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Jornalista de Campos relata em livro internação para tratamento de alcoolismo

Obra foi escrita inteiramente à mão enquanto os fatos se desenrolavam e reúne histórias demasiadamente humanas de outros dependentes de álcool, drogas, jogos e até de sexo
Mais do que um testemunho, “Garrafas ao mar” é o registro de alguém que precisou perder o chão para reaprender a caminhar / Crédito da Imagem: Ricardo Pereira
Mais do que um testemunho, “Garrafas ao mar” é o registro de alguém que precisou perder o chão para reaprender a caminhar / Crédito da Imagem: Ricardo Pereira

Na história do jornalismo, grandes repórteres se notabilizaram pela cobertura de guerras, esquemas de corrupção ou até pela poesia escondida num buraco na esquina. Mas poucos foram até o inferno de si mesmo para dissecar, com crueza e coragem, seus próprios demônios, como faz o jornalista campista João Paulo Arruda em seu segundo livro “Garrafas ao mar – Diário de um repórter internado para tratamento de alcoolismo” (Máquina de Livros), que será lançado neste sábado (30/05), às 16h, na Academia Campista de Letras.

Escrito durante 110 dias de internação em uma clínica no Rio de Janeiro, “Garrafas ao mar” reúne crônicas viscerais e sem autocompaixão, nas quais João Paulo Arruda expõe os fragmentos de sua própria queda e narra o processo de reconstrução de uma vida. Sem poder usar computador, pelas regras da clínica, a obra foi escrita inteiramente à mão – ainda trêmula pela abstinência – e em tempo real, enquanto os fatos se desenrolavam: os detalhes da rotina, a convivência com pacientes e as histórias demasiadamente humanas de outros dependentes de álcool, drogas, jogos e até de sexo.

– Não escrevi os textos imaginando que publicaria um livro. Foi como se eu estivesse jogando garrafas ao mar, uma forma de reconexão comigo mesmo.

Nascido em Campos, criado no Parque Rosário e com uma infância dedicada ao Farol de São Thomé, João Paulo Arruda começou a carreira no extinto jornal A Cidade e em seguida na Folha da Manhã. Ainda jovem, saiu do Norte para a cidade grande: radicado no Rio há quase 30 anos, atuou em importantes redações cariocas como O Dia e Extra. Começou a admitir que precisava de ajuda no início de 2024, aos 48 anos. Andava cambaleante, tinha crises de sonambulismo e sofria apagões em casa e na rua. Chegou a se internar duas vezes naquele ano, mas enxergava o tratamento apenas como uma etapa a ser cumprida. Recaiu, seu desempenho profissional piorou e foi demitido do jornal onde trabalhava há mais de duas décadas.

– Mergulhei na depressão e na autopiedade. Fiquei um mês deitado na rede da sacada, bebendo desesperadamente. A essa altura, eu já era conhecido como o bêbado do bairro – relembra, até ser levado por um amigo e a namorada a uma nova internação, desta vez encarada com humildade diante do reconhecimento de que estava doente e a morte era iminente: – Hoje, tenho consciência de que serei alcoólatra para o resto da vida. A doença é tão terrível que, mesmo estando bem, às vezes confundo paz com pasmaceira.

Mais do que um testemunho, “Garrafas ao mar” é o registro de alguém que precisou perder o chão para reaprender a caminhar – como fizeram em 2024 mais de 350 mil brasileiros, quase 10 vezes a população de São João da Barra, que se internaram por problemas relacionados ao alcoolismo, segundo relatório do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool. “Limpo” desde setembro do ano passado, João sobreviveu para contar, retomou sua carreira de jornalista e traz agora um relato corajoso sobre a luta contínua contra os próprios demônios à espreita em cada esquina.

“Garrafas ao mar” já está em pré-venda na Amazon e chega às melhores livrarias do país na segunda quinzena de maio, com lançamento simultâneo em e-book em mais de 20 plataformas digitais. Este é o segundo livro de João Paulo Arruda: o primeiro, “José Gilson Contra o Trovão”, lançado em fevereiro de 2023, reúne 17 contos e crônicas que têm, em sua maior parte, o Rio de Janeiro como palco, e a juventude em Campos como arcabouço de sentimentos para nortear histórias que vagueiam entre o cotidiano e a fé (ou a falta dela). O livro conta com ilustrações do designer Lionel Mota e é também uma homenagem póstuma ao seu pai, José Gilson, que dá nome ao livro.

Sandro Peixoto

Sandro Peixoto, jornalista, cronista de Búzios, foi repórter em O Perú Molhado

Octavio Raja gabaglia

Octavio Raja Gabaglia, o carismático Otavinho, é um nome que ressoa nas praias, encostas e telhados de Búzios. Esse arquiteto genial, conhecido pelo bom papo e pela mente afiada, conseguiu, com engenhosidade, domar os ventos, convidar a luz do sol para habitar as casas com gentileza, além de convencer a paisagem exuberante a fazer parte de sua obra.

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