Donald Trump e a sofrida (sim, sofrida) classe média americana

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Por Mark Zussman

Nos Estados Unidos, as duas principais narrativas estão em conflito. Conversem com as pessoas em Nova York, em Los Angeles, em San Francisco, ou no Vale do Silício, a alguns quilômetros ao sul de San Francisco.  As pessoas lá não passam os seus dias sem algumas pequenas preocupações, mas basicamente gostam do mundo que estão criando. Gostam dos seus aparelhos eletrônicos e tudo o mais. Gostam de suas vidas. (Gostam de suas vidas porque gostam dos seus aparelhos eletrônicos, das suas redes sociais, dos seus carros, e isso é uma evidência da sua consciência distorcida, ou falsa? Pode ser. Mas não vamos entrar nesse outro tipo de análise. Por enquanto, vamos constatar simplesmente que gostam de suas vidas.)

 

Essas pessoas já mencionadas – e muitas outras, nos EUA – basicamente estão otimistas. Mas foi a segunda das narrativas que entregou a presidência a Donald Trump em novembro, e essa é uma narrativa que ninguém articula mais vigorosamente do que o próprio Donaldo, embora, tipicamente, de uma forma quase tão exagerada quanto num filme apocalíptico sobre o fim da civilização e do nosso mundo.

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Na narrativa de Trump, o mundo é uma bagunça. Síria, Iraque, Irã, Afeganistão, com certeza, mas Europa também. O mundo inteiro. O nosso próprio país, EUA, é um desastre. O que está acontecendo em nosso país é, para repetir a palavra meio infantil que ele costuma usar, “disgusting” – nojento. Fábricas que, no passado, produziam os bens que movimentaram a economia e que também pagavam salários decentes aos seus operários, agora são cascas enferrujadas – e vazias, mortas. Os negros, nas velhas cidades, vivem em zonas de guerra. “No inferno,” ele disse durante um debate com Hillary. Disse: “As pessoas são baleadas no  para o mercado.” No seu discurso de posse, falou de “American carnage”, ou seja, de uma carnificina americana, que vai parar “agora”.

 

Correto, se milhões de pessoas não tivessem acreditado que essa narrativa descrevia o mundo em que viviam, Trump não teria sido eleito – mas em que medida essa narrativa corresponde com a realidade? E, na medida em que corresponde, sim, à realidade, há algum remédio?

 

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A nova fábrica robotizada

As fábricas enferrujadas são um fato nos EUA, e elas estão tornando a paisagem cada vez mais feia em lugares onde outras feiúras – as grandes lojas de varejo, os pequenos centros comerciais quase abandonados, e todo o entulho de uma civilização banal e desleixada – não cumpriram o mesmo serviço antes. A desindustrialização é um fato também lá nos EUA? Sim . . . e não. Na verdade, os EUA são, ainda, o segundo país no mundo – depois da China – que mais fabrica. A produção é enorme. Alguma coisa perto de US$8 trilhões ao ano. Mas os EUA alcançam esse nível de produção cada vez mais eficientemente – ou seja, com cada vez menos mãos. A história do emprego industrial nos EUA é comparável à história do emprego agrícola.

 

Na segunda metade do século XIX, quase 50% da força laboral do país trabalhava no campo – e o objetivo era nada mais do que a autossuficiência. Agora, menos de 2% da mão de obra trabalha na agricultura e 20% da produção é exportado.

 

Em 1960 (pelos motivos óbvios, um ponto de referência diferente), 24% da força laboral americana trabalhava em indústrias fabris. Em 2016, 8% da força laboral trabalhava em indústrias fabris.

 

Não é de admirar que tantas pessoas tenham ouvido as suas próprias vidas descritas na narrativa de Trump – e que, para essas pessoas, um termo como “American carnage”, ou carnificina americana, pareça totalmente normal. Nos seus dias de maior glória, a indústria empregava pessoas semiqualificadas e semiespecializadas, sem ensino superior, e pagava salários tão gordos que um soldador ou um torneiro podia se considerar, com justiça, um membro da classe média. Essa pessoa era da classe média. E isso foi uma grande conquista dos EUA. Os trabalhadores industriais tinham um investimento pessoal na estabilidade da sociedade. Possuíam carros, casas, eletrodomésticos e por vezes embarcações de recreio e equipamento para esqui. E, na medida em que queriam proteger todas essas riquezas e não perdê-las, viraram conservadores.

