NOVEMBRO AZUL

José Bonifácio aguarda transição e faz apelo a Adriano

Em entrevista à Prensa, o prefeito eleito de Cabo Frio, José Bonifácio (PDT), envia mensagem a Adriano Moreno, atual prefeito em exercício

Nesta quarta-feira (18), a Prensa de Babel entrevistou o prefeito eleito de Cabo Frio, José Bonifácio (PDT). Entre os assuntos abordados, Bonifácio comentou sobre a crise orçamentária do município, saídas emergenciais para a pandemia do Covid-19 e enviou uma mensagem ao atual prefeito em exercício, Adriano Moreno (DEM).

Confira abaixo a entrevista, na íntegra:

Prensa de Babel: A sua expectativa para as eleições era de ter uma vitória tão larga como foi?

José Bonifácio: Inicialmente não. Nós começamos apenas com o apoio do PDT com o PSB, e depois foram se agregando outras candidaturas, outros partidos. Bem no início da campanha, com cerca de 50 dias, se juntou um conjunto de pré-candidatos que desistiram de concorrer, como foi o caso de Magdala, Aquiles Barreto, Jefferson Vidal e Coronel Ruy França, então isso deu uma nova dimensão à nossa campanha.

Nós também fomos percebendo, a manifestação espontânea das pessoas nas ruas, independente das pesquisas, porque eu sempre as usei mais para ver onde era melhor trabalhar, onde eu precisava dar uma maior atenção, nunca me importei muito com grandes números, se estou na frente ou atrás de alguém. Fui percebendo nas ruas, como uma pessoa que sempre andou sozinho, nunca tive seguranças na minha vida, já fui prefeito duas vezes, eu notei que, principalmente depois que começaram os programas de televisão, a minha figura ficou mais pública ainda, e as manifestações eram muito vibrantes, emocionantes, e as pessoas ficavam emocionadas, o que me emocionava também.

E na reta final, eu senti quase que o cheirinho da vitória, mas muito precavido, aguardei. Mas eu não imaginava que teríamos uma votação tão expressiva.

Prensa: Como o senhor já foi prefeito anteriormente, você acredita que já foi um desejo de Cabo Frio de retomar as raízes do município, de uma cidade mais calma, tranquila, como foi no passado, de voltar a ser uma cidade familiar novamente?

Bonifácio: Eu acho que foi um percentual bastante considerável o desalento e a decepção com o governo do Adriano. Quando ele se elegeu, naquele período conturbado, cassação do Marquinho, houve um pensamento: “Agora, o Dr. Adriano é o novo nome, não é um político que tinha sido vereador, não é um político conhecido tradicionalmente, vamos jogar as fichas nele”. E o governo dele não aconteceu. É verdade que ele não teve sorte, conviveu com a pandemia, mas não soube trabalhar também com esse grave problema. Outros municípios souberam, outros estados. Eu acho que se agregou-se muito à esse decepção.

Então quando aparece alguém que já tem alguma experiência, já governou a cidade, as pessoas começaram a relembrar os meus feitos e os jovens que não sabiam passaram a saber. Então, eu acho que isso deu um pensamento: “Está na hora de não errar mais, não vamos mais escolher uma aventura. Vamos acreditar naquele que já passou por aqui, que tem experiência, e tem uma vida que todo mundo conhece”. Esta é a minha concepção, acho que, principalmente na reta final, para chegar nesse volume de votos, não tenho informações estatísticas para dar, mas percebo que pelo esvaziamento do nome de Marquinho Mendes, o eleitor dele passou a ser meu eleitor nesses últimos dias de campanha.

Prensa: Durante a campanha, o senhor pode considerar que também conseguiu atingir uma camada de novos moradores de Cabo Frio, que não conheciam a sua presença como político na cidade? Quando o senhor foi prefeito, o município era maior territorialmente e menor populacionalmente, então houve uma mudança muito grande no formato da cidade.

