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A Cigarra e a Formiga ( versão buziana)

a-cigarra-e-a-formiga

Por Sandro Peixoto

a-cigarra-e-a-formigaJurema era uma formiga saúva. Nativa da cidade de Campos, morava em Búzios desde os 14 anos, quando seus pais trocaram – à convite de um candidato a vereador – a cidade natal pela nossa. Trabalhava de dia na Praia da Azeda vendendo roupas e a noite, distribuía convites na porta de uma boate. Sua labuta começava as sete da manhã e só findava depois da meia-noite. Dormia pouco, comia mal. Tudo para juntar grana e quem sabe, comprar um terreninho numa nova invasão que surgiu no bairro da Vila Verde.

Já Karla era uma linda cigarra. Argentina de nascimento, se radicalizou em Búzios depois de conhecer o Brasil por inteiro como Hippie. Diferente de Jurema, de quem era vizinha na Vila Caranga, passava o dia inteiro na praia, principalmente na Azeda, tocando violão, comendo peixe frito e tomando cerveja, geralmente as custas de outros gringos. Era uma vida maravilhosa. Sol, praia, música, comida e bebida de graça. De vez em quando rolava uma graninha, que usava para pagar o aluguel da quitinete onde dormia.

Jurema com sangue nos olhos a tudo assistia e odiava Karla, mais ainda pois a mesma só a cumprimentava no bairro aonde moravam. Na Praia, fingia que não a conhecia.

-Deixa estar- resmungava baixinho.

-Quando o inverno chegar, ela vai me procurar para pedir dinheiro, uma xícara de café ou quem sabe um cigarrinho.

E eis que o verão acabou mais cedo que o previsto. O carnaval caiu no começo de fevereiro e as aulas começaram logo após. A cidade ficou as moscas e as praias idem. Durante a semana na azeda haviam mais ambulantes que turistas. Jurema ainda conseguia uma graninha. Karla já não tinha para quem tocar. Os frequentadores assíduos do lugar achavam suas músicas repetitivas, sem graça, e ainda por cima odiavam, seu sotaque portenho/carioca. Ao que parece só quem apreciava mesmo eram os gringos, e mesmo assim, depois bêbados.

Uma noite chuvosa, Jurema estava em casa tranquila, sentada num confortável sofá tomando um bom vinho chileno, assistindo um filminho na Netflix quando de repente escuta alguém batendo a sua porta.

-Já  sei! Deve ser a vagabunda daqui do lado. Com certeza está dura. Veio pedir cigarros, açúcar,café, etc. Um caralho que vou dar alguma coisa pra essa piranha.

A formiga vai até a porta e ao abri-la, sua certeza se confirma: lá estava a cigarra com a mesma cara de sonsa de sempre. Batom vermelho/puta, cigarro aceso já pela metade no canto da boca e um decote que quase mostrava os mamilos. Parecia ainda mais vulgar.

-Oi querida. Tudo bem contigo? Você tem um tempinho para mim?

A formiga suspirou fundo, juntou as mãos, estalou os dedos e foi direto.

-Eu já sei por quê a senhorita está aqui. Eu esperei por esse dia o verão inteiro. Enquanto ralava, enquanto queimava meus pés na areia quente ouvindo cantadas baratas dos maconheiros da Azeda. Eu trabalhando feito uma condenada e você lá, cantando, bebendo e fumando. Não juntou dinheiro e agora está aqui, para pedir algum favor né? O que a madama deseja? Açúcar, café, cigarros? Tem não queridinha. Vá bater em outra porta.

– Não é nada disso!, retrucou a cigarra.

-De onde você tirou tanta besteira?Amor, passei para me despedir. Amanhã cedo parto para a Europa. Vou fazer shows em alguns bares na França. Primeiro Paris e depois sigo para o Mediterrâneo. Conheci um francês da Azeda e ele gostou do meu estilo. Do meu repertório. Quer investir em mim. Vou ganhar em Euros.

A formiga com o queixo quase no chão perguntou:

França? Paris?

-É, respondeu a cigarra. Quer alguma coisa de lá?

-Quero sim, respondeu a formiga.

Se você encontrar por lá um tal de La Fontaine manda ele para a puta que o pariu.

