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Cidades

O Juízo Final (interino) de Donald Trump

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Por Mark Zussman

externalA nossa experiência aqui no Brasil nos leva a pensar que, no dia do Juízo Final, haverá – além, obviamente, de anjos e trombetas – foro privilegiado para milhares de próceres engravatados, haverá pedidos de habeas corpus para caramba, sabemos que muitos réus voltarão às suas coberturas com nenhuma pena pior do que a obrigação de usar tornozeleiras por dois ou três milênios. O centésimo dia do mandato do Pato Donald nos EUA, uma semana atrás, nos leva a pensar que o Juízo Final será uma produção multimídia, cuidadosamente planejada por meses, profissionalmente executada, tanto show e festa quanto solenidade, será interrompido repetidas vezes pela garota do tempo e por mensagens comerciais e, lá pelas duas ou três horas da madrugada, saberemos que não era um Juízo Final literalmente falando, era só o primeiro de uma longa série de juízos de todos os tipos – essa dramática e provocativa palavra “final” foi usada, finalmente, só para aquecer o IBOPE, não sabia?

 

Na manhã da sexta-feira, dia 28 de abril, ou seja, no dia 99 do mandato do agora não tão novo presidente dos EUA, eu ouvi Chico Pinheiro, no Bom Dia Brasil, na Globo, começar a versar sobre os primeiros cem anos de Trump. “Cem ah-,” ele encetou claramente. Ele estava pensando nos cem anos de solidão da família Buendía de Gabriel García Márquez? Ele estava com tanta pressa para chegar ao seu emblemático “Graças a Deus é sexta-feira, é vida que segue” que não estava pensando em nada? Prefiro pensar que, como todos nós, ele estava tão cansado das maluquices do primeiro mandatário norte-americano que os cem dias já pareciam-lhe cem anos. Mas ele se apanhou a si próprio, corrigiu o seu percurso. Depois dessa primeira sílaba errada, falou “cem dias” corretamente e a vida seguiu – ou seguiu mais ou menos.

 

O meu próprio último fim de semana, ou seja, os dias 100 e 101 e 102 (o centésimo segundo sendo o Dia Internacional do Trabalho) do mandato de Trump, foi estragado pela necessidade que sentia, se não de assistir todas as avaliações desses 100 dias na televisão americana (via YouTube), pelo menos de ler as avaliações nos principais jornais e nos principais Web sites e blogs do meu pobre país de origem e alhures. Li um artigo chamado “Cem dias de desassossego” na página do Project Syndicate. Li “100 dias de fracassos” no The Guardian. Li “Os gloriosos 100 primeiros dia do Presidente Trump: Mais para assustadores ou mais para patéticos?” no Salon. Li “Os 100 dias de fúria e rapacidade de Trump”, por Ralph Nader, o grande defensor do consumidor, no Dandelion Salad.  (Em 1965, Nader, agora com 83 anos, publicou o livro Unsafe at Any Speed, ou Inseguro a Qualquer Velocidade, que incentivou a indústria automotiva a adotar os previamente raros cintos de segurança, entre outras proteções corporais. Em inglês, o título dele falou da irresistivelmente aliterativa “rage and rapacity”, mas “raiva”, em português, não captura “rage” tanto como “fúria”.) Li “O que os 100 primeiros dias de Trump vêem significando para a tecnologia, a ciência e o futuro” – nada muito animador, aparentemente – no The Verge. Li “Os próximos 100 dias de Trump não serão nada melhores” na revista Forbes. Completei com um vídeo, misericordiosamente breve, chamado “A Administração Trump: Cem Dias em Dois Minutos” na versão on-line do The New York Times.