Bonifácio: Eu acho que duas coisas aconteceram. Primeiro, o que me surpreendeu foi que o idoso, que já não tinha mais obrigação de votar, começou a se manifestar que queria votar, porque acreditava na história que a gente passou e que valeria a pena. E o outro lado, a juventude começou a aderir em massa à campanha. Acho que esses dois polos foram fundamentais no que aconteceu ao final.

Prensa: O senhor citou a Magdala, sua vice. Durante a campanha, você chegou a dizer que 50% do seu corpo técnico seria formado por mulheres. Permanece esta afirmação? Este será um governo que vai buscar a equiparação de gênero?

Bonifácio: Só para corrigir, não é o meu corpo técnico, no primeiro escalão, eu não tenho obrigatoriedade. Eu sou político, e dou o exemplo: a minha secretária de saúde no segundo governo. Ela não era da área de saúde, era uma professora e tinha sido secretária de educação no meu primeiro governo, professora Cileia Maria Barreto, já falecida. Ela é tida como uma das melhores secretárias que Cabo Frio já teve na área da saúde.

Então, a coisa da questão técnica não, mas o percentual será mantido, metade do meu primeiro escalão e metade do segundo será composto por mulheres.

Prensa: Isso se reflete também em uma preocupação maior com políticas públicas assertivas em relação à mulher?

Bonifácio: Na realidade, isso vai fazer com que a mulher, mais do que estar em um determinado segmento para reafirmar aquele espaço limitado de a mulher atuar, a presença dela no primeiro escalão, com 50%, vai mostrar a capacidade que elas tem, no poder, de exercer as políticas públicas que serão determinadas pelo conjunto do governo, e também na sociedade, de mostrar que o espaço político não é só dos homens.

Podemos ver, por exemplo, que neste governo atual, só tem uma mulher como secretária. Onde estão as outras mulheres? Estão escondidas? Ou será que nós, homens, é que estamos cobrindo para ninguém ver? Então estas mulheres precisam aflorar, e eu acho que a presença delas vai ser uma revolução na administração pública.

Prensa: Ainda neste arco da sua vice, sabemos que ela é uma moradora do município de Tamoios, uma ótima empresária naquela localidade. Este distrito sofre com um abandono há muitos anos e governo, mas ele sempre serve como base dos discursos a cada eleição. O senhor está ciente da problemática e dos desafios para aquela população que se sente excluída do município de Cabo Frio?

Bonifácio: Eles se sentem assim com razão. Eu dou um exemplo que mostra o absurdo do tratamento que se teve com o segundo distrito. Cabo Frio, o primeiro distrito, tem 90 praças públicas, grandes, como a Praça da Cidadania na Praia do Forte, menores em outros bairros, mas são 90. O segundo distrito tem apenas uma, para 90 mil habitantes. Só isso já mostra um descaso.

E se percebe isso na área da saúde, educação, planejamento urbano, etc. Lá tem loteamentos irregulares, a prefeitura não aprova nada, não quer a presença do poder público. Eu assumi o compromisso e repito: vamos levar para lá, no início do governo já, duas secretarias. A secretaria de obras e serviços públicos será instalada e a secretaria de meio ambiente também estará lá em Tamoios, porque ali tem uma das coisas mais preciosas da nossa região, que é o parque do mico-leão-dourado, que está por ser implantado efetivamente.

Além disso, em Tamoios estão as maiores agressões que aconteceram em Cabo Frio em relação ao meio ambiente, na estação da areia, aquelas lagoas imensas. Uma vez, na TV me perguntaram: O que fazer com essas lagoas? Eu quero a contribuição dos ambientalistas, dos empresários, porque ali se gerou um novo ecossistema. Não podemos ficar com aquele local do jeito que está. Por isso é que Tamoios terá uma participação efetiva na nossa estrutura administrativa.

