema.
Júri envolve acusações de crimes contra a vida
O julgamento marcado para 2 de setembro não deve ser confundido com os processos relacionados diretamente ao funcionamento financeiro da GAS Consultoria.
O Tribunal do Júri é responsável por analisar crimes dolosos contra a vida.
Entre os casos associados pelas investigações ao grupo atribuído a Glaidson está o assassinato do trader Wesley Pessano, de 19 anos, morto a tiros em São Pedro da Aldeia.
As investigações também relacionaram o grupo a ataques contra concorrentes do mercado de investimentos em criptomoedas. Segundo o Ministério Público, Glaidson teria estruturado um grupo armado voltado à eliminação de pessoas consideradas obstáculos aos negócios da organização.
Há ainda a acusação relacionada à tentativa de homicídio de Nilson Alves da Silva, conhecido como Nilsinho, investidor do mercado de criptomoedas que sobreviveu a um ataque a tiros.
As responsabilidades criminais relativas aos fatos submetidos ao júri serão decididas pelos jurados. Glaidson tem direito à ampla defesa e ao contraditório.
De Cabo Frio para o centro de uma investigação bilionária
A história de Glaidson está profundamente ligada a Cabo Frio.
A GAS Consultoria cresceu na cidade oferecendo contratos a investidores que buscavam retornos elevados por meio do mercado de criptomoedas.
Segundo registros do caso, a empresa chegou a oferecer rendimentos mensais de aproximadamente 10% aos clientes. A expansão foi rápida e ultrapassou os limites da Região dos Lagos.
O livro “Queda Livre — A história de Glaidson e Mirelis, faraós dos bitcoins”, dos jornalistas Chico Otavio e Isabela Palmeira, aponta que o negócio movimentou cerca de R$ 38 bilhões entre 2015 e 2021 e alcançou pelo menos 89 mil pessoas.
A prisão de Glaidson, em 2021, marcou o início da queda do império construído em torno da GAS.
Condenação de 19 anos em outro processo
Enquanto aguarda o júri popular, Glaidson já acumula uma condenação em outro braço das investigações.
Em outubro de 2025, a Justiça do Rio o condenou a 19 anos e dois meses de prisão pelos crimes de organização criminosa e corrupção ativa.
Segundo o MPRJ, a organização ligada à GAS atuava na Região dos Lagos e praticava crimes violentos contra possíveis concorrentes, além de corrupção e ameaças.
A acusação sustentou ainda que vantagens indevidas eram oferecidas a policiais civis para a realização de diligências contra concorrentes da empresa.
Essa condenação é independente do julgamento pelo Tribunal do Júri marcado para setembro.
Do caso policial para as páginas de um livro
A dimensão alcançada pelo caso levou os jornalistas Chico Otavio e Isabela Palmeira a reconstruírem a trajetória de Glaidson e da mulher, Mirelis Yoseline Diaz Zerpa, no livro “Queda Livre”, lançado pela Intrínseca em maio de 2024.
A obra acompanha a transformação de Glaidson, de origem humilde, em empresário à frente de um negócio bilionário, além da expansão e posterior desmonte da GAS Consultoria.
O livro também aborda a relação de Glaidson e Mirelis, o crescimento da empresa em Cabo Frio, a promessa de altos rendimentos e as investigações criminais que passaram a cercar o casal.
História do Faraó também deve chegar ao cinema
A trajetória que começou em Cabo Frio também despertou interesse do cinema.
Os direitos de adaptação de “Queda Livre” foram adquiridos pela Morena Filmes, produtora de Mariza Leão e Tiago Rezende. O projeto pretende transformar a história narrada pelos jornalistas em um longa-metragem.
Quando a adaptação foi anunciada, em 2024, a previsão era de início das filmagens no primeiro semestre de 2025 e ainda não havia sido divulgado o ator escolhido para interpretar Glaidson.
Até o momento não há anúncio público recente da produtora confirmando elenco, data de estreia ou estágio atual da produção. Por isso, a adaptação deve ser tratada, neste momento, como um projeto cinematográfico anunciado, e não como um filme com lançamento confirmado.
O projeto parte justamente da trajetória que transformou um ex-garçom e ex-pastor em personagem central de um dos maiores escândalos envolvendo investimentos em criptomoedas no país.
Próximo capítulo será decidido por jurados
Agora, as atenções voltam-se para 2 de setembro, quando Glaidson estará diante do Tribunal do Júri no Rio de Janeiro.
A mudança do julgamento de Cabo Frio para a capital também retira da cidade onde a GAS construiu seu principal reduto o julgamento de uma das partes mais graves da história atribuída ao chamado Faraó dos Bitcoins.



