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A Escravidão vai voltar nos EUA? Ou só esse muro?

Mark é jornalista, é americano, mora em Búzios ( o que quer dizer que escolheu viver no Brasil entre argentinos?).
Mark é jornalista, é americano, mora em Búzios ( o que quer dizer que escolheu viver no Brasil entre argentinos?).

 

*Por Mark Zussman

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Poul do centro de Búzios feliz com a vitória de Trump. Porque não sabemos

 

Acompanhei o Jornal Nacional da Globo no day after das eleições americanas, semana passada, e ouvi o Bonner e vários outros mencionarem repetidamente que o Trump vai ser Presidente apesar de a Hillary ter colhido a maioria do voto popular.

Eu sou americano apesar de morar aqui no Brasil por um bocado de anos, e eu entendo como o sistema americano funciona. Mas vocês, brasileiros, morando num país onde o voto de um entregador de pizzas em Roraima tem exatamente o mesmo valor que o voto de um pastor evangélico ou um traficante em Mato Grosso, vocês entendem como é que essa norma igualitária não prevalece num país supostamente o mais democrático de todos? Já se perguntaram por que os EUA adotaram um sistema quase tão aleatório quanto a decisão por pênaltis?

É complicado, mas simples. A Constituição dos Estados Unidos, agora no seu terceiro século de vida, começa com as palavras “Nós, o povo dos Estados Unidos.” Mas, na verdade, essa constituição não era um pacto entre indivíduos, era um pacto entre estados, na época 13, cada um uma ex-colônia britânica mas, na hora da convenção constitucional, cada um independente dos outros. Os estados menores, a maioria deles escravocratas, temendo o poder dos estados maiores, propuseram uma variedade de mecanismos exóticos, o Colégio Eleitoral entre eles, para se protegerem. E os estados maiores, para selar o pacto, aceitaram.

Eu acabo de fazer um simples cálculo e descobri que, graças aos caprichos do sistema eleitoral vigente nos EUA, um voto no estado conservador de Wyoming, com mais lobos e coiotes do que gente, tem 3,5 vezes o peso do que um voto em Nova York. No ano 2000, Al Gore, Democrata, vice de Bill Clinton e campeão de muitas pessoas que levam o aquecimento global a sério, também ganhou o voto popular nas eleições presidenciais. Mas ele não foi empossado. O Bush, o adversário dele, é que foi empossado.

*

Se o voto popular lá nos EUA determinasse a vitória, Hillary seria, então, a Presidente Eleita hoje e o mundo poderia dormir sem calmantes. Mas, dado que o adversário dela, o agora Presidente Eleito Trump, era um charlatão demagógico, e frequentemente espumando pela boca, porque a Hillary não ganhou o voto popular por uma maioria tão esmagadora que, inevitavelmente, arrastasse até o voto no Colégio Eleitoral também? Se poderia apontar as deficiências da própria Hillary. Mas, quaisquer que fossem essas deficiências, Trump e os seus comparsas e asseclas a caracterizaram constantemente como uma criminosa, uma facínora, uma besta demoníaca com chifres – destarte, as palavras de ordem nos comícios do Trump: “Lock her up” (À cadeia!) e “Kill the bitch” (Mata a cachorra!).

Na realidade, a principal deficiência dela era simplesmente que era insossa. Mais um(a) político(a) picolé de chuchu.

Sim, um grande número de mulheres e alguns homens estavam empolgados pela oportunidade de eleger uma primeira mulher Presidente. Mas, e se ela tivesse sido homem com o mesmo programa e a mesma retórica? Se ela não tivesse tido a vantagem – e desvantagem – de ser mulher?

O lema da campanha Trump era “Make American Great Again” (Para fazer America grande outra vez). Para pessoas que, 20 anos atrás, ganhavam bons salários numa fábrica de automóveis e agora trabalham num McDonald’s, esse lema tinha muita ressonância.

O lema da campanha de Hillary? “Stronger Together” (Mais Fortes Juntos).