Prensa: Ainda na esfera do segundo distrito, nós temos o bairro da Maria Joaquina, que faz divisa com Búzios, e que há dois anos, está dentro de uma peleja em uma luta entre os dois municípios. A briga foi judicializada, e a população, que não é culpada da confusão feita no passado pelo que se alega de limitação da divisa das duas cidades e outras questões, é a que mais sofre com isso. Como o senhor pretende resolver esta situação que é bem preocupante ali.

Bonifácio: O poder público precisa estar presente neste local também. Inicialmente, a gente não tem muito como prometer muitas mudanças, na área da saúde, da educação, por exemplo. Eu quero, junto com os prefeitos dos municípios vizinhos, Búzios, Arraial, São Pedro da Aldeia, Barra de São João, fazer um “acerto de contas”.

A maioria da população da Maria Joaquina é atendida nos hospitais e postos de saúde de Búzios. A prefeitura de Cabo Frio irá propor ao novo prefeito remunerar pela tabela SUS todos os serviços que forem prestados aos cidadãos do local. Da mesma forma a escola. O município de Cabo Frio irá remunerar Búzios, por um valor a ser estabelecido ou por tabelas do Ministério da Educação, para indenizar a cidade pelo gasto com os alunos de Maria Joaquina que estudam em escolas de lá.

Será desta forma até o município de Cabo Frio ter condições de prestar estes serviços diretamente. Mas tem toda uma parte de urbanização que não tem jeito, precisa ser feita por Cabo Frio. Esta é a ideia.

Prensa: No caso de Barra de São João, o senhor pensa em fazer o mesmo com a população daquela parte de Tamoios que fica mais próxima do rio São João, que muitas vezes acessa o município de Casimiro de Abreu?

Bonifácio: Lá acontece menos, porque em Tamoios se tem a presença de uma UPA, e em Barra de São João não tem. Existe o hospital do distrito que está parado, em obras, mas o Hospital do Estado em Barra de São João também não está sendo utilizado. Eu já conversei com o prefeito Ramon, e nós vamos trabalhar nisso.

Prensa: Algumas iniciativas de quando o senhor foi prefeito foram abandonadas, como o Parque de Exposição, onde hoje existe o Convento Campos Novos, um patrimônio histórico para o Rio de Janeiro, que está abandonado. Houve também uma iniciativa da sua gestão que foi uma escola agrícola, na região entre Campos Novos e Botafogo, que não funciona como foi a proposta do início. o senhor pretende retomar iniciativas do passado?

Bonifácio: Imediatamente. Sobre o Parque de Exposições, eu já estou começando agora a conversar com pessoas envolvidas, que têm interesse. No último fim de semana de janeiro, nós iremos reabrir o espaço com um evento,não grandioso, para marcar a retomada. E aí, todo mês, depois toda quinzena, e depois toda semana terá um evento no parque.

Ao mesmo tempo, a escola será retomada com as características que ela foi construída, para servir como se fosse uma escola técnica para aquela população, para cuidar de pequenos animais, plantas medicinais, hortaliças, com um pequeno horto funcionando. E a sede da Fazenda Campos Novos é o mais difícil, por ela estar interditada, ameaçada de desabamento, mas nós vamos retomar e buscar recursos para isto.

Prensa: Tem uma outra questão importante em Cabo Frio que envolve o pagamento e salários, funcionalismo público, chamadas de concurso, existe uma gama de problemas que foram somando dos governos anteriores e se chegou até aqui. Acredito que o senhor tem ciência de que vai encontrar uma situação das mais difíceis do interior do Rio de Janeiro. O senhor está preparado para estas questões orçamentárias, dívidas, que envolvem o município?

Bonifácio: Eu estou dependendo da equipe de transição do prefeito, ou que alguém em nome dele acene para que a gente possa colocar em dia. Principalmente Fazenda e Saúde são dois setores imediatos que precisamos ter todas as informações. Até agora, eu não recebi nenhum comunicado. Faltam apenas 30 dias, porque no dia 20 de dezembro, tem ter estar tudo pronto.

