É um mini-Hitler tomando posse lá nos EUA? Ou só um palhaço patético?

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Por Mark Zussman

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Hitler e os seus generais em Paris. São eles que aperfeiçoaram a arte do swagger.

Algumas semanas atrás, eu escrevi mais um artigo ridicularizando o então Palhaço-Eleito dos EUA – e agora, já por algumas horas provavelmente, o Palhaço-Chefe, em exercício do cargo – sob o título “Feijão Trumpeiro,” e lá, no primeiro parágrafo, eu caracterizei a maneira pela qual ele, o Palhaço, se movimenta pelo mundo pela palavra inglesa swagger. Eu disse que swagger significa “proceder de uma maneira tal que o swaggerer (o swagger-eiro) ocupa mais do que o seu justo quinhão de espaço no mundo, invade constantemente o espaço protegido e privilegiado de outras pessoas, e ao mesmo tempo irradia ares de superioridade e ameaça, mas, na verdade, um swaggerer-mor, isto é um mestre em swagger, como o Trump, consegue irradiar as mesmas vibrações sentado.”

Nunca diria que os brasileiros não têm também uma grande capacidade para o swagger. Alguns dias atrás, vi, em frente ao Golden Market, um carrão de luxo, com placas do Rio de Janeiro, estacionado paralelamente ao meio-fio, assim ocupando três vagas normais e complicando o acesso de outras pessoas, e isso, com certeza, é swagger. A cultura do “Você sabe com quem está falando?”, agora talvez menos flagrante do que em tempos idos, também é swagger. É só que eu não encontrei uma palavra em português tão expressiva quanto a palavra na minha língua materna. Mas swagger é, com certeza, uma das maldições do nosso mundo e uma das coisas mais feias e mais vexantes.

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Quando eu submeti o artigo à redação deste jornal virtual, enviei também uma meia dúzia de imagens para ilustrar os meus pontos e, juntamente com as imagens, um número igual de legendas. O próprio artigo foi publicado perfeitamente. Sem deslize. Se a redação fez alguma alteração, foi para melhor e eu nem percebi. Mas as legendas que eu escrevi para as imagens não foram usadas. Foram descartadas. Victor Viana, o redator-chefe deste jornal virtual, escreveu as suas próprias legendas, totalmente diferente das minhas, e o Victor me enviou um email, um ou dois dias depois da publicação, com o seguinte comentário: “Deve ter visto que tomei algumas liberdades com as ilustrações e as legendas – espero que tenha gostado.”

Eu nunca respondi a esse email, mas vou responder agora. Na maioria dos casos, sim, eu gostei das legendas que Victor escreveu. Sob uma imagem de William Bonner, no cenário do Jornal Nacional, por exemplo, Victor escreveu, “Mark, cada país tem o Trump que merece. Você não tem nada a ‘Temer’. Sacou? ” – Disse William Bonner”, e isso eu achei não somente engraçado mas também inteligente e até sábio.

Houve, no entanto, uma nova legenda que me deu arrepios. A imagem, reproduzida aqui de novo, mostra Hitler e seus generais em Paris – depois da conquista da França pelos alemães em 1940. A legenda que eu tinha escrito disse “Hitler e os seus generais em Paris: São eles que aperfeiçoaram a arte do swagger”. Victor substitui: “Hitler, Trump e seus admiradores não são bons de balanço… são não.”

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Trump em uniforme de Hitler. Comparação legítima? Ou difamatória e injusta?

Qual a diferença? Nós, os americanos estarrecidos por Trump, nos encontramos numa situação mais do que um pouco constrangedora. A todo momento, nós sentimos a tentação de equiparar Trump com Adolf Hitler. Os paralelos são visíveis, flagrantes e amedrontadores. Mas estamos falando, porra, dos Estados Unidos, um dos países que, junto com Grã Bretanha e a União Soviética, mais lutavam para derrotar os Nazistas e, além do mais, nós, os EUA, somos uma democracia madura. Nós temos tradições de proteger minorias e não ameaçar e castigá-las. Não somente isso, nós vínhamos aprendendo nas últimas décadas a valorizar uma sociedade multi-étnica e multicultural, com todo tipo de diversidade.  Descobríamos que essa sociedade multi-étnica e multicultural não era somente mais moderna do que uma sociedade monolítica, era inclusive mais divertida.

Nós, os americanos hostis ao Trump, não queremos ser histéricos. Não queremos gritar fogo num cinema lotado porque confundimos um incêndio no filme na tela com um incêndio ao nosso redor e assim provocarmos um pânico que, por sua vez, resulta em debandada e atropelamentos e mortes. É por isso que relutamos a explicitar os paralelos entre Trump e Hitler, como Victor fez, inocentemente, na legenda que ele escreveu.

Mas os paralelos continuam a assombrar.

Um exemplo instrutivo:

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Michiko Kakutani

Durante a recente campanha eleitoral, Michiko Kakutani, a crítica de livros chefe do The New York Times, publicou uma resenha de uma nova biografia de Hitler pelo alemão Volker Ullrich e, sem jamais mencionar o candidato Trump por nome, ela listou uma série de características que o autor, Volker Ullrich, considerava típicas de Hilter – e todo mundo, menos talvez um punhado de leitores desatentos, sabia que ela estava falando do Trump também.