Que que é isso, rapaz? Juntos mais fortes? Numa interpretação generosa, o lema talvez sugerisse que, para os nossos problemas, existem soluções sociais e não somente individuais. Mas o lema era fraco, e o lema era fraco porque ela representava finalmente nada mais do que a continuação, ou seja, mais uma dose, do progressivismo às vezes agressivo e às vezes gradualístico ou até tímido da administração Obama.

Durante a campanha primária, ela já tinha sido atacada pela esquerda, principalmente pelo Senador socialista Bernie Sanders, por sua relação íntima e amigável com os magnatas de Wall Street. Na eleição geral, esse mesmo “Juntos mais fortes” tornou a ser evidência não de continuidade – houve eleitores lá que resistiam ao progressivismo gradual de Obama – mas de continuismo.  Ainda pior, a tendência desse progressivismo de Obama era de favorecer os dois pilares do seu sucesso – as minorias e as elites – e isso não era um segredo. Os brancos da classe operária e também da classe média se sentiam negligenciados. O ressentimento deles estava pipocando por anos.

Mas eu não culpo a Hillary pelo desastre que aconteceu. Ela era uma candidata honrável e digna e fazia o melhor que podia com os materiais que tinha – o seu programa, a sua personalidade, o seu temperamento . Eu também não culpo o Presidente Eleito. Ele era charlatão, farsante, golpista, vigorista, palhaço e tudo mais que se pode imaginar, mas, como o lobo que come as galinhas, ele só fez o que a natureza dele autorizava. Não se pode culpar o lobo por ser lobo.

A culpa é dos eleitores que votaram nele.

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Os eleitores que votaram nele tinham queixas e reivindicações legítimas, mas, numa democracia madura, a população deveria ser inoculada, desde a infância, contra as grandes mentiras, contra as promessas demagógicas e irrealizáveis, e com certeza contra um racismo sem a mínima disfarça.

Semana passado nos EUA, essa inoculação falhou, e é por isso que Paul Krugman, o Nobelista em economia, se perguntou num artigo breve, no New York Times, se os Estados Unidos não seriam agora um país fracassado.

Isto é uma possibilidade.

*

A escravidão foi abolida nos EUA pela 13o emenda à Constituição americana, no ano 1865, e é improvável que até um público tão passadista quanto os eleitores do Trump for querer reintroduzi-la. De qualquer forma, a Idade Dourada das pessoas que querem que os Estados Unidos sejam grandes outra vez não é, aparentemente, a primeira metade do século 19 mas a década de 50, quando as casas foram aquecidas por carvão (extraído em estados como Pensilvânia e a Virgínia Ocidental) as fábricas emitiam grandes nuvens de fumaça, os homens ainda eram homens (e ganhavam salários suficientemente pródigos que podiam sustentar as suas famílias sozinhos), as mulheres eram mulheres, os gays ficavam no armário, os Negros e as outras minorias conheciam os seus lugares, o mundo foi criado em sete dias – e aborto só para as rara meninas cujos pais podiam custear a viajem para Suécia. Se não, a agulha de crochê ou o cabide.

Não imagino que os americanos vão jogar fora os seus smartphones e tablets e as outras comodidades introduzidas nas últimas décadas. Mas, se nós não acordarmos e descobrirmos que as eleições americanas da semana passada eram somente um pesadelo, o futuro lá vai trazer muitas inconsistências e absurdos – sem dar para rir. A probabilidade é grande, por exemplo, que a nova administração jogará fora muitos dos regulamentos que agora refreiam os piores excessos do capitalismo de conivência e os regulamentos que inibem o aquecimento global. Haverá retrocesso igualmente nos arranjos sociais. E esse belo muro que vai manter os mexicanos do lado deles? Ele é sério? Ele vai tentar construí-lo? Tudo vai ser muito estranho. Mas seguiremos aqui essa aventura na escuridão.

Sandro Peixoto comunicou no day after: “Vcs fizeram bem em terem vindo pra cá.”

Nunca duvidei.

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*Mark é jornalista e americano radicado no Brasil desde muito tempo (risos)

 

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