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Deus no seu céu, Trump em Washington, e em Búzios . . . vereadores

O novo Hotel Trump em Washington. Catraca? Foto: Divulgação
O novo Hotel Trump em Washington. Catraca? Foto: Divulgação

Por Mark Zussman

Foto: Amigo Tilerson
Amigo Tilerson. Foto: Divulgação

Acordamos, nós, os americanos, sábado passado, e descobrimos que o governo dos EUA tinha se tornado, de noite para o dia, um subsidiário de propriedade integral das Organizações Trump – ou quase. Aparentemente, a ExxonMobil, o maior petroleiro do mundo ia participar como um acionista minoritário. Não é que ExxonMobil não tinha uma influência desproporcional nas deliberações do governo anteriormente. Para que existe um governo se não para prestar apoio às maiores empresas domésticas? Tanto nos EUA quanto no Brasil, as grandes empresas são, inclusive, os doadores mais importantes às campanhas eleitorais. Além disso, elas criam empregos e riqueza para todo mundo. É só que, no passado, os dois lados, governo e setor privado, tinham pelo menos a decência de fechar as cortinas durante as suas confraternizações e conluios. Agora, de repente, o setor público e o setor privado estavam transando energicamente, um com o outro, na praça central da república. Rex Tillerson, o presidente e CEO da ExxonMobil, com interesses comerciais e financeiros em dezenas de países, mundo afora, tinha sido selecionado como o próximo Secretário de Estado. Nomeação inédita. E havia outros novos acionistas minoritários de todos os tipos, alguns um pouco mais respeitáveis, outros menos respeitáveis.

O novo Hotel Trump em Washington. Catraca? Foto: Divulgação
O novo Hotel Trump em Washington. Catraca? Foto: Divulgação

Não vou mencionar todos, mas tenho um carinho especial para esse rapaz Puzder, Andrew Puzder, que será o novo Secretário do Trabalho, assumindo que o Senado confirme a nomeação. Ele é um bilionário que amealhou a sua fortuna graças a duas redes de comida rápida, Hardee’s e Carl’s Jr., que surgiram em terrenos baldios, em cidadezinhas basicamente fora do mapa, onde nem McDonald’s se deu ao trabalho de plantar a bandeira. Peixes que se alimentam no fundo. Eu já disse que Puzder será Secretário do Trabalho? Puzder é confessadamente oposto a qualquer aumento no salário mínimo.  Ele é famoso por ter dito a uma revista que, quando possível, ele sempre prefere empregar uma máquina ou um robô no lugar de uma pessoa porque se pode contar com os primeiros, a máquina e o robô, para “redirecionam o cliente a uma escolha mais cara e sugerirem itens adicionais para o cliente comprar.” Essas técnicas se resumem em inglês numa palavra só. Se chamam upselling. (O verbo: upsell. Sell é vender. Up é para cima.) Além disso, as máquinas e os robôs “nunca tiram férias”, o Puzder acrescentou. “Nunca chegam tarde. Nunca são vítimas de acidentes de trabalho. Nunca apresentam pedidos de indenização por discriminação de idade, sexo ou raça.” Secretário de Automatização, tudo bem, se houvesse. Mas Secretário do Trabalho?

O rei pode ter amigos? Foto: Divulgação
O rei pode ter amigos? Foto: Divulgação

Mas não vamos nos enganar. São as Organizações Trump que são, e serão, os acionistas majoritários. A Casa Branca tem um website. Na era Obama, já desaparecendo no retrovisor à velocidade da luz, o website tinha uma variedade de páginas sobre mudanças climáticas, sobre direitos civis para minorias, sobre a luta dos nossos irmãos e irmãs LGBT. No dia em que Trump tomou posse, todas essas páginas foram tiradas do website da Casa Branca. Trump ganhou a Presidência graças, entre outras coisas, à sua negação das mudanças climáticas. Segundo ele, toda essa subida das águas – que, entre outras coisas, ameaçava submergir a cidade de Miami – não era nada mais, nada menos do que um embuste dos chineses para enfraquecer a competitividade industrial e comercial americana. Ele fez tudo, durante sua campanha, para sinalizar que não daria carícias e cafunés nas minorias, como fazem os Democratas. Basta! Curiosamente, ele decepcionou a sua base fiel e conservadora num quesito para ela, a base, melindrosa. Ele disse que ele, pessoalmente, nada tinha contra o casamento gay. Mas, apesar disso, os gays acompanharam as minorias raciais e étnicas e as mudanças climáticas rumo à vala comum do website.