Qual é o estoque que temos de material, medicamentos para a área da saúde para a virada do ano, para os primeiros trinta dias, no verão? Será suficiente para atender a demanda que teremos na UPA, hospitais? Eu não sei.

Prensa: Alguns municípios da nossa região faliram na questão do turismo, de alguma forma, e fizeram a opção pela indústria, zonas comerciais. Cabo Frio ainda vai se manter tendo o turismo como principal mola mestra ou também fará uma transição em direção à indústria, comércio mais intensivo?

Bonifácio: Eu acho que a nossa vocação é o turismo. Nós temos as praias, Parque Eldourado, o Parque Estadual da Costa do Sol, a Bandeira Azul, na Praia o Peró. Então esta cidade tem tudo pra atrair o turista o ano inteiro. O que eu quero é um projeto de adaptação para transformar a morada do samba em um centro permanente de feiras, congressos e eventos, em uma parceria público-privada, sem o município colocar um centavo. Ali onde está, R$ 4 milhões foram gastos e aplicados em um patrimônio que está abandonado.

Será um turismo de negócios para trazer, durante todo o ano, uma atividade permanente para a cidade.

Prensa: Sobre o desafio do novo coronavírus. O senhor está preparado para enfrentar um ano que vai entrar ainda em pandemia, com os números de casos e mortes crescendo no país inteiro, com o medo de uma possível segunda onda? Como está a sua expectativa e preparo para este desafio?

Bonifácio: Nós vamos formar logo no primeiro dia o chamado gabinete de crise. Hoje, ele é composto apenas com pessoas que são secretários do atual prefeito. Se são oito, nós vamos ter mais oito da sociedade civil.
A partir de janeiro, esse gabinete será ampliado com a representação de empresários, trabalhadores informais, de Tamoios, do Jardim Esperança, do comércio comum, dos restaurantes, etc. Então, esta discussão será feita com todo mundo.

Óbvio que os funcionários da saúde serão ouvidos prioritariamente, até porque já está aumentando o caso de mortes e contaminação em algumas cidades importantes. O Rio de Janeiro é um emissor de turistas para a Região dos Lagos, se os números estão aumentando lá, evidentemente que pessoas que se deslocam para cá podem estar contaminadas. Então é uma decisão delicada e que precisa ser tomada a partir de uma discussão com a sociedade.

Prensa: A última pergunta será sobre o espaço das minorias no município, que se articularam bastante nestes últimos anos. Falamos das mulheres e agora pergunto sobre os movimentos de luta antirracista, os direitos dos LGBTs e outros movimentos que também querem sua voz na participação cabo-friense.

Bonifácio: A participação dos negros e negras estará bem próxima de 50% também. Nós não estabelecemos um percentual, mas eu tenho recebido muitas sugestões de pessoas brancas para compor a minha equipe, e quanto a isso eu respondo que preciso também de pessoas negras. Então eu estou insistindo nesta questão e das mulheres. A presença deles será de grande relevância na nossa equipe.

Prensa: Existe alguma coisa que o senhor queira acrescentar, aproveitando este espaço para a população?

Bonifácio: Eu queria, neste momento, me dirigir ao prefeito Adriano, e fazer uma solicitação a ele, para além de abrir o espaço para que a transição aconteça, mas que de modo especial recomende que ao seu secretário de fazenda que não efetue pagamentos de dívidas antes do governo dele. A prefeitura está devendo muita coisa do governo de Marquinho e Alair. Então que ele não os recursos da receita para pagamento destas dívidas. Que ele se limite a efetuar o pagamento de tudo que foi contratado no período de governo dele. É uma pena o que eu falo. Eu tenho certeza que ele vai me atender.

Esta entrevista também está disponível em formato de podcast pelo canal da Prensa no Spotify. Para acessar, basta clicar no link.

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