O arquiteto Octavio Raja Gabaglia transformou uma vila de pescadores em paradigma do urbanismo costeiro. Agora, o legado que fez de Búzios um ícone do equilíbrio entre natureza e cidade está sob ataque.
No alto da varanda, em sua casa quase imperceptível “escondida entre a vegetação” da Ponta da Sapata, voltada para à Baía Formosa, composta pelas praias de Manguinhos e Rasa, o arquiteto Octavio Raja Gabaglia, 80 anos, ajusta a luneta que usa há mais de meio século. Dali, vê nascer prédios que nunca deveriam existir. “A lei é simples”, ele murmura. “Dois andares, escala humana, telha canal e respeito ao terreno e sem competir com a paisagem.” Essas palavras podem parecer soltas, e até sem sentido, fora do contexto de que as praias citadas ficam em Búzios, na chamada Região dos Lagos do Rio de Janeiro. O arquiteto em questão, carioca, conhecido informalmente por Otavinho, chegou na cidade na década de 1960, ainda criança, trazido pelas mãos dos pais. Aos 17 anos, ainda na faculdade, resolveu que não voltaria mais pro Rio, iria viver em Búzios e fazer do lugar seu lar. Mas, talvez não tivesse a percepção completa disso, fez mais que isso. Em uma discussão acalorada com outro arquiteto local, que quis dar uma “carteirada” de urbanista. Octavio, respondeu sem modéstia, mas também sem vaidade, “É. Mas eu fiz uma cidade”. A cidade é Búzios, berço de um gênero arquitetônico, que alguns estudiosos da arquitetura ponderam que seria mais adequado chamar de movimento, conhecido como “Estilo Búzios”, ou, em alguns casos, apenas o “Estilo Otavinho”. Caracterizado mais visualmente (é mais que isso), por casas de apenas dois andares, pelas peças de madeira vencendo grandes vãos, telhados de telha canal em quatro águas, varandas e grandes aberturas em vidro, também tem uma volumetria e escala bem definida. “O manto protetor da paisagem e da memória local”, como define a urbanista Marlene Ettrich, uma das principais peças na construção do Plano Diretor do município com apenas 30 anos de emancipação, que aponta um ato de vanguarda e rigor em uma país que tem como característica geral da ocupação de seu grandioso litoral um desastre urbanístico de gigantismo.
Com a história já caminhando para a década de 1970, Octavio nadava na Praia do Canto, pelado, ele frisa, quando viu que subia entre as casas baixas, onde hoje é a famosa Rua das Pedras (também projeto dele) um “caixote” que já apontava, pela estrutura, que teria três andares. Quando deu por si já estava na frente da obra, coberto por um pareô amarrado à cintura, “cuspindo” ao proprietário: “Com autoridade eu disse ao responsável pela obra, que era um homem local, meu amigo até, que ele estava infligindo uma lei que restringia a 7,5m a altura máxima das construções em Búzios, quando cobertas por telhas cerâmicas, limitando, quando a cobertura fosse de telhas planas ou laje, o que era o caso ali, a 5,5m de altura.”, conta e completa: “Nessa altura de 5,5m ninguém aguenta o calor dentro da casa. Então cerquei ele. O deixei sem saída”.
A ênfase com que proferiu as palavras acabou convencendo o proprietário do terreno, que concordou em não levantar o terceiro pavimento, desde que Octavio não denunciasse a construção aos órgãos de fiscalização.
“Não existia lei alguma, nem municipal, nem estadual, nem federal. Foi uma ação rápida para impedir a primeira construção que levaria a um processo de descaracterização sem volta”, afirma sem vestígio de dúvidas.
A “lei de mentira” protegeu as caracterizas originais, que estavam sendo moldadas por Otavinho, por aproximadamente uma década, até que ele conseguiu, já na década de 1980, ser eleito vereador, ainda pelo município de Cabo Frio, a que Búzios era distrito; Foi então aprovada, finalmente, uma lei que realmente proíbe mais de dois andares e ainda define a escala máxima.
“Eu sabia que cidade iria subir além do primeiro andar. Então tentei se rápido em fazer parar em dois. Acredito que acertei”, reflete com humildade.