No lugar das páginas socialmente conscientes no website da Casa Branca, havia de repente uma página promovendo a joalharia comercializada pela primeira dama Melania. Mas, para fazermos justiça, temos que admitir que nem esse grupo de salteadores está absolutamente, totalmente, 110 por cento indiferente a opinião pública. Havia celeuma na Internet. Após algumas horas, os nomes comerciais das marcas foram discretamente eliminados. Mas o novo Trump Hotel, a poucos quarteirões da Casa Branca, continuaria a servir, aparentemente, como uma catraca para qualquer requerente procurando as boas graças da administração. Obrigatório, como tailandês ou brasileiro querendo abrir negócios com o governo americano, reservar uma suíte Presidencial no Hotel Trump e acumular uma dívida no restaurante e no bar? Não. Claro que não. Ninguém quer pensar que um Presidente bilionário poderia ser tão venal assim. Qualquer um poderá contornar a catraca. Mas essa dívida no bar prejudicaria a sua petição? Não, a nova administração já deixou claro que o tributo seria bem-visto.

Mas vamos deixar as Organizações Trump no seu devido lugar e voltar para as nossas queridas Organizações Tabajara.

Quero comentar uma coisa que Sandro Peixoto escreveu recentemente nestas páginas virtuais.

O Sandro estava lamentando o alto custo das nossas câmaras de vereadores. Ele disse, “As casas legislativas servem apenas para criar despachantes, coisa que a sociedade (grande parte dela) adora. Nada como ter um vereador amigo para liberar uma licença na praia, adiantar um habite-se, liberar o carro que foi rebocado, arrumar uma boquinha na prefeitura ou numa empresa terceirizada, uma obrinha desnecessária como uma Praça na Rua da Brava, etc.” O Sandro disse que, numa sociedade mais evoluída, os vereadores serviriam de graça e, para realizarem as tarefas essenciais de “fiscalizar o executivo e criar as leis necessárias para o conforto da sociedade”eles se reuniriam uma vez por mês e nada mais.

Tudo bem. Mas como é, então, que o sistema atual – tão ridículo e tão caro – se perpetua? Se perpetua porque, por um lado, as nossas burocracias governamentais a todos os níveis – municipal, estadual, e federal – aqui no Brasil são insensíveis, indiferentes, inertes. Quando não estão totalmente paradas, funcionam com a lerdeza de uma tartaruga. Os trâmites e a papelada para um cidadão resolver o mais trivial pepino perante a prefeitura ou a União são onerosos e vexatórios. Até uma pessoa racional, com anos e anos de ensino e uma variedade de práticas experimentadas e comprovadas para abordar um problema sistematicamente, pode às vezes ficar perplexa pelo labirinto de trâmites e exigências.

E, porque estamos falando aqui só entre nós, eu acho que podemos examinar, inclusive, o outro lado da moeda nacional. Um tempo atrás, eu fui consultar uma oftalmologista, a Dra. Selma. No muro, ela tinha dois quadros oculares – um com as letras do alfabeta em vários tamanhos, obviamente, e fora da sua ordem convencional, obviamente, e o outro com ícones como um gato, um garfo, um cachorro, uma colher, também em vários tamanhos.

“Para a criançada?” perguntei.

“Você ficaria surpreso,” ela disse.

Gente, uma população que não consegue nem ler direto, e para a qual as exigências da burocracia são ininteligíveis e, portanto, insolucionáveis sem intervenção por uma força maior, é inevitável o crescimento de um sistema de intermediários. Se não, uma grande parte da população só poderia se refugiar ainda mais na informalidade.

