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A epopeia dos cem reais

Entre um dinheiro achado, tentativas de golpe e reviravoltas inesperadas, crônica revela como pequenas escolhas cotidianas expõem caráter, ética e o papel decisivo de pessoas comuns
Nota de cem reais encontrada na Glamour Zero, loja de conveniência de Sandro Peixoto na Praça Santos Dumont, em Búzios, desencadeia uma sequência de versões e expõe, no cotidiano do comércio local, escolhas entre oportunismo e honestidade - Imagem ilustratvia gerada por IA
Nota de cem reais encontrada na Glamour Zero, loja de conveniência de Sandro Peixoto na Praça Santos Dumont, em Búzios, desencadeia uma sequência de versões e expõe, no cotidiano do comércio local, escolhas entre oportunismo e honestidade - Imagem ilustratvia gerada por IA

Tempos atrás eu tinha uma loja de conveniência na Praça Santos Dumont, a Glamour Zero. Um dia, o funcionário me ligou e perguntou se eu não poderia ficar um pouco na loja pois ele teria que fazer um depósito bancário para pagar a mensalidade da faculdade do filho. Óbvio que disse sim, pois um pai que cuida da educação do filho deve ser ajudado por menor que seja a ajuda.

Era quase duas da tarde e eu, de banho tomado me preparava para um cochilo. A cama estava preparada, o ar-condicionado ligado e eu pronto para cair nos braços de Morpheu. Coloquei bermuda, uma camiseta qualquer, desci a escada e fui em direção a loja que ficava 20 metros adiante.
Ao chegar o funcionário estava do lado de fora fumando um cigarro. Ao me ver, como se pedisse desculpas, tirou o dinheiro do depósito do bolso e me mostrou.

-Vou no Bradesco e volto rápido .

Sem nada responder entrei na loja, me posicionei frente ao balcão e assumi a responsabilidade de atender a clentela mas estávamos na baixa temporada e o movimento, fraco. Peguei o celular e comecei a rolar a tela em busca de algo interessante quando uma moça se aproximou do balcão e me mostrou uma nota de cem reais.
Eu tive a impressão que ela estava com nojo da cédula pois a segurava por uma das extremidades usando o polegar e o indicador.

-Achei aqui no chão. Alguém deve ter perdido e pode ser que volte. Você pode guardar?

Eu disse que sim e coloquei o dinheiro em cima do mostruário de cigarros, para não misturar com os da loja. Ela foi saindo devagar e atentei para um detalhe: e se ninguém aparecesse?
A chamei e pedi que ela voltasse mais tarde, pois se não houvesse reclamação, o dinheiro seria dela afinal, ela o encontrou.
Sem nada responder ela concordou com um acenar de cabeça e seguiu seu destino.
Nesse momento passei a observar melhor a pessoa.
Era uma jovem mulher, que parecia ter pouco mais de 30 anos, carregava um capacete de moto numa das mãos e uma bolsa no ombro esquerdo. Devia trabalhar em lojas ou restaurantes do Centro imaginei. Tinha esse perfil.Quando o funcionário voltou do banco, mostrei os cem reais e contei a história.

-Se alguém aparecer entrega, pedi enquanto voltava pra casa.

Um detalhe: até aquele momento, só a moça, eu e ele sabíamos do achado.

Cheguei enfim em casa e fui tentar dormir um pouco pois as seis da tarde eu iria trabalhar. Era folga do funcionário da noite. Mal prego os olhos e meu celular toca. Era o funcionário de novo.
Desta vez ele queria apenas falar e começou se desculpando. Disse que não sabia bem como começar e que estava até constrangido em me ligar.
No entanto foi direto ao assunto e falou que quando chegou ao caixa eletrônico para fazer o depósito, percebeu que faltava cem reais e provavelmente o dinheiro achado era dele

-Você lembra que contei a grana na tua frente? Acho que quando fui colocar no bolso de trás da bermuda uma nota caiu.

Eu lembrava muito bem da cena e sim, ele estava falando a verdade. O autorizei a pegar a grana e ele disse que como não tinha certeza se realmente lhe pertencia, iria esperar um pouco até alguém reclamar ou não. Achei muito correta a atitude e concordei.Alguns minutos depois o celular volta a tocar e era o funcionário novamente.

-Me fudi!, foram suas primeiras palavras.

-Chegou um cara aqui dizendo que perdeu cem reais. É cliente nosso, dirige buggy. Aliás o carro está embaixo de tua janela e ele está acabando de sair.

Levantei rápido da cama, abri um lado da janela e apenas ouvi o barulho típico dos motores de fusca comumente usados nos Buggys se afastando.
Ainda com o celular ligado, lamentei o azar do funcionário e voltei a ( tentar) descansar.
Mas não pude. Meia hora depois ele ligou de novo contando uma história que só por ela, resolvi escrever esse texto.

-Você não vai acreditar: o cara do Buggy voltou e me devolveu o dinheiro. Disse que na verdade havia perdido 50 reais mas que ao ouvir a história, ele apresentou como o dono. Só que ao chegar em casa contou a verdade a esposa e ela se revoltou e o mandou me devolver.

A tentativa de golpe só se deu porque o funcionário de maneira ingênua, perguntou a alguns clientes se algum deles havia perdido cem reais. Certamente o cara do Buggy ouviu. A loja ficava numa esquina e era possível escutar sem ser visto.

Mas a tentativa do golpe só deu errado porque entrou uma mulher decente no caso e aqui vem a parte boa dessa história. Ela só teve um final feliz porque começou e acabou com mulheres decentes.
Dito isso, finalizo com um pedido: vamos amar e respeitar mais as mulheres.

Em tempo: a moça que achou o dinheiro passou depois na loja. Contei a história de maneira sintetizada e ela sorriu. E sempre que eu a encontrava, perguntava se não havia achado dinheiro outras vezes. E ela apenas balançava a cabeça negativamente.

Sandro Peixoto

Sandro Peixoto, jornalista, cronista de Búzios, foi repórter em O Perú Molhado

Octavio Raja gabaglia

Octavio Raja Gabaglia, o carismático Otavinho, é um nome que ressoa nas praias, encostas e telhados de Búzios. Esse arquiteto genial, conhecido pelo bom papo e pela mente afiada, conseguiu, com engenhosidade, domar os ventos, convidar a luz do sol para habitar as casas com gentileza, além de convencer a paisagem exuberante a fazer parte de sua obra.

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