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Cidades

O nosso Carnaval meio-americano

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Nota da redação: O artigo seguinte foi recebido sábado, dia 25, de manhã, e devia ter sido postado sem demora. Mas Carnaval é Carnaval. O descobrimos só agora, na Quarta-feira de Cinzas, na hora da apuração, momentos antes da Portela ser campeã após 25 anos de Jejum!  Pedimos desculpas a todos os leitores do Mark e ao próprio. 

 

Por Mark Zussman

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Ilustração de www.futebolearte-paciello.blogspot.com.br/

 

Diz-se da presença estrangeira do Sambódromo que os japoneses são os mais disciplinados. Eles têm curiosidade antropológica. Vêm de uma grande distância. Pagam caro. Não querem perder nada. Portanto, chegam cedo e ficam até a última escola chegar à Praça de Apoteose. Os americanos acham que será um espetáculo imperdível. Ouviram dizer. Mas chegam atrasados. Tagarelam entre si – sobre o calor, sobre as suas crianças, sobre a miséria da American Airlines e dos aeroportos. Começam a bocejar. Saem assim que a quarta escola da noite entra na pista. Voltam ao hotel. Tomam uma caipirinha no bar. Sobem aos seus quartos e assistem CNN por 20 minutos antes de caírem no sono.

 

E Barbara e eu? Eu nasci no estado de Massachusetts. Barbara na Flórida. Somos . . . americanos.

 

Vamos ver se eu consegui esclarecer uma coisa que, até agora, não esclareci nem para mim.

 

Entre os vários binários que se apresentam em nossas vidas – eu falo desses binários que podem ser confundidos um com o outro por uma pessoa não prestando muita atenção – tem banqueiros e bancários. O banqueiro é privilegiado pelo Estado (e, pelo Estado brasileiro, super-privilegiado), é liberado para cobrar juros altos (e, no Brasil, super-altos) e todo tipo de taxa, ganha toneladas de dinheiro, compra uma ilha na baía de Angra e um apartamento em Miami ou Nova York. E mais. O bancário trabalha por uma ninharia e entra em greve uma ou duas vezes ao ano e assim incorre na ira do correntista comum que só quer pagar a conta do celular antes de ser castigado com mais juros pela Vivo.

 

Tem estatísticas e estatísticos. As estatísticas são essas massas de números das quais você vai fazer parte se persistir em dirigir com imprudência. Os estatísticos são simplesmente as pessoas que analisam essas massas de números.

 

Tem brasileiros e brasilianistas. Um brasileiro é uma pessoa que nasce no Brasil, aprende, no máximo, a metade das letras do hino nacional, parcela as suas contas em até dez vezes, queixa-se do bancário (mas não tanto do banqueiro), persiste em dirigir com imprudência, e que continua até o seu último dia a ter algumas dúvidas a respeito do uso da crase. Um brasilianista é um estrangeiro (ou seja, um não brasileiro), tipicamente um americano ou um inglês, e, no caso do americano, um que mora provavelmente em Providence, Rhode Island, ocupa uma cadeira na área de Estudos brasileiros na Universidade Brown, e escreve livros com títulos como Politics in Brazil 1930–1964: An Experiment in Democracy. Não estou brincando. A Universidade Brown, em Providence, Rhode Island, não sei por quê, estabeleceu-se como provavelmente o mais conceituado centro de estudos brasileiros nos EUA, e Politics in Brazil 1930–1964: An Experiment in Democracy é o título de um dos livros pelo grande brasilianista dessa universidade, morto ano passado, Thomas Skidmore.