Aspásia Camargo, socióloga, que foi deputada estadual e é especialista em politicas urbanas, é direta: “Octavio é um caso raro no urbanismo brasileiro. O que ele realizou em uma cidade como Búzios, com poucos recursos, numa estrutura municipal frágil, é coisa de visionário. Mas seu grande mérito foi construir um modelo de cidade que funciona fazer com que as pessoas entendessem esse modelo.”.
O modelo elogiado é simples e torna Búzios uma exceção. As cidades vizinhas, como Cabo Frio, já tomada de prédios, não apenas foram descaracterizadas em seu patrimônio estilístico, mas também pela altura que aprisiona a paisagem e altera o clima praiano. O restante do país também não é muito diferente disso, como se sabe.
“Se você vai a Nova York, com aquela escala brutal, é uma cidade que te esmaga. Búzios não. É uma cidade que te abraça”, Octavio busca fazer um comparativo, flertando com a poesia, mas o resultado do qual a pequena cidade pode ser orgulhar, tanto quanto da paisagem natural, está em risco. Octavio sabe disso, e por isso não passa todo seu tempo na luneta observando. Ele, como fez a vida inteira, se mete na política, faz denúncias, entra em debates públicos, doa projetos, dá entrevistas, viaja bucando aliados e recursos. Não descansa na notoriedade que ganhou e nem se demora entre elogios que o poderiam fazer considerar que já fez a parte dele e agora seria hora de descansar. O ancião, que já foi agraciado com comendas, títulos e outra honrarias, anda a passos largos e decididos. Está no front de uma cidade que está ainda mais acossada pela especulação imobiliária e pelo boom demográfico descolado da história contada aqui.
“Atenção à escala, meus amigos, à escala!”, para Octavio basta isso para que a cidade não se perca. Para ele o limite de altura, mas que que andares, é o que pode “manter Búzios sendo Búzios”. E é didático: “Mesmo que uma ou outra casa em Búzios não siga o ‘Estilo’ como estética, se a escala for respeitada, ela desaparece no conjunto. É a proteção pela harmonia coletiva. A escala funciona como um manto protetor que cobre os deslizes. Quando tudo está no mesmo nível, o erro é camuflado pela paisagem.”. Para ele, e para tantos outros moradores e admiradores, arquitetos ou não, se esse pacto for rompido, o estrago será rápido e irreversível.
“O Poder Público está fazendo vista grossa. As construções estão subindo, além do permitido, um pouquinho de cada vez. E quando perceber, o lugar terá se tornado um desengonço sem volta”, alerta.
Ainda na década de 1990, uma das maiores incorporadoras do Rio de Janeiro chegou á cidade com a proposta de construir um condomínio com casas geminadas de quatro andares no centro de Búzios. Na época a lei de gabarito máximo de dois pavimentos já estava aprovada, mas isso não impediu que de tentarem contornar a norma com um projeto camuflado, que, segundo o próprio material de divulgação, poderia futuramente ser “adaptado” para alcançar os quatro andares originalmente desejados. “Combinei com minha mãe, que se fez de interessada, foi até lá, pegou o panfleto, planta baixa, e ouviu tudo do próprio corretor. Era isso mesmo: iam fazer dois agora, mas já afirmavam eu depois, pela escala acima da norma, daria para levantar mais andares. Pronto. Foi o que precisava”, conta com um sorriso maroto e uma piscadela que convida a ler nas entrelinhas do que será narrado.
Liderada por Octavio, a população se levantou contra o projeto. Cartas, reuniões, pressão nos órgãos públicos, e a resistência ganhou contornos de uma revolta. O showroom do empreendimento, construído provisoriamente no terreno, foi incendiado em uma noite fria por alguém mais exaltado, que nunca se revelou.
Otavinho, dentro de si ainda o mesmo menino ousado de 60 anos atrás, desafia: “Eu não estou pronto para entrar em uma guerra. Eu nunca sai da guerra. Porque por Búzios tudo. Salvo a honra”.
Victor P. Viana é jornalista e escritor. Autor do livro Octavio Raja Gabaglia – Criador do Estilo Búzios.



