O barro, matéria-prima presente na história de diversas comunidades tradicionais brasileiras, voltou a ocupar lugar de destaque na vida de mulheres quilombolas e marisqueiras da Região dos Lagos. Teve início mais uma edição do projeto Somos Divas na Luz do Candeeiro, iniciativa que utiliza a cerâmica como ferramenta de fortalecimento cultural, valorização da identidade feminina e preservação de saberes ancestrais.
Neste ano, participam mulheres dos quilombos de Botafogo e São Jacinto, em Cabo Frio, além de marisqueiras da Rasa, em Búzios. Ao longo dos próximos três meses, as participantes terão aulas práticas de cerâmica na Casa Museu Carlos Scliar, em Cabo Frio. Após a etapa de formação, as atividades continuarão dentro das próprias comunidades, estimulando a continuidade do aprendizado e o desenvolvimento da produção artesanal nos territórios.
Criado em 2020, o projeto se consolidou como uma iniciativa voltada à valorização de conhecimentos transmitidos entre gerações, especialmente entre mulheres que mantêm viva a relação com práticas tradicionais ligadas à terra, ao mar e à cultura popular.
Para muitas participantes, o contato com a cerâmica vai além do aprendizado artístico. É também uma forma de resgatar histórias familiares e fortalecer vínculos com as próprias origens.
Moradora do Quilombo de Botafogo, Larissa Fernandes vê na iniciativa uma oportunidade de dar continuidade a conhecimentos que ouviu desde a infância.
“Cresci escutando minha mãe e minha avó contarem histórias sobre nossa cultura. Poder aprender essa tradição na prática e transmitir esse conhecimento para as próximas gerações tem um significado muito importante”, relata.
Na Rasa, a marisqueira quilombola Rosineide Santos também reconhece a ligação entre o trabalho com o barro e a história de sua família.
“Minha avó trabalhava com construções de barro. Eu já tive contato com esse material, mas quero aprender mais e aperfeiçoar essa prática. É algo que faz parte da nossa trajetória”, afirma.
Além da preservação cultural, iniciativas desse tipo também são vistas como instrumentos de fortalecimento comunitário e potencial geração de renda por meio do artesanato tradicional.
A Região dos Lagos abriga comunidades quilombolas reconhecidas por sua relevância histórica e cultural, além de grupos tradicionais ligados à pesca artesanal e à mariscagem. Projetos voltados à valorização desses saberes vêm ganhando espaço nos últimos anos como forma de preservar patrimônios imateriais e fortalecer identidades locais.
Ao transformar o barro em peças carregadas de significado, as participantes também ajudam a manter viva uma herança cultural construída muito antes do desenvolvimento turístico da região.



