O secretário de Saúde de Búzios, Leonidas Heringer, levou ao centro do debate nacional uma experiência local ainda rara no país: o atendimento público estruturado em saúde mental infantil com uso de cannabis medicinal.
A apresentação ocorreu durante o XVI Congresso do Conselho de Secretarias Municipais de Saúde de Pernambuco, realizado em Porto de Galinhas, que reuniu gestores e especialistas para discutir os impasses da política de saúde mental no SUS.
No painel sobre os desafios do setor no século XXI, Heringer expôs o modelo da Clínica Beija-Flor, unidade criada na gestão do prefeito Alexandre Martins e inaugurada em março de 2024. O serviço concentra atendimento especializado para crianças e adolescentes, com foco no Transtorno do Espectro Autista (TEA), e integra uma política municipal que inclui o fornecimento de óleo de cannabis pelo SUS.
A clínica opera com equipe multidisciplinar — neuropediatria, psiquiatria infantil, psicologia, fonoaudiologia e assistência social — e centraliza desde diagnóstico até acompanhamento contínuo e suporte familiar. O atendimento é público.
A experiência foi apresentada em um ambiente de pressão crescente sobre a rede de saúde mental. O congresso expôs um cenário de demanda em alta, estrutura insuficiente e dificuldade de articulação entre municípios, estados e União. Nesse contexto, iniciativas locais passaram a ocupar espaço como possíveis referências.
Ao levar o caso de Búzios, Heringer insere o município em um debate maior: como ampliar o acesso a tratamentos especializados dentro do SUS sem depender exclusivamente de grandes centros.
“Debates como esse em Pernambuco são fundamentais para trocar experiências. Aqui, representantes de outros estados já nos procuraram para replicar o modelo da Clínica Beija-Flor em seis municípios.”, disse.
O uso de cannabis medicinal, ainda cercado de barreiras regulatórias e resistência institucional em parte do país, aparece como um dos pontos de tensão. Em Búzios, já é política pública em operação.
O evento, que segue até o dia 9, reúne secretários, técnicos e representantes do Ministério da Saúde para discutir temas como atenção primária, financiamento e saúde mental. A mostra de experiências municipais funciona como vitrine de soluções já implementadas — e como termômetro da desigualdade entre redes locais.
A presença de Búzios nesse espaço sinaliza uma mudança de posição: de município consumidor de políticas para produtor de modelo.
Em um sistema pressionado por demanda crescente e respostas ainda fragmentadas, experiências como a da Clínica Beija-Flor deixam de ser apenas locais. Passam a disputar espaço no desenho nacional da política pública.