Confesso que, apesar da minha ainda viva intenção de entender a mente do adversário, não li muita coisa na imprensa pró-Trump. Sim, essa imprensa existe. Breitbart. Drudge. Hannity. Mas tudo lá é tão mal ponderado e tão mal escrito que preferiria ir para a cama com um manual para a manutenção de motores a jato da General Electric. Ninguém esperaria uma prosa profundamente analítica e de superfície resplandecente a respeita, digamos, da astrologia ou a respeito da proposição que o mundo foi criado, literalmente, em sete dias ou que o mundo é plano. Há proposições que simplesmente não atraem as melhores mentes. E, no caso de Trump – Trump como programa e como execução de programa – é mais ou menos a mesma coisa.

 

Mas, se eu evitasse a imprensa pró-Trump nesse finde do centésimo dia, não tinha a mesma sorte com o demagogo mesmo. O próprio Trump continuava a assombrar as manchetes, tanto na imprensa hostil a ele quanto na imprensa adulatória, e foi impossível não observar que o próprio Trump, a respeito dos seus cem dias, jogava um jogo capciosamente duplo. (Em inglês, eu diria que ele hedged like crazy – ou seja, a fim de minimizar o seu risco, ele colocou algumas fichas no vermelho e uma quantidade igual no preto.)

 

Num comício em Harrisburg, Pennsylvania – porque ele já começou a sua campanha para reeleição em 2020 e, de qualquer forma, prefere os aplausos dos seus eleitores ao trabalho de entender os detalhes os mais mínimos da política pública – ele atacou mais uma vez a mídia geralmente conscienciosa – CNN e MSNBC na televisão (fornecedores do que ele chama de “fake news”, “notícias falsas”) e “the failing”  – fraco? enfraquecido? – New York Times. (Acrescentou que o prédio que o The Times ocupa por uma década é “muito feio” e que a localização do prédio é “crummy” – desprezível? mambembe?). Tinha tuitado no mesmo dia, antes do comício: “Mainstream (FAKE) media refuses to state our long list of achievements, including 28 legislative signings, strong borders & great optimism!” Uau! Vamos tentar traduzir. “A mídia dominante (MENTIROSA) se recusa a afirmar a nossa longa lista de conquistas, incluindo 28 assinaturas legislativas, fronteiras fortes & grande otimismo.” Andava dizendo que ele tinha realizado mais nos seus 100 primeiros dias do que talvez qualquer outro presidente na história do país. Mas, como eu disse, ele jogou um jogou duplo. Ele hedged. E, por via das dúvidas, caso alguém criticasse o seu desempenho, ele também andava dizendo que o parâmetro de cem dias – um parâmetro informal nos EUA desde a posse de Franklin Roosevelt em 1933 – era totalmente artificial e “ridículo”. Tinha tuitado no dia 21 abril, enquanto o fatídico centésimo dia se aproximasse, “No matter how much I accomplish during the ridiculous standard of the first 100 days, & it has been a lot (including S.C.), media will kill!” “Não importa o quanto eu realizo durante o padrão ridículo dos primeiros 100 dias, & tem sido muito (incluindo S.C.), a mídia matará!” A propósito, esse S.C. é a Corte Suprema. O primeiro indicado dele, o conservador Neil Gorsuch, já foi aprovado. Cito em inglês primeiro, porque o inglês dele raramente segue as regras convencionais e muitas vezes é um quebra-cabeça.

 

A meu ver, a única grande conquista dele – em nada trivial, considerando a sua combatividade e o fato que ele não tem o hábito de pensar antes de falar – é que, no jogo de alto risco em que ele entrou com o igualmente irracional e imprevisível Kim Jong-un, para saber quem é o macho e quem o covarde, ele não causou uma troca de ogivas nucleares. (Eu gosto de Los Angeles, não tenho nada contra Pyongyang.) Não causar uma guerra parece talvez um métrico irrisório para um presidente dos EUA – como, por exemplo, elogiar uma estrela de ópera por sua interpretação enérgica do “Parabéns pra você” numa festa de aniversário infantil. Mas presidentes muito menos impulsivos que Trump – George W. Bush, por exemplo – entraram imprudentemente em guerras, e estamos passando por dias sombrios lá no Hemisfério Norte, não somente nos EUA mas também na França, na Holanda, no Reino Unido. Temos que saborear as nossas pequenas vitórias onde as encontramos.

