Diário do Fim do Mundo #14 – Por Sandro Peixoto (Ele)

Búzios, 7 de abril de 2020

“Vamos Jesus, passar a Semana Santa em Búzios.”, disse o diabo. “Não quero ir, lá estão escondendo informações sobre casos confirmados de Covid-19”, respondeu Jesus.

Sempre fui ateu. Desde pequeno.  Aos 12 anos me convenci ainda mais dos meus conceitos ao ver o pároco da minha cidade instalando não um, mais dois para- raios nas torres dos sinos da igreja  matriz. 

Nasci no Recife, mas morei por um bom tempo na cidade de Goiana, distante 60 km da capital, na BR 101. Goiana deve ter umas 15 imponentes igrejas. A população é (era) quase que completamente  católica.

Minha não-crença era solitária. Nem tinha com quem discutir minhas teses. Não tinha nenhum amigo ateu ou sequer agnóstico. Muito menos na família.

Sou ateu, mas nunca ousei dizer que Deus não existe. No máximo, digo que não acredito. Afirmar que Deus não existe é  tão arrogante quanto afirmar que existe. 

Mas nesse momento pandemia, onde a ciência deveria ser o norte para qualquer movimento em busca da cura, tratamento ou proteção dos que se encontram em riscos, escuto a cada segundo que Deus ira resolver tudo. 

Quando não o contrário! Que por causa do nosso carnaval Deus mandou o Corona para dar uma lição e mostrar quem manda nessa bagaça. O vírus surgiu em 2019 ( por isso a doença se chama Covid19) e o carnaval só aconteceu em fevereiro, então, temos um problema cronológico.

Outra coisa: porque diabos esse suposto deus, puto da vida por ter assistido na Rede Globo um Jesus negro sambando criaria um vírus para matar primeiramente chineses, italianos, espanhóis, franceses, iranianos, americanos e finalmente brasileiros?

A ser verdade esse deus seria um demônio. 

Por isso, indo contra tudo que acredito, resolvi entrevistar Deus. Liguei mas ele não atendeu. Na certa não reconheceu meu número. Nunca liguei pra ele mesmo. Resolvi apelar. Liguei para o diabo. Afinal ele também é  filho de Deus. Deve manter contato. 

Belzebu atendeu ao primeiro toque. Por isso é bom manter as amizades. O diabo se mostrou tranquilo e se disse surpreso por não ter levado a culpa pelo Corona  vírus.

“Tenho que agradecer principalmente  aos e evangélicos. Aquele povo que me ama. Se não fossem eles me tratando como celebridade  nos cultos eu seria muito menos desconhecido. Aliás, os cristãos em geral são parceiros. Me fizeram famoso no mundo inteiro. “

Me pareceu que o Diabo estava com  tempo e com crédito no celular pois seguiu falando.

“Colocam muitas coisas nas minhas costas. Infelizmente  não tenho uma bíblia para me defender nem mesmo igrejas ou um Papa. Sou injustiçado. Dizem que eu criei o rock! Eu adoro rock, mas não criei. O pagode, o funk e o brega, esses sim, são ideias minhas. Assim como o Bolsonaro.”

Perguntei ao Diabo se ele podia fazer uma ponte entre eu e Deus. Precisava  fazer  umas perguntas.

Sandro é articulista e cronista de Búzios e com seu humor peculiar narra sua aventura de ver Búzios de uma forma até então nunca vista/ Prensa

Você quer falar com meu pai? Logo você  que não acredita nele!”

Pois é. Acontece que com essa história de pandemia tem muita  gente me perguntando como tudo começou, quanto tempo vai durar, etc. Eu respondo o que sei, mas tem muita gente teimando que só Deus sabe. Então resolvi perguntar diretamente a quem manda. 

De repente o diabo parou de falar e Deus entrou na linha. Não entendi nada. Mesmo número? 

E então Deus falou:

“NÃO PRECISA PERGUNTAR NADA. EU SEI O QUE VOCÊ QUER SABER E NEM LIGO SE VAIS OU NÃO, ACREDITAR EM MIM. DIGA AOS IDIOTAS PARA ACREDITAREM NA CIÊNCIA. PEÇO QUE PAREM DE ME PERTURBAR. NÃO TENHO CONTROLE SOBRE NADA, NEM QUERO TER. É CADA UM POR SI. SE EU TIVESSE CONTROLE SOBRE ALGO NA TERRA FARIA O BOTAFOGO SEMPRE CAMPEÃO.  SOU TORCEDOR DESDE A ÉPOCA DO GARRINCHA.”

Em seguida desligou na minha cara. Que coisa.  Era pra ser uma entrevista  com Deus, e o diabo acabou falando mais. Uma coisa ficou clara. O diabo tem mais consideração comigo.

Este é um artigo de opinião de responsabilidade do seu autor e não representa necessariamente a opinião do Jornal.

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