Um sistema de intermediários sempre vai surgir em terras onde o indivíduo não consegue resolver os seus problemas do dia-a-dia sozinho. Ao que eu saiba, a Igreja Católica move-se nos mesmos trilhos. Para quem acha o Ser Supremo remoto demais e insensível demais aos problemas do pobre indivíduo, a Igreja disponibiliza o intermediário da Virgem. Na melhor das hipóteses, ela vai cutucar o Ser Supremo em prol do requerente. E para quem hesita a incomodar a Mãe de Deus com os problemas e probleminhas do dia-a-dia, há uma grande tribo de santos também à espera na sala dos vereadores despachantes.

A máfia italiana nos EUA funcionava por muitas décadas de uma forma semelhante, e quem conhece essa máfia só através do cinema talvez não saiba desse papel importante que a máfia desempenhava. Durante o período “clássico”, entre 1890 e o fim da Primeira Guerra Mundial em 1917, mais ou menos 4 milhões de imigrantes italianos entraram nos EUA pelos grandes portos de Nova York, Boston e Filadélfia, e muitos deles eram camponeses. Chegaram mais ou menos diretamente das suas lavouras. Não somente não falavam inglês, a maioria não falava nem um italiano que seria entendido fora dos seus vilarejos. Se uma máfia italiana nunca se consolidou no Brasil como a máfia se consolidou lá, pode ser que a migração italiana rumo aos EUA tinha as suas origens predominantemente no sul da Itália. A migração italiana rumo ao Brasil tinha as suas origens no norte, no Vêneto. Outra cultura totalmente. De qualquer forma, era bem difícil para um camponês acertar o passo num lugar como Nova York no ano 1910. Nesta situação, a máfia deu uma ajudinha. A máfia resolveu os problemas do imigrante semianalfabeto com senhorios, com empregadores, com todo tipo de estorvo e dificuldade. Outro tipo de câmara de vereadores.*

Vou contar uma história. Alguns anos atrás, eu estava cruzando a Praça Santos Dumont, esbarrei no Sandro (Peixoto) e, numa conversa tão breve quanto todas as nossas conversas raras e breves, ele me disse que estava de saco cheio e pensando em sair de Búzios.

E aonde você iria? Perguntei.

“A Bázada,” ele disse.

“Aonde?” eu repeti.

“A Pa-sár-ga-da,” ele disse, esta segunda vez enunciando cada sílaba distintamente.

Eu sabia que Sandro era originário de Pernambuco.

“Em Pernambuco?”

Sandro riu e continuou no seu caminho.

Eu sei, é difícil resistir à tentação de fazer chacota do pobre estrangeiro desinstruído, com o seu sotaque esquisito, mas acontece às vezes que um estrangeiro desinstruído com um sotaque esquisito já passou uma grande parte da sua vida nos corredores subterrâneos das grandes bibliotecas do mundo, que esse estrangeiro tem curiosidade, tem bons hábitos e boas técnicas de pesquisa, e resolve suas dúvidas vapt-vupt. Inseri o nome Pa-sár-ga-da numa caixa de busca de Google Maps. Nada. Experimentei várias ortografias alternativas. Ainda nada. Esquadrinhei o mapa de Pernambuco à procura do lugar. Nada de novo. Digitei o nome numa caixa de busca normal. Encontrei o poema de Manuel Bandeira.

“Vou-me embora pra Pasárgada/Lá sou amigo do rei.”

Gostei do poema. Gostei muito. Me lembrou uma meia dúzia de poemas, totalmente diversos mas igualmente gostosos, em inglês – o “The Lake Isle of Innisfree” (“I will arise and go now, and go to Innisfree”),  de William Butler Yeats, o “The Garden” de Andrew Marvell e os versos medievais em que um bando de monges leva uma vida de luxo e dissipação num paraíso terrestre chamado Terra de Cokaygne. Só uma coisa. Quem é amigo do rei, como o poeta sonhando numa próxima viagem a Pasárgada, não precisa nem de um “vereador amigo” (na frase de Sandro) nem de um mafioso amigo nem de qualquer outro tipo de intermediário. Quem é amigo do rei é muito privilegiado. É VIP. Quem e amigo do rei não precisa de nada.