 

O problema hoje não é que os EUA pararam de produzir empregos. Produzem empregos a valer. Um relatório do Departamento do Trabalho, semana passada, mostrou a taxa de desemprego lá no patamar de 4,5%. Tecnicamente, pleno emprego. Mais emprego do que isso e a inflação dispara. (Qual o índice aqui no Brasil? Mais ou menos 13%?) Só uma coisa: os empregos que vêm substituindo os velhos empregos fabris – em ramos como o varejo, saúde, alimentos – pagam, geralmente, bem menos do que os velhos empregos fabris.

 

Esta situação contribui para o que os americanos chamam de o “hollowing out” da classe média. Hollow é oco. Que eu saiba, não temos, em português, um verbo significando “tornar oco”. Significa em português alguma coisa como o esvaziamento da classe média. O último a sair, apaga a luz.

 

Na verdade, duas importantes tendências socioeconômicas estão, hoje em dia, causando turbulência nos EUA. Os mais ricos – o famoso 1% – está ficando ainda mais rico e deixando até a classe média alta para trás – muito atrás – na poeira. Em 2012, por exemplo, a renda desse 1% mais rico aumentou em 20%, enquanto a renda dos outros 99% da população aumentou em 1%. Isso é o tipo de coisa que os economistas Thomas Piketty (do livro O capital no século XXI) e seu colega Emmanuel Saez analisam meticulosamente.

 

A outra tendência pode ser ainda mais grave. No final de 2015, um relatório do Pew Research Center mostrou que, por critérios amplamente usados, nem sequer 50% das famílias no país podiam ser contadas agora como classe média, enquanto, em 1971, 61% tinham sido da classe média.

 

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A classe média americana nos seus dias de glória

É verdade que uma boa parcela de pessoas tinha saído da classe média para cima e não para baixo. Em 1971, 10% das famílias tinham pertencido à classe média alta e 4% à classe alta. Em 2015, 12% pertenciam à classe média alta e 9% à classe alta. Ou seja, a parte da população pertencendo às duas classes mais favorecidas tinha crescido de 14% do total em 1971 para 21% em 2015.

 

O arrocho estava acontecendo no outro extremo da escada. Entre 1971 e 2015, a classe média baixa continuou estável – ou, pelo menos, estável como uma porcentagem do total – a 9%. Com certeza, muitas pessoas pertencendo à classe média baixa em 2015 tinham pertencido à classe média (sem qualificação) antes. (A propósito, essa divisão da população em cinco classes, A a E, é uma invenção de marqueteiros brasileiros, especificamente a ABEP, a Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa. Não é usada nos EUA.)

 

Entre 1971 e 2015, a classe mais desfavorecida expandiu de 16% da população para 20% da população. E um outro indicador importante: o rendimento agregado da classe média tinha caído de 62% do rendimento agregado da nação em 1970, para 43% em 2014.

 

Foi nesse cenário que o Pato Donaldo entrou com a sua narrativa distópica. Tudo indo à merda. Devastação universal. Nos ouvidos dos milhões de mauricinhos e patricinhas em Nova York, da juventude dourada em Los Angeles e de muitas outras categorias de pessoas prósperas, ou quase prósperas, ou com boas expectativas de riquezas no futuro, EUA afora, a narrativa soava irreconhecível. Mas as pessoas que, no passado, tinham casas mas agora estavam dormindo nos seus carros ou que ainda tinham casas mas pulavam refeições por falta de um dólar no bolso, o Donald era o único candidato, democrata ou republicano, que descrevia essa realidade com exatidão. E é assim que a classe que mais garantia a estabilidade americana virou a classe mais revolucionária –porque às vezes a revolução não é progressista, é reacionária.