Entre essas características (cada uma introduzida com um ponto): Hitler era um egomaníaco que só amava a si mesmo. Ele era um narcisista auto-dramatizante com uma afeição por superlativos e uma mendacidade sem limites. Ele tinha um bom olho pelos pontos fortes e fracos de outras pessoas e uma capacidade para analisar e explorar as situações que andavam surgindo instantaneamente. Ele se apresentava cada vez mais em termos messiânicos e prometeu liderar a Alemanha a uma nova era de grandeza nacional.

Havia muito mais. A resenha era uma obra-prima. Quem lê inglês com um pouco de facilidade encontrará o original na página www.nytimes.com/2016/09/28/books/hitler-ascent-volker-ullrich.html?_r=0.

Mas subsiste o problema de uma sutileza menos ágil do que a da Michiko.

Cita-se, de vez em quando, lá fora, a Lei de Godwin, que nos ensina que “à medida que cresce uma discussão, a probabilidade de surgir uma comparação envolvendo Adolf Hitler ou o nazismo aproxima-se de 1 (100%).”

Eu disse que essa lei – nomeada pelo advogado norte-americano que a cunhou, ou descobriu, em 1990 – é citada às vezes lá fora, mas pode ser que seja citada aqui no Brasil também. Eu não traduzi a linguagem da lei. Eu a copiei do verbete na Wikipédia em português.

E a lei de Godwin é relacionada a mais um fenômeno, citado na Wikipédia em português como uma falácia lógica, ou seja, não exatamente uma lei, chamado Reductio ad Hitlerum. Esta distorção do raciocínio acontece quando, numa discussão acalorada, por exemplo, um dos participantes apela hiperbolicamente, muito antes da hora certa, para chamar o outro de hitleriano, nazista ou fascista. O filósofo Leo Strauss, da Universidade de Chicago, é que deu nome a esse boi, já em 1951.

Mas vamos voltar à Lei de Godwin. A Lei de Godwin tem um corolário que diz que, assim que Hitler ou os nazistas são invocados, a conversa termina. Isso, porque a pessoa invocando Hitler ou os nazistas não tem mais um argumento persuasivo. Ou seja, invocar Hitler é equivalente a balbuciar ininteligivelmente, frente ao seu interlocutor, por alguns segundos e depois levantar-se, sair da sala, e, na saída, bater com a porta.

Sim, é a este tipo de interrogação e exame de consciência idiotas – e previamente desnecessários – que a chegada do Trump nos traz.

Semana passada, li um artigo na revista americana The New Yorker que, por um momento, parecia lançar um pouco de nova luz no dilema. Adam Gopnik, sempre um analista astuto, escreveu o seguinte, e eu espero que a minha tradução, feita nas costas, faça jus: “Trump, num tuíte, e depois numa entrevista coletiva, tinha a coragem de comparar a prática de vazar informações sobre ele aos horrores da Alemanha nazista, entre todas as coisas do mundo. Nós ouvimos, repetidamente, com justiça, que tais comparações não deveriam ser feitas, nunca. Os acontecimentos na Alemanha em 1934, e essa ascensão inenarrável ao poder, são de dimensões monumentais demais, são alienígenas demais e blasfematórios demais para serem até mencionados em nossa própria crise. Mas é possível ser da opinião que nós deveríamos ficar para sempre com esse espectro frente aos nossos olhos, não porque os nossos opositores políticos são ‘como nazistas’, mas porque é fácil demais esquecer da rapidez com a qual o pior pode acontecer.”

Tudo isso parece razoável. Mas tem um outro ponto de vista menos, por assim dizer, circunspecto.

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Glenn Greenwald, no Rio

Vocês sabem quem é Glenn Greenwald? Glenn Greenwald é, como eu, norte-americano de nacionalidade e ele também mora no Brasil. Ele mora, especificamente, no Rio. Mas ele é muito mais perigoso do que eu Enquanto eu moro no Brasil principalmente para o meu prazer, um dos principais motivos pelo qual o Glenn mora no Brasil é por medo de ser perseguido pelas autoridades americanas se voltasse a casa nos EUA. O crime dele? Como jornalista (ele é advogado também), ele desempenhou um papel central na divulgação de informações sigilosas sobre os programas de vigilância global americanos que o administrador de sistemas Edward Snowden copiou em Havaí e levou para Hong Kong.

Num artigo na revista virtual Salon, um tempo atrás, Glenn escreveu que a Lei de Godwin deveria ser revogada. “A noção de que um acontecimento de vulto como a agressão alemã fica fora dos limites em debates políticos é, ao mesmo tempo, arbitrária e anti-intelectual ao extremo. Há ocasiões quando tais comparações iluminam verdades importantes.” E ele dá um exemplo da administração Bush/Cheney. Texto completo, em inglês, na página www.salon.com/2010/07/01/godwin.*

Estou escrevendo na sexta-feira, meio-dia. Daqui a três horas, 15h00 hora de Brasília, meio-dia hora de Washington, Trump será empossado, e Barbara e eu queremos estar longe do computador e da televisão. Preferimos ir caminhando, num silêncio solene, numa das nossas praias.

Como foi possível esquecer, até agora, a famosa observação de Carlos Marx, no “18 Brumário de Luis Bonaparte”, que a história se repete – a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa? Tomara que este novo episódio não seja nada pior do que farsa.

Lamentamos a morte de Teori Zavascki. Mais um motivo para uma caminhada, num silêncio solene, na praia.

Leia todos os textos de Mark no LINK 

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