João Pedro Portinari conta que foi atacado por um tubarão em Búzios e sobreviveu

Em seguida, sua nadadeira, saindo da água, bateu na minha vela que, ainda nas palmas das minhas mãos, caía sobre nós. Pude ouvir o estrondo da batida; levado pelo tubarão, parti para o que acreditei ser meu último mergulho.

João Pedro Portinari Leão, empresário e sobrinho neto do pintor Cândido Portinari, publicou no site da Lu Lacerda um trecho do sua autobiografia “A Isca” (Editora Edite) em que conta, entre outras histórias, que foi atacado por um tubarão nas águas do mar de entre Búzios, na Região dos Lagos. O livro será lançado no dia 9 de março, na livraria Argumento, no Leblon, Zona Sul do Rio.

Pedro é empresário e frequentador de Búzios/ Reprodução Site Lu Lacerda

Confira o relato

Antes de sair para velejar na praia de Manguinhos, em Búzios (RJ), naquele dia 20 de abril de 1997, eu tinha um plano: ir distante da praia e depois passar o dia velejando mais perto, arriscando umas manobras, mas continuei me afastando de Búzios. Continuava planando por cima da água, seguindo os arrepios de vento na superfície do mar, e conectava uma rajada à outra para manter a velocidade da velejada. Meu equipamento estava perfeito para aquelas condições. Eu quase não fazia força, apenas me equilibrava.

Velejava há 35 minutos em uma linha reta, me afastando da costa, o que me colocava a aproximadamente 25 quilômetros (em um ângulo de 60º em relação à praia) de onde eu tinha saído, na praia de Manguinhos. A terra mais próxima nesse momento era a de Unamar, a