***

Sou da opinião de que é sempre melhor alargar o âmbito das nossas simpatias do que estreitá-lo, e com certeza essas pessoas que votaram em Trump – excluo os republicanos tradicionais, prósperos, ricos, que votaram nele por outros motivos – estão agonizando. Mesmo se ainda têm casas, carros e embarcações de recreio, os seus salários estagnaram. Seus cartões de crédito estão no limite. Não têm reservas para uma emergência. Mas confesso que não é sempre fácil simpatizar com elas.

 

Recorrentemente, os eleitores de Trump manifestam traços de racismo, machismo, misoginia, homofobia, xenofobia, tecnofobia, cienciafobia, e muitas vezes um fundamentalismo religioso cego e idiota. Muitos deles têm um lado admirável também. Como bombeiros, eles entram em prédios em chamas, com risco de perder as suas próprias vidas, para resgatar desconhecidos. Gostaria de dizer que, como policiais, eles fazem coisas comparáveis, mas é difícil elogiar os policiais americanos sem lembrar como eles às vezes usam pessoas de cor para o seu tiro ao alvo. Dentro dos grupos étnicos ou religiosos ou comunitários com os quais eles se identificam psicologicamente, essas pessoas são frequentemente generosas e prestativas. Mas é por isso que é tão difícil abraçá-las. Elas não têm uma visão cosmopolita que transcenda as fronteiras dos seus pequenos grupos, e é por isso que Hillary, num momento irrefletido, os caracterizou como deploráveis, e isso lhe custou. O rompante foi visto como uma expressão da arrogância típica das elites tão satisfeitas consigo próprias. E era.

 

Qual a solução para as classes antes abastadas (o suficiente), otimistas, felizes da vida (o suficiente) e agora estagnadas, preocupadas, pessimistas, zangadas?

 

Para uma parcela dos ultra ricos, acredite ou não, a solução é simplesmente . . . à merda com elas. Robert Mercer, o recluso bilionário co-CEO do fundo de investimento especulativo Renaissance Technologies, é frequentemente mencionado como a pessoa mais responsável – nos bastidores – pela vitória de Trump. Mercer não fala muito. Não fala com a imprensa. Diz-se que nem sequer fala muito em família. Mas um colega dele disse para o The Wall Street Journal que Mercer desdenha a chamada rede de segurança social. Acredita que as pessoas não têm valor intrínseco. O valor das pessoas é função do dinheiro que elas ganham e nada mais. Segundo Mercer, um gato tem valor porque proporciona prazer a seres humanos, mas uma pessoa que vive de subsídios sociais estatais tem um valor negativo. Uma posição extrema, é claro. Talvez não seja sequer exatamente a posição dele. Ninguém sabe ao certo. Mas outros Republicanos articulam posições só marginalmente menos extravagantes.

 

O partido democrata –de Barack Obama e dos Clinton, a centro-esquerda no contexto americano – também tem as suas peculiaridades e as suas limitações. Para lidar com os problemas da velha classe média deslocada e traumatizada pela globalização e robotização do planeta, os democratas propõem todo tipo de programa educacional. Muitos democratas gostariam de garantir uma educação universitária grátis para qualquer cidadão, como já é o caso em vários países europeus. Têm todo tipo de fórmula para reduzir o custo do ensino superior e para reduzir o fardo dos empréstimos estudantis já em vigor. Os democratas querem universalizar a pré-primaria. Nunca cansam de projetar novos programas de treinamento ocupacional, de reciclagem e de atualização profissional.

 

Na verdade, os dois presidentes republicanos antes de Trump – os dois George Bush – também atuaram na área de educação.

