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Tito Rosemberg, jornalista, lenda do surf, e profeta que avisou que Búzios seguia um caminho sem volta

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Por Victor Viana

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Tito no alto de seus 70 anos segue sendo homenageado por sua história. Na foto de  Luiz Frota  ele posa com a primeira prancha que fabricou e a camiseta da coleção que homenageia ícones do surf carioca, e que ele é um dos homenageados.

Tito Rosemberg, nascido em setembro de 1946, natural do Rio de Janeiro, passou quase toda a vida viajando pelos mais diversos países dos cinco continentes. É um peregrino que não busca lugares sagrados oficiais, sua religião talvez seja o surf, sua espiritualidade é centrada na contemplação da natureza, sua pratica se pautou por tentar manter belos os lugares por onde pousou por um tempo, antes de bater asas e voar de novo. Jornalista e viajante teve o privilégio de percorrer caminhos e rotas quase nada exploradas pelo homem. Ícone do surf nacional (homenageado diversas vezes por seguidores desta filosofia misturada ao esporte), Tito conquistou respeito e admiração pela alma jovem, pela vontade do desconhecido, pelo comprometimento demonstrado em tudo o que faz e pelo belíssimo trabalho desempenhado durante décadas. Morou em Búzios entre os anos 80 e 90 – os melhores anos de Búzios para muitos, veio como jornalista, se encantou como surfista e passou a residir na cidade, acabou se envolvendo por completo como cidadão e ativista.  Nessa entrevista tentei, tentei mesmo, em poucas linhas (resumir 70 anos de vida é um desafio), através de perguntas, trazer a tona sua memoria pra Cidade em um momento que considero crucial para o que vamos fazer dela daqui em diante.

Prensa de Babel: Em 1995 você disse que Búzios sofreria uma descaracterização muito grande se a especulação imobiliária não fosse contida. As fotomontagens que você fez há quase 30 anos eram muito semelhantes ao que vemos hoje em 2017. Naquela época muitos não acreditaram em você e até defendiam os grileiros que acabaram com o verde de nossas praias e topos de morro. Você estava certo, se sente como com isso?

Tito Rosemberg: Não sou nem nunca fui profeta, sou apenas um jornalista preocupado em evitar a degradação de qualquer comunidade onde eu estivesse vivendo. Queria e continuo querendo evitar a degradação da qualidade de vida, a minha e a dos outros habitantes do meu entorno. Desde sempre pesquisava, estudava, tentava entender porque cidades belas tornavam-se guetos de cimento, aglomerados de pombais, alguns feios e outros bonitos, mas todos tomando o espaço público, e acabava descobrindo que o capital, os empreendedores, os especuladores e os gananciosos em geral, se não forem contidos, venderão até a mãe para fazer um troco a mais. É do ser humano, ocupar, dominar, conquistar. Para evitar o caos, para controlar a urbanização, foram inventadas há milhares de anos, as leis, o Estado, e a administração pública.  Logo inventaram também a corrupção, para comprar os administradores eleitos e os técnicos das prefeituras e fazer as leis a favor da especulaçãoimobiliária.

Como morei muitos anos fora do Brasil, pude ver como sociedades mais evoluídas lidaram com estes problemas e as soluções que foram implementadas e deram certo. Tentei trazer o que vi lá fora para Búzios, mas corruptos, corruptores e os apáticos foram mais fortes e tive que me resignar e deixar Búzios para preservar minha vida, tal a quantidade de ameaças que recebi. Na época em que morei em Búzios, o ventoque mais soprava era o faroeste, e quem não se cuidava… Não sei se mudou…

Não me dá nenhum prazer, mas tristeza, saber que eu estava certo, saber que Búzios tomou o pior caminho, perdeu seu carisma, um RollsRoyce que preferiu virar fusquinha.

Prensa de Babel: Quando conheceu Búzios? Uma vez li um post seu no Facebookem que narrava a primeira vez que surfou em Geribá: era uma mata.

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A foto cabeludo em 1973 na praia do Recreio dos Bandeirantes, Rio de Janeiro.

Tito Rosemberg: Conheci Búzios em 1964, quando era repórter da revista Manchete e estava atrás de entrevistar a Brigitte Bardot. Vinha do Rio e ficava entocado nas moitas esperando ver se ela saía para passear na Praia dos Ossos e eu conseguir minha entrevista. Depois de ser picado por trocentos mosquitos, vinha outro repórter me substituir. Não consegui vê-la, masme apaixonei pela aldeia.

