A Avenida José Bento Ribeiro Dantas deixou de ser apenas a principal via de Búzios. Virou um retrato do colapso urbano.
Da Rasa a João Fernandes, o que se vê é uma sequência de conflitos. Pedestres atravessam sem proteção. Ciclistas disputam espaço com veículos. Carros travam. E motos avançam — em todas as direções.
O trecho entre o Posto Bellas (referência local da chamada “Reta da Marina”) e o centro concentra o pior cenário. Ali, a regra virou exceção.
A Prensa acompanha esse processo desde 2021. Na primeira reportagem, já havia sinais claros de deterioração. “Os motociclistas optam pela divisão de fluxo, pois não querem ficar atrás de veículo nenhum”, apontava o especialista Walter Silva. À época, o fenômeno ainda era descrito como tendência. Hoje, é rotina ampliada.
Os dados mostram a escalada. Em 2022, Búzios tinha 5.999 motocicletas. Em 2023, saltou para 6.503 — crescimento de 8,4%, mais que o dobro da alta dos automóveis. A frota total chegou a 25 mil veículos para uma cidade de cerca de 40 mil habitantes. A pressão sobre uma única via central tornou-se inevitável.
Mas o problema deixou de ser apenas volume. Virou comportamento
O chamado “corredor de motos” — prática comum em grandes centros, mas sem regulamentação local — foi radicalizado. Motociclistas trafegam na contramão, cortam pela direita, avançam sobre faixas de pedestres sem reduzir e invadem ciclovias. Em vários pontos, sobem nas calçadas. Onde não há calçada — o que é regra em boa parte da via — o pedestre simplesmente desaparece da equação.
O cenário piorou com a chegada massiva das motos elétricas. Sem ruído, sem identificação clara e, muitas vezes, sem qualquer formação de trânsito, usuários circulam como se não houvesse regra. Calçadas viraram pista. Ciclovias, atalho. A via pública, território livre.
Os relatos colhidos desde a primeira reportagem se repetem — agora com mais frequência e risco. “Na hora eu me desequilibrei da bicicleta […] a moto não tinha placa”, contou a ciclista Mayra Machado. “Tive que sair da ciclovia e passar pelo acostamento”, disse em outro episódio. As falas, registradas anteriormente, ajudam a dimensionar um problema que não só persistiu — se expandiu.
Os números acompanham a sensação de caos
Em 2022, foram 69 acidentes, com 13 mortes. Em 2023, o total caiu para 67, mas a violência permaneceu: 94 feridos e 7 mortos. A diferença é onde eles acontecem. Se antes estavam concentrados na RJ-102, agora migram para dentro da cidade — especialmente para a José Bento Ribeiro Dantas, que sozinha registrou 24 feridos.
O Hospital Municipal Rodolpho Perissé confirma o agravamento. Em 2024, foram 45 entradas graves em sete meses. Em 2025, até setembro, foram 87. Quase o dobro. Um padrão se repete: a maioria envolve motociclistas.
O estado já colocou Búzios na “zona vermelha” dos acidentes, ao lado de cidades maiores. A diferença é estrutural. Aqui, não há alternativa viária. Não há transporte público estruturado — apenas vans precárias. E não há fiscalização contínua.
O resultado é visível na rua. E imediato no sistema de saúde
Enquanto isso, soluções discutidas não saem do papel. Projetos de novas ligações viárias foram interrompidos ou abandonados. A cidade segue dependente de um único eixo. E esse eixo já não suporta o fluxo — nem o comportamento que se impôs sobre ele.
Entre 2024 e 2025, tudo aumentou: frota, acidentes, gravidade. Mas o dado mais evidente não está nas estatísticas.
Está na sensação de ausência de regra
“Na prática, cada um faz o que quer. E ninguém parece saber exatamente o que está fazendo.”, desabafa Cleiton Duarte, morador de Manguinhos entrevistado pela Prensa após quase ser atropelado ao tentar atravessar a faixa de pedestres em frente ao Porto da Barra, em Manguinhos.