 

Eu nunca queria ser brasilianista. Não somente isso mas, na hora em que eu finalmente pus os pés no Brasil, já foi tarde demais. Para ser brasilianista, se tem que começar pelo menos na pós-graduação. E eu tinha uma ideia mais genial. A partir da hora em que descobri o Brasil, queria ser brasileiro. Queria ser brasileiro com o jogo de cintura brasileiro, com a ginga brasileira, com a extroversão brasileira, com a cordialidade brasileira – e, apesar de não ser brasilianista, li Sérgio Buarque de Holanda sobre a cordialidade brasileira com atenção o suficiente para entender que essa cordialidade tem o seu lado bem negativo assim como o seu lado sedutor. Mas, de qualquer forma, parecia-me muito mais divertido morar no Brasil e me transformar em brasileiro do que morar em Providence, Rhode Island (consulte o mapa, se quiser) e me transformar em brasilianista.

 

Só uma coisa. Mudar de endereço é diferente de mudar de identidade. E, sobre isso, eu gostaria de conversar um dia com uma pessoa que se submeteu a uma cirurgia para mudar de sexo. Mas, mesmo sem conversar, eu acho que a situação dela deve ser bem diversa. Uma pessoa que muda de sexo tinha a nova identidade antes da mudança de endereço. Sem dúvida, a mudança de sexo é mais dolorosa e requer mais coragem moral do que uma mudança de endereço simples. Mas mais uma coisa parece-me certo. Um José brasileiro que se torna Maria muda de sexo mais não de identidade nacional ou regional ou local. José era brasileiro. E paulista ou carioca ou belo-horizontino. Maria é brasileira. E paulista ou carioca ou belo-horizontina. Se José tinha samba no pé, Maria tem samba no pé. Mudar-se meramente de endereço não dói e não requer muita coragem, mas só dificilmente transforma uma personalidade ou uma identidade nacional.

 

Barbara e eu moramos no Brasil faz 14 anos. Mas eu me sinto ainda como a criança com o nariz encostado na vitrine da loja de doces. Uma voz interior diz: Mas qual o seu problema, cara, você mora na loja de doces. Sim, mas mesmo morando na loja de doces, tem mais uma barreira. Tem, aparentemente, uma loja de doces dentro da loja de doces, e a porta de entrada dessa segunda loja de doces é mais intransitável do que a primeira.

 

Juro, eu gostaria de escrever uma peça curta. Era a minha intenção hoje. Mas não consigo.

 

Existe um momento na vida de um brasileiro que eu presenciei dezenas de vezes. Você está num restaurante pé sujo ao lado da estrada no meio do nada – digamos, no interior de Goiás. Mas tem alguns músicos na sala. Tocando samba. Ou algo semelhante. Um jovem casado carrega o seu pirralho de dois ou três anos para ouvir os músicos de perto. O pai segura a criança, que ainda não anda, pelos pulsos – no ar – mas de uma maneira tal que as pernas da criança tocam no chão. De repente, as pernas da criança começam a movimentar-se no ritmo da música, e a partir desse momento a criança será inexoravelmente brasileira na mesma medida em que o americano ou o francês ou o chinês, ouvindo outros ritmos, será inexoravelmente americano o francês ou chinês.

 

Eu acho um americano dançando samba meio-ridículo. Um japonês também. Mas, quero ser claro, no caso do japonês, estou falando só do turista e não da pessoa de mera ascendência japonesa que nasceu no Brasil.

 

Nos primeiros anos em que Barbara e eu morávamos no Brasil, em Búzios, frequentávamos esses clubes na Lapa, no centro do Rio. Achávamos o Rio Scenarium um pouco turístico demais. Mas gostávamos do Carioca da Gema, do Mangue Seco, do Rio Antigo (que agora tem outro nome?) e de vários outros – e, em particular, da Casa da Mãe Joana no segundo andar de um prédio na Rua Gomes Freire. Lugar totalmente sem pretensões. Talvez as pessoas que se reuniam lá fossem altos executivos da Vale, da Petrobras, da CSN, e da Globo. Mas eu duvido e, na minha fantasia, eram carteiros, mecânicos, trabalhadores dos transportes, donas de casa – todos engomadinhos, todos transformados em bambas para o seu sábado à noite fora.