Em 1966 comprei um jipe e vim com meu compadre Maraca, outro surfista das antigas, ver se descobria ondas na Região dos Lagos. Saquarema já era conhecida e vim pela areia da praia, à beira mar, pesquisando a Massambaba, Arraial do Cabo, Foguete, Cabo Frio, Peró e dei de cara com Geribá, escondida atrás da vegetação cerrada, atrás da pista de aviões do pessoal rico que já tinha descoberto as belezas de Búzios. Foi amor à primeira vista. A única casa da praia além de algumas modestas e quase invisível choupanas de pescadores, era de um dos donos do Bradesco, e ficava no canto esquerdo de Geribá. O resto era mata fechada. Acampamos lá e surfamos belas ondas completamente sós.

Prensa de Babel: Você é uma lenda do surf, era bom surfar em Búzios?

Tito Rosemberg: A onda de Geribá era maravilhosa. Digo “era” porque apesar de hoje ainda terem o mesmo formato, altura e velocidade, agora está tão lotada de surfistas que se tornou impossível para um veterano entrar dentro da água, competindo com os meninos fortes, ágeis e sem respeito pelos mais velhos. No início era muito agradável surfar entre amigos, sem estresse, sem violência nem baixaria. Quando o surf se popularizou em Búzios, na década de 90, parei de surfar. Os surfistas tinham uma ética de respeito e companheirismo, mas a garotada atual é grossa e nunca nem soube que havia regras para o surf.

Prensa de Babel: Búzios era tão magnifica quanto gostam de contar? – eu vim morar aqui em 2005.

Tito Rosemberg: Búzios era uma jóia rara! Um privilégio da natureza! Ainda hoje em fotos aéreas dá para perceber como há beleza ainda para ser observada. Pena que a população original desistiu de preservar essas belezas.

Prensa de Babel: Você é jornalista, fundou o saudoso Buziano… competiu com Perú Molhado por anos. O que te motivou a isso? A cidade perdeu com o fim do Perú?

Tito Rosemberg: Acho que Búzios ganhou com o fim do Perú dos últimos tempos. No seu início era um jornal irreverente e divertido, mas com o passar dos tempos, seu “descomprometimento” com a verdade, com a realidade, naquele estilo anarquista de fazer galhofa de tudo, mas, para poder pagar as contas no fim do mês, acabou por ser o porta voz da elite encastelada em suas mansões e empresários com interesses escusos.

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Vestindo a camisa da sua campanha pra vereador em Búzios, em frente a redação do jornal O Buziano. 1997

Quando ganhei um dinheiro da herança de meu pai, resolvi aplicar num jornal que prestasse serviço público, como porta voz da comunidade, defendendo os interesses difusos, a proteção da natureza. Assim nasceu O Buziano, cheio de entusiasmo e garra, mas que após três anos de luta e criar muitos inimigos no Poder, eu não tive mais gás para manter. Vendi para um aventureiro, que alias me deu um belo golpe e nunca me pagou o que devia. E pior, aliou-se aos políticos mais venais em troca de vantagens financeiras. Fiquei muito triste por anos…

Prensa de Babel: Você denunciou diversos problemas ambientais de Búzios, que estavam apenas no começo. Búzios tem salvação ainda?

Tito Rosemberg: O que foi não volta mais. Uma bela árvore frondosa, quandocortada, morre. Só plantando outra e esperando muitos anos para ver se fica igual. Búzios cresceu, escolheu mal seu destino, e hoje perdeu a oportunidade de tornar-se uma comunidade padrão em urbanismo, beleza, eficiência e cidadania… É triste, mas não tem volta. Podem-se mitigar algumas de suas deficiências, mas aquela bela e poética Búzios dos anos 70 e 80 já é coisa de museu, fotografias amareladas, sonhos de quem envelhece com boas memórias por ter estado no lugar certo na época certa.

Prensa de Babel: Você chegou a pensar em vir como candidato a prefeito de Búzios…

Tito Rosemberg: Adoro política, mas sei que meu pensamento é muito diferente da população de Búzios ou mesmo de Pipa. Eu seria odiado aí ou aqui,pelos que só pensam nos seus umbigos, seus lucros imediatos, e pouco se importam com a natureza ou as futuras gerações. Além do mais acho que, se conseguisse ser eleito, seria morto no primeiro ano, e se não o fosse, sofreria impeachment por uma Câmara de Vereadores a serviço dos interesses de especuladores. Fui candidato a vereador, pelo Partido Verde, numa época em que era um partido sério. Pessoas que iam votar em mim diziam: “Eu queria votar em você, mas fulaninho da farmácia conseguiu uma operação prá minha sogra. Queria votar em você, mas minha mulher ganhou uma dentadura do candidato tal. Fulano me deu 50 sacos de cimento, sicrano pagou as telhas da casa do meu filho”. Hoje agradeço não ter sido eleito, talvez tivesse sido morto…

Prensa de Babel: Tem vontade de voltar a Búzios, ao menos pra visitar?