A Cigarra e a Formiga ( versão buziana)

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Por Sandro Peixoto

a-cigarra-e-a-formigaJurema era uma formiga saúva. Nativa da cidade de Campos, morava em Búzios desde os 14 anos, quando seus pais trocaram – à convite de um candidato a vereador – a cidade natal pela nossa. Trabalhava de dia na Praia da Azeda vendendo roupas e a noite, distribuía convites na porta de uma boate. Sua labuta começava as sete da manhã e só findava depois da meia-noite. Dormia pouco, comia mal. Tudo para juntar grana e quem sabe, comprar um terreninho numa nova invasão que surgiu no bairro da Vila Verde.

Já Karla era uma linda cigarra. Argentina de nascimento, se radicalizou em Búzios depois de conhecer o Brasil por inteiro como Hippie. Diferente de Jurema, de quem era vizinha na Vila Caranga, passava o dia inteiro na praia, principalmente na Azeda, tocando violão, comendo peixe frito e tomando cerveja, geralmente as custas de outros gringos. Era uma vida maravilhosa. Sol, praia, música, comida e bebida de graça. De vez em quando rolava uma graninha, que usava para pagar o aluguel da quitinete onde dormia.

Jurema com sangue nos olhos a tudo assistia e odiava Karla, mais ainda pois a mesma só a cumprimentava no bairro aonde moravam. Na Praia, fingia que não a conhecia.

-Deixa estar- resmungava baixinho.

-Quando o inverno chegar, ela vai me procurar para pedir dinheiro, uma xícara de café ou quem sabe um cigarrinho.

E eis que o verão acabou mais cedo que o previsto. O carnaval caiu no começo de fevereiro e as aulas começaram logo após. A cidade ficou as moscas e as praias idem. Durante a semana na azeda haviam mais ambulantes que turistas. Jurema ainda conseguia uma graninha. Karla já não tinha para quem tocar. Os frequentadores assíduos do lugar achavam suas músicas repetitivas, sem graça, e ainda por cima odiavam, seu sotaque portenho/carioca. Ao que parece só quem apreciava mesmo eram os gringos, e mesmo assim, depois bêbados.

Uma noite chuvosa, Jurema estava em casa tranquila, sentada num confortável sofá tomando um bom vinho chileno, assistindo um filminho na Netflix quando de repente escuta alguém batendo a sua porta.

-Já  sei! Deve ser a vagabunda daqui do lado. Com certeza está dura. Veio pedir cigarros, açúcar,café, etc. Um caralho que vou dar alguma coisa pra essa piranha.

A formiga vai até a porta e ao abri-la, sua certeza se confirma: lá estava a cigarra com a mesma cara de sonsa de sempre. Batom vermelho/puta, cigarro aceso já pela metade no canto da boca e um decote que quase mostrava os mamilos. Parecia ainda mais vulgar.

-Oi querida. Tudo bem contigo? Você tem um tempinho para mim?

A formiga suspirou fundo, juntou as mãos, estalou os dedos e foi direto.

-Eu já sei por quê a senhorita está aqui. Eu esperei por esse dia o verão inteiro. Enquanto ralava, enquanto queimava meus pés na areia quente ouvindo cantadas baratas dos maconheiros da Azeda. Eu trabalhando feito uma condenada e você lá, cantando, bebendo e fumando. Não juntou dinheiro e agora está aqui, para pedir algum favor né? O que a madama deseja? Açúcar, café, cigarros? Tem não queridinha. Vá bater em outra porta.

– Não é nada disso!, retrucou a cigarra.

-De onde você tirou tanta besteira?Amor, passei para me despedir. Amanhã cedo parto para a Europa. Vou fazer shows em alguns bares na França. Primeiro Paris e depois sigo para o Mediterrâneo. Conheci um francês da Azeda e ele gostou do meu estilo. Do meu repertório. Quer investir em mim. Vou ganhar em Euros.

A formiga com o queixo quase no chão perguntou:

França? Paris?

-É, respondeu a cigarra. Quer alguma coisa de lá?

-Quero sim, respondeu a formiga.

Se você encontrar por lá um tal de La Fontaine manda ele para a puta que o pariu.

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