O candidato à Presidência Augusto Cury (Avante) encerrou, neste sábado (29), a série de entrevistas da TV Globo com os presidenciáveis. Médico psiquiatra e escritor, estreante em uma disputa eleitoral, Cury levou para a sabatina propostas relacionadas à saúde mental, educação, tecnologia e empreendedorismo, mas encontrou dificuldade para explicar como algumas delas seriam financiadas ou executadas e não apresentou uma estratégia definida para questões centrais da economia.
A entrevista, conduzida por Renata Vasconcellos e César Tralli após o Jornal Nacional, fechou a sequência iniciada na segunda-feira (24). Cury foi o sexto candidato ouvido pela emissora, depois de Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).
Um dos momentos em que a dificuldade de detalhamento ficou mais evidente ocorreu na discussão sobre as contas públicas. Cury reconheceu o tamanho do problema fiscal e prometeu reduzir a dívida, mas não apresentou uma estratégia completa para atingir o objetivo. Questionado sobre possíveis mudanças no arcabouço fiscal, afirmou que ainda estava estudando o assunto.
Entre as medidas apresentadas para aumentar a arrecadação, o candidato defendeu elevar para mais de 50% a tributação das empresas de apostas esportivas, as bets. Também falou em financiar até 10 milhões de microempresas para ampliar a atividade econômica e, consequentemente, a arrecadação de impostos.
Cury prometeu ainda reduzir a estrutura do governo federal. Disse que pretende cortar entre oito e dez ministérios, mas, questionado sobre quais seriam extintos, respondeu que seria necessária uma análise criteriosa antes da decisão. Ao mesmo tempo, propôs criar uma estrutura específica para inteligência artificial e robótica e um Ministério da Segurança Pública.
A tecnologia apareceu repetidamente nas respostas do candidato. Cury defendeu a criação de uma secretaria executiva ou ministério dedicado à Inteligência Artificial e Robótica, com aplicação da tecnologia na administração pública. Seu programa de governo é, entre os apresentados pelos presidenciáveis, o que mais menciona inteligência artificial: são 56 referências à tecnologia. Especialistas ouvidos pelo UOL, porém, apontam que propostas desse tipo enfrentam problemas como falta de integração de sistemas, infraestrutura, qualidade dos bancos de dados e necessidade de regulamentação.
Na saúde, Cury defendeu ampliar a telemedicina e afirmou que seria possível chegar a 80% dos atendimentos no SUS realizados com apoio dessa modalidade. Os jornalistas questionaram o candidato sobre sua relação anterior como embaixador de uma empresa que atua no setor e um eventual conflito de interesses. Cury negou favorecimento e afirmou que não beneficiaria a companhia em um eventual governo.
A experiência profissional do escritor também apareceu quando o assunto foi educação. Cury defendeu levar para as escolas públicas conceitos de educação socioemocional semelhantes aos utilizados em um programa desenvolvido por ele e atualmente comercializado na rede privada. Questionado sobre eventual interesse comercial, afirmou que disponibilizaria seu programa gratuitamente para todas as escolas públicas.
No combate à violência contra a mulher, propôs usar tecnologia para acelerar o atendimento às vítimas. Entre as ideias estão um aplicativo com botão de alerta conectado às forças de segurança e drones que poderiam sair das delegacias antes da chegada dos policiais. Questionado sobre a aplicação da proposta em regiões sem infraestrutura adequada, reconheceu que o sistema não poderia ser implementado inicialmente em todas as cidades.
Cury também levou a tecnologia para a política externa. Defendeu mudanças na atuação das embaixadas brasileiras para ampliar a promoção de produtos nacionais no exterior e sugeriu utilizar influenciadores digitais nesse trabalho. A proposta seria transformar as representações diplomáticas também em instrumentos de divulgação comercial do país.
Ao longo da entrevista, ficou evidente uma característica diferente daquela observada em parte dos candidatos que o antecederam: Cury apresentou muitas ideias. O problema apareceu na passagem das ideias para políticas públicas concretas.
Reduzir ministérios sem indicar quais, aumentar a tributação das bets sem demonstrar quanto a medida representaria no conjunto das contas públicas, ampliar fortemente a telemedicina e utilizar inteligência artificial em diferentes áreas são propostas identificáveis, mas que ainda dependem de definições sobre custo, estrutura, legislação e implementação.
Na principal questão econômica colocada pelos entrevistadores — como enfrentar a dívida pública e organizar as contas do governo —, Cury terminou a entrevista sem apresentar um plano fiscal detalhado. A própria Folha de S.Paulo, ao analisar a participação do candidato, destacou a falta de detalhamento de seus planos econômicos.
Seis candidatos, seis entrevistas e diferentes perguntas sem resposta
A participação de Augusto Cury encerrou uma semana em que a Globo colocou diante dos jornalistas os seis candidatos mais bem posicionados na pesquisa Quaest divulgada em 14 de agosto. A ordem foi definida por sorteio e as entrevistas foram exibidas após o Jornal Nacional, em um cenário específico nos Estúdios Globo.
Na segunda-feira (24), Romeu Zema (Novo) abriu a rodada. Entre os momentos de maior repercussão esteve uma troca de palavras quando respondia sobre feminicídio e políticas de proteção às mulheres. Ao tentar falar sobre programas voltados ao público feminino, afirmou ter uma série de “programas contra as mulheres”, seguindo depois a resposta com propostas de ampliação das delegacias especializadas e casas de acolhimento.
Na terça-feira (25), Ronaldo Caiado (PSD) passou parte da entrevista em respostas longas e embates com os jornalistas, com dificuldade para transformar alguns dos diagnósticos apresentados em propostas objetivas. Um dos principais posicionamentos políticos foi a defesa da anistia aos envolvidos nos atos de 8 de Janeiro.
Renan Santos (Missão) foi entrevistado na quarta-feira (26). Demonstrou desenvoltura e capacidade de articulação durante a sabatina, mas algumas das propostas defendidas encontraram obstáculos constitucionais ou problemas de aplicação prática.
Na quinta-feira (27), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) respondeu sobre o desempenho de seu governo e sua candidatura à reeleição. Um dos momentos de maior repercussão ocorreu quando foi questionado sobre investigações envolvendo um de seus filhos.
Na sexta-feira (28), Flávio Bolsonaro (PL) prometeu reduzir ministérios e cargos, cortar impostos, renegociar dívidas e realizar um ajuste fiscal sem alterar aposentadorias ou a política de valorização do salário mínimo. Questionado, porém, deixou sem detalhamento o tamanho do ajuste e quais despesas seriam efetivamente reduzidas. A entrevista também teve parte significativa dedicada a Jair Bolsonaro, ao 8 de Janeiro e a controvérsias relacionadas à trajetória política do candidato.
Por fim, neste sábado (29), Augusto Cury (Avante) encerrou a série apresentando propostas em diferentes áreas, especialmente tecnologia, educação e saúde mental. Diferentemente de candidatos que tiveram dificuldade até mesmo para formular medidas durante as entrevistas, Cury apresentou uma quantidade considerável de ideias, mas esbarrou principalmente na pergunta que atravessou toda a rodada de sabatinas: como transformar promessas de campanha em políticas públicas viáveis, financiadas e executáveis.
Com Cury, termina a primeira rodada de entrevistas da Globo nas eleições presidenciais de 2026. Caso a eleição tenha segundo turno, a emissora já informou que realizará novas sabatinas. Desta vez, as entrevistas serão conduzidas por Renata Lo Prete. O segundo turno está marcado para 25 de outubro.