Tomara! Mas se o rei não é um verdadeiro rei e ele só finge ser o seu amigo?

Estou pensando de novo no meu país de origem – e o estranho e sinuoso e acidentado desvio em que ele acabou de entrar, semana passada. Vocês sabem, a vida lá sempre teve as suas agruras mas não – repito, não – principalmente por causa de uma burocracia especializada em trâmites labirínticos e, no momento em que se acha que se começa a ver um pouco de luz ao final do túnel, em sempre mais uma última exigência inesperada e, depois, mais uma. Não tem papelada lá – ou muito pouco. Não tem cartórios. Não tem despachantes. Não porque ninguém quer prestar o serviço de um despachante mas porque eles são desnecessários. Mas, então, como é que o país funciona? As assinaturas não têm que ser reconhecidas? Os documentos não têm que ser autenticados? Não. Quem quer mais detalhes pode me para na rua e perguntar. É só agüentar o sotaque.

As cidades nos EUA, sim, têm vereadores. Lá, se chamam normalmente city councilmen (ou councilwomen). Alguns deles são oportunistas. Alguns deles são corruptos. Mas, nas cidades que funcionam direto, eles fazem exatamente o que o Sandro acha que os vereadores deveriam fazer aqui no Brasil. Eles fiscalizam o executivo e criam as leis necessárias para o conforto da sociedade, e em muitas cidadezinhas eles servem sem remuneração. Há um buraco no pavimento da sua rua? Nas grandes cidades, cada councilman terá um assessor que atende às queixas do constituinte. Nas cidades do tamanho de Búzios, o próprio councilman atende. Mas eles não funcionam como despachantes para uma população analfabeta ou semianalfabeta que não consegue resolver os seus problemas pessoais perante o governo sozinhos.

Apesar de tudo isso, é uma lição da recente eleição lá nos EUA que milhões de americanos se encontram hoje em dia, e por um bom tempo já se encontravam, numa sinuca. Se sentem lesados. Não têm os bons empregos que tinham no passado. Não têm os salários que tinham no passado. Ou, se têm os mesmos salários ou salários semelhantes, não têm o poder de compra. Culpam a globalização. Mas, na ausência de uma tradição de intermediários entre o indivíduo e o estado, essa população não sabia para onde exatamente se virar para pedir ajuda. Com certeza, não para os councilmen (os vereadores) ou para quaisquer outros políticos convencionais. Hillary deu a impressão que ela nem reconhecia a amargura de uma população, predominantemente branca, que tinha bons empregos na indústria num passado recente e agora passa uma boa parte do dia repondo garrafas de refrigerantes nas prateleiras de uma loja de conveniência.

E, finalmente, um Salvador se apresentou. Era remoto, esse Salvador. Claro que era remoto. Ele morava numa cobertura de três andares no topo de um prédio localizado num dos quarteirões mais valorizados no centro da cidade mais rica do reino e circulava num avião quase tão luxuoso do Air Force One do Presidente. Era o rei. Mas era familiar também.

Ele não falava como um político convencional, este Salvador. Nos discursos e nas falas, ele usava exatamente o linguajar exagerado, meio-incoerente e chulo dos marmanjos que bebem cerveja no bar da esquina num sábado à noite. E falava zangadamente e não observava as regras da correção política. “O país está quebrado”, ele bradou, “e só eu posso concertá-lo.” Além disso, ele tinha se apresentado num reality show na televisão por uma década, entrou toda semana na sala de estar de um grande número dessas pessoas alienadas e desamparadas, e por isso um grande segmento da população o conhecia tão intimamente quanto os brasileiros conhecem Faustão e Silvio Santos. Ele era um amigo. Um amigão. Ele prometeu nunca decepcionar. Falava com a paixão que parece garantir a sinceridade. Quem votasse nele seria amigo do rei.

Hmmmm. Amigo do rei. Um rei pode ter amigos? Talvez em Pasárgada. A maioria dos reis tipo Trump só tem cortesãos, bajuladores, capangas e carrascos.

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