A Câmara Municipal de Armação dos Búzios realizou, nesta quinta-feira (29), uma audiência pública para discutir a situação ambiental do Rio Una. O encontro reuniu autoridades, especialistas, representantes de órgãos públicos, membros da sociedade civil e moradores diretamente afetados pelos impactos no rio.
Na abertura, o vereador Anderson Chaves (Republicanos) agradeceu a presença dos participantes e destacou que a pauta não é recente. Como referência histórica, foi citada uma publicação de cerca de 40 anos atrás, mencionada em obra de 1995, que já apontava problemas de poluição na região.



Representando o movimento SOS Rio Una, Carolina Masieri afirmou que o tema voltou à pauta diante do agravamento dos indicadores ambientais. Segundo ela, a demanda bioquímica de oxigênio (DBO) se encontra elevada, indicando comprometimento da qualidade da água e redução do oxigênio disponível no ambiente aquático.
O engenheiro civil e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Adacto Ottoni, abordou as medições realizadas pelo Instituto Estadual do Ambiente (Inea) e afirmou que o Rio Una não possui capacidade para receber cargas adicionais de efluentes. Para ele, ainda faltam medições mais precisas para compreender a origem e a dinâmica da poluição. Entre os pontos defendidos, destacou que não deve haver transposição de efluentes para o Rio Una.
O engenheiro e ex-secretário de Meio Ambiente de Búzios, Carlos Muniz também contribuiu com o debate, relacionando o aumento da poluição à produção de vinhoto pela Agrisa, especialmente em períodos de maior atividade industrial e durante a estação chuvosa, entre novembro e março. Ele criticou ainda a ocupação urbana sem planejamento e reforçou que a principal luta ambiental de Búzios deve ser evitar a transposição do Rio Una.
Durante sua fala, o procurador da República Leandro Mitidieri, responsável pela região que abrange de Saquarema a Búzios, destacou a preocupação com comunidades diretamente afetadas, como quilombolas e marisqueiras, impactadas pelo lançamento de água escura no mar.
O procurador apresentou um panorama das ações em andamento envolvendo outros corpos hídricos da região, como a Lagoa de Araruama, afetada por esgoto e extravasamentos de estações de tratamento; a Lagoa de Juturnaíba, associada a despejos de alumínio; e áreas com histórico de lançamento irregular de esgoto. Segundo ele, já existem ações em curso, com atuação do Ministério Público e processos judiciais em andamento.
Mitidieri defendeu que a audiência resulte no aprofundamento das investigações para identificar com precisão a origem dos impactos no Rio Una, incluindo a apuração sobre a possível responsabilidade de diferentes agentes, como a Agrisa ou a concessionária de saneamento. Ele também abordou o conceito de racismo ambiental, ao criticar desigualdades na forma como o esgotamento sanitário é tratado em diferentes territórios.
A audiência contou ainda com o acompanhamento online da Comissão de Meio Ambiente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj).
Representantes da Prolagos também participaram do debate. A gerente institucional da concessionária, Roberta Moraes, classificou a situação como um tema complexo e destacou que a estação de tratamento de esgoto de Jardim Esperança está localizada a cerca de 16 quilômetros do Rio Una, o que influencia a dinâmica do sistema.
Durante a apresentação, foram exibidas imagens atuais que mostram a coloração mais escura do Rio Una, além de registros de ocorrências semelhantes nos anos de 2013, 2017 e 2022. Também foi mencionada uma matéria da Prensa de Babel sobre o despejo de vinhoto, tema que vem sendo acompanhado ao longo dos anos.
A representante destacou ainda que a Prolagos não trabalha com a transposição de efluentes para o Rio Una e apresentou investimentos em andamento, como a aplicação de cerca de R$ 31,3 milhões na implantação de rede separadora de esgoto na região de Maria Joaquina, com o objetivo de ampliar a cobertura e reduzir impactos ambientais.
Representantes da comunidade também se manifestaram. A representantes das marisqueiras da localidade fez um discurso crítico, relatando a falta de assistência adequada às populações impactadas. Segundo ela, mais de 70 pessoas da comunidade dependem diretamente da atividade e vêm sendo afetadas pelos impactos ambientais no Rio Una.
A audiência pública reuniu diferentes perspectivas e reforçou a complexidade do tema, que envolve questões ambientais, sociais, econômicas e de gestão pública, com a expectativa de que os encaminhamentos resultem em medidas concretas para enfrentamento do problema.