 

Barbara queria dançar. Eu, de jeito nenhum. Eu simplesmente não tenho samba no pé (nos ouvidos, sim, mas no pé, não), e não queria me destacar como idiota e, portanto, ficávamos sentados numa mesa a uma distância da pista de dança bebericando as nossas caipirinhas ou cervejas. Mas a Barbara disse finalmente que, se fossemos continuar a frequentar essa sala, deveríamos – eu inclusive – aprender alguns passos, e esse pronunciamento coincidiu por acaso com um convite por nossa amiga Lilian Ficarelli para participarmos nas aulas de dança que ela estava organizando na sua pousada, Martin Pescador, em Manguinhos.

 

Algumas breves observações. O grande Marcio Valente, que também se apresenta no Pátio Havana nas quintas-feiras, era o professor, era na verdade um ótimo professor, e a Lilian e a Dra. Tetê se tornaram grandes dançarinas em pouco tempo. A Barbara fez grandes progressos. Eu não. Mas havia consolação. Não vou dar nomes para não constrangê-los, mas dois brasileiros, vamos dizer M e G, eram tão desajeitados como eu. Aha! Há brasileiros que também não têm e nunca terão samba no pé!

 

Por vários motivos Barbara e eu desistimos das aulas. Faz muitos anos que não voltamos à Casa da Mãe Joana.

 

Na década de ‘90, quando Barbara e eu ainda morávamos em Nova York mas vínhamos ao Brasil, com uma freqüência exagerada, como jornalistas (veja o meu artigo “Como é que a gente encalhou aqui, em Búzios” de 11/2), assistimos os desfiles do Grupo Especial algumas vezes, com crachás de jornalista, na pista mesma do Sambódromo. Éramos e ainda somos Mangueira, e uma vez ao lado da área do recuo da bateria quase tocamos em nosso grande herói, Jamelão. Eu acho que, uma vez, nós ficamos no Sambódromo até duas horas da madrugada mas, como quaisquer bons americanos, saímos horas e horas antes do final, voltamos ao hotel, tomamos uma caipirinha no bar, etc.

 

Aqui eu poderia entrar numa discussão sobre a evolução do Carnaval carioca – de uma festa com viés para a participação para uma festa com características cada vez mais pronunciadas de show para espectadores, sobre tudo à altura do Grupo Especial no Sambódromo. As contradições, a meu ver, são insolúveis. Os desfiles no Sambódromo começam, obviamente, às 21 horas e continuam até a alvorada porque uma parte da população carioca sente a necessidade de manifestar-se de uma maneira extrovertida, nesta ocasião anual, e não para agradar um público, e com certeza não para agradar um público de turistas norte-americanos e japoneses. Em contrapartida, os estrangeiros acham que estão indo a um show. É assim que os ingressos são vendidos. “O maior espetáculo do mundo.” E, na experiência dos turistas, um show dura por duas horas ou, no máximo, três. Os turistas acham que o dinheiro que pagaram valeu a pena, mas, mesmo assim, ficam perplexos, aborrecidos, insatisfeitos. É isso – uma coisa tão extravagante mas também tão chata – que é o maior espetáculo do mundo? Não é de admirar que o comportamento dos turistas fica frequentemente tão risível. Mas vamos deixar para lá.

 

Vamos, este fim de semana, Barbara e eu, cair na folia aqui em Búzios? Não. O Carnaval é seu, gente. Não é nosso. Ao invés de cairmos na folia, vamos entrar com cautela e vamos bebericar devagarzinho – e pouco. Gostaríamos de ficar acordados na madrugada da segunda noite do Sambódromo para ver o desfile da Mangueira na televisão – e ambas as noites para ver várias outras escolas – mas é pouco provável que a gente dure até a nossa querida Mangueira sair. Ano passado, Mangueira foi campeã. Este ano, vai sair quando o céu já estiver clareando.

 

Bom Carnaval, meus vizinhos e amigos! Aproveitem!

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