 

Para os americanos sãos e racionais, o caos e os fracassos desses 100 primeiros dias de Trump são, de qualquer forma, muito mais animadores do que os triunfos dele. Antes de assumir, Trump disseminou o que ele chamava de um contrato com o povo americano e também chamou de “um plano de ação de 100 dias para tornar a América grande outra vez”. Houve 28 metas – para, nas palavras dele, “restaurar prosperidade à nossa economia, segurança às nossas comunidades, e honestidade ao nosso governo.” Basicamente, a intenção era desmantelar os avanços dos oito anos de Obama em áreas como o bem-estar social, notavelmente a expansão da disponibilidade de cuidados médicos, e proteção ao meio ambiente.

 

Até agora, as cortes vêem, pelo menos, obstruindo as mais hediondas das medidas que Trump bolou para cercear a liberdade de movimento – ou, para citar essa clausula pétrea da Constituição brasileira, de ir e vir – através das fronteiras norte-americanas. A idéia dele de barrar a entrada por cidadãos de sete países predominantemente muçulmanos simplesmente não está colando. Mas, apesar da resistência das cortes, Trump já causou muitos estragos. Ao longo das última décadas, as  universidades americanas estavam de braços abertos para estudantes estrangeiros; o intercâmbio entre americanos e estrangeiros nas universidades americanas servia para disseminar as melhores práticas da ciência e da tecnologia americana em países longínquos – também idéias democráticas e liberais no melhor sentido. Agora, pessoas mundo afora que queriam estudar numa universidade anglófona estão pensando cada vez mais no Canadá, na Austrália e na Nova Zelândia. O turismo também está sofrendo. E não é somente o medo de inconveniências na imigração, na chegada. Disneyworld – eu não recomendo. Trumpworld é pior. Num mundo tão grande quanto ao nosso, há destinos à beça. Quem vai querer visitar um país que tão descaradamente hostiliza estrangeiros?

 

E aí no centésimo quinto dia, última quinta-feira, fora do simbolicamente importante período de cem dias (mas quem estava contando?), ele marcou, finalmente, uma grande pseudo-vitória. A Câmara dos Representatives – os deputados de lá – votaram precipitadamente, sem audiências, sem muita reflexão, para reformar a legislação da era Obama que possibilitou a compra de seguros médicos por milhões de americanos que, antes, não tinham acesso a médicos fora das salas de emergência e às vezes receberam contas astronômicas, que nunca conseguiriam pagar, por intervenções mínimas. Confesso que um dos muitos motivos pelos quais Barbara e eu não pretendemos voltar para os EUA é que gostamos da meia dúzia de médicos que conhecemos aqui em Búzios e em Cabo Frio; não somos jovens o suficiente para enfrentar, de novo, o péssimo sistema americano. Mas não vou chatear vocês com os detalhes do sistema lá, nem com as complexidades da velha legislação nem com as complexidades da nova legislação. Aqui no Brasil, nós temos os nossos próprios problemas. Basta dizer que, se a chamada reforma for aprovada pelo Senado americano, 24 milhões de pessoas perderão os seguros médicos recentemente adquiridos. Mas Trump, acima de tudo, almeja marcar, e para ele um gol feio vale tanto quanto uma linda bicicleta. Uma vitória pírrica vale tanto para ele quanto uma vitória que traz benéficos palpáveis. E, além disso, o rapaz espalha tanta desinformação e tantas mentiras que alguns desses 24 milhões pensarão que ganhassem liberdade. Ele mesmo, aparentemente, ainda não leu o texto da lei e não consegue responder à mais simples pergunta a respeito.

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