 

Não foi sempre assim esse entusiasmo pela educação. Li, recentemente, algumas 50 páginas de um livro chamado Educationalizing the Welfare State and Privatizing Education: the Evolution of Social Policy Since the New Deal. Digamos, simplesmente, educacionalizando o estado de bem-estar. (Pesquisei. A palavra educacionalizando é uma cunhagem recente em inglês; em português, também.) O argumento dos dois autores, Harvey Kantor e Robert Lowe: Durante a Grande Depressão da década de 30, os programas do então presidente Franklin Roosevelt combateram os problemas de pobreza e fome e abrigo diretamente – com salário mínimo, seguro-desemprego, benefícios de aposentadoria, expansão do direito dos trabalhadores de organizar e negociar coletivamente, etc. Foi somente na década de 60, durante a administração de Lyndon Johnson, com o conjunto de programas domésticos chamado de A Grande Sociedade, que começou a enraizar-se a idéia de que todos os problemas da sociedade – da desigualdade econômica ao alcoolismo – poderiam ser resolvidos pelas escolas.

 

É verdade que, durante a Grande Depressão, ninguém ainda tinha postulado que a sociedade em que vivemos fosse uma Sociedade de Conhecimento. Durante a esse período, e por muitos anos além, a prosperidade norteamericana ainda dependeu de estivadores (e não de guindastes e contêineres) e de cavadores e carregadores (e não de robôs). No Brasil, a situação era mais ou menos igual, e levou à Consolidação das Leis de Trabalho, em 1943.

 

No entanto, Kantor e Lowe – e muitos outros estudiosos – acham que estamos pedindo demais às escolas. As escolas sozinhas não podem diminuir as desigualdades de riqueza e de renda. Se tivessem essa capacidade, a desigualdade teria diminuído depois de mais de um meio século de educacionalismo. Aconteceu o contrário.

 

Não deveria surpreender que os engenheiros sociais do Partido Democrata tenham continuado a acreditar tanto na educação em todas as suas formas e modalidades. Eles devem o seu próprio sucesso à sua educação brilhante. Todo dia, eles se encontram com descendentes de escravos que, graças à educação, agora ocupam os cargos mais elevados no governo e na iniciativa privada. Na própria educação, também. Por que não funcionaria para todo mundo?

 

Não quero começar uma crítica prolongada dos programas bem intencionados dos engenheiros sociais. Mas vamos, por um momento, ponderar uma observação feita por Barbara Ehrenreich, uma autora extremamente persuasiva em questões dos trabalhadores nas margens da globalização, a respeito desses programas de reciclagem profissional que pretendem transformar um metalúrgico desempregado de 50 anos, por exemplo, num enfermeiro. Ela diz: “Não importa quão bom seja o programa de reciclagem profissional. A idéia de que as pessoas deveriam se adaptar e se reinventar face a cada oscilação do mercado de trabalho provavelmente não é realista e com certeza não é respeitosa com as habilidades e qualificações já adquiridas.” Uau! Vou citar no inglês original também: “No matter how good the retraining program, the idea that people should be endlessly malleable and ready to recreate themselves to accommodate every change in the job market is probably not realistic and certainly not respectful of existing skills.” É a verdade.

 

E aí veio Trump. Não sei quantas vezes já escrevi essas palavras nestas páginas virtuais. Aí veio Trump. Trump – ele mesmo bilionário e também republicano, embora de atributos nada convencionais – não disse, como o seu apoiador calado Mercer, que as pessoas em dificuldades deveriam ser jogadas aos lobos ou aos crocodilos ou aos urubus. Durante a campanha, ele até prometeu cuidados de saúde de primeira para todo americano e, embora não seja isso que ele agora está arquitetando, essa pelo menos era a promessa. Mas ele também não falava a favor desses programas de reciclagem profissional que transformariam homens, acostumados a trabalhar com coisas inanimadas como aço, em enfermeiros, fisioterapeutas e caixas de supermercado, talvez manicures. Até brincou com a idéia de eliminar o Departamento de Educação.

 

Na contramão dos engenheiros sociais e também dos darwinistas sociais, Trump prometeu trazer de volta os mesmos empregos industriais que os homens tinham no passado. Pura demagogia. Não pode acontecer num volume adequado para resgatar essa velha classe média. Mas alguém tem outra idéia?

 

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