Tito Rosemberg: Voltei algumas poucas vezes para matar as saudades, mas me lembrava sempre das praias paradisíacas que não existem mais, dos trambiques que levei aí, dos amigos que não pagaram empréstimos, conhecidos aliados ao que de pior tinha na política local, a ocupação predatória, a sujeira, a favelização no entorno e em alguns pontos, nas ruas o mesmo cheiro de esgoto de décadas atrás… e desisti de voltar. Tenho ainda amigos queridos na cidade; aqueles que conseguiram criar uma carapaça para resistir à feiúra que cresce, resistir à política que cheira mal, alguns com preguiça de sair em busca de novos horizontes…

Para manter estas amizades, hoje me servem as redes sociais, pois através destes buzianos queridos continuo acompanhando os eventos da cidade.

Prensa de Babel: O que te levou pra Pipa? É uma Búzios de mais ou menos 20 anos atrás?

Tito Rosemberg: Exatamente! Pipa ainda resiste, mesmo mal e parcamente, ao mesmo assédio da especulação imobiliária que, em minha opinião, detonou Búzios. Hoje Búzios é superurbana, e da última vez que estive aí fiquei impressionado com a quantidade de vans fazendo transporte público, movimentando multidões. Aqui no Rio Grande do Norte, quando cheguei em 2004, encontrei praias super preservadas, lindas, tranquilas, limpas, mas, infelizmente, nestes 12 anos que estou aqui, houve uma enorme decadência na qualidade das praias, invadidas por comércios ilegais em conchavo com diversos administradores corruptos. A história se repete, mas aqui eu consegui me isolar num canto e fico longe do burburinho, e sobrevivo, mesmo sabendo que logo Pipa seguirá pelo triste caminho de Búzios e vai virar uma cidade feia, mal administrada e principalmente insustentável. Já está quase assim.

Prensa de Babel: E o que você tá fazendo da vida hoje aí em Pipa?

Tito Rosemberg: Encontro com pessoas queridas. Escrevo e fotografo para as poucas publicações que ainda se lembram de mim. Vivo tranquilo, uma vida modesta, mas rica em beleza natural e paisagem estonteante. Viajo para bem longe, sempre que posso. De carro ou de avião. Descanso na rede, estudo e leio sobre diversos assuntos, observo o horizonte com dedicação profunda, namoro também. Tenho muito amor na minha vida e só por isto já posso me considerar feliz!

Prensa de Babel: Você é um viajante, vai sair de Pipa um dia?

Tito Rosemberg: Com setenta anos na bagagem e cem países no passaporte, acho que estou tranquilo. Não preciso sair daqui para morar em nenhum outro lugar, pois estou satisfeito. Viajar sim, sempre e até o último respiro. Pipa está se deteriorando a olhos vistos, mas onde me escondo permaneço tranquilo. Não tenho mais o sonho de ver os humanos menos materialistas e/ou imediatistas. Viver no meu pequeno paraíso natural encontrado já é um alento. Fiz minha parte!

Prensa de Babel: Pode me responder o que pensa de algumas pessoas que você com certeza teve de conviver aqui em Búzios quando morou na cidade? Vou dizer os que me vem a cabeça rápido, sei que vou deixar bons nomes pra trás.

Tito Rosemberg: Claro, manda aí.

Prensa de Babel: Mirinho Braga.

Tito Rosemberg: Saudades daquele rapaz jovem nativo bonito, digno, bem intencionado e idealista que conheci.

Prensa de Babel: Octavio Raja Gabaglia (Otavinho).

Tito Rosemberg: Segue olhando para seus interesses. Consegue ter um ego maior que o meu (risadas).

Prensa de Babel: Marcelo Lartigue.

Tito Rosemberg: Uma pessoa polêmica, que acumulou tantos amigos quanto inimigos. O tempo saberá analisar sua atuação na comunidade.

Prensa de Babel: Gabriel Gialuisi.

Tito Rosemberg: Um homem de bem, sonhador, idealista, guerreiro do Bem, que deu o melhor de si para evitar o caos na cidade.

Prensa de Babel: Família Modiano.

Tito Rosemberg: Chegaram cheios de grana e mudaram Búzios sem saber se seus projetos interessavam ou não a comunidade. O aeroporto foi bom para a cidade. O resto a História julgará melhor que eu.

Prensa de Babel: Isac Tiliinger.

Tito Rosemberg: Um sonhador! Fez o que pode. Acertou aqui, errou ali. Mas quem de nós não fez o mesmo?

Prensa de Babel: Clemente Magalhães.

Tito Rosemberg: Um “boa praça” que adora morar num paraíso, mas não consegue ficar sem fazer um condomínio ao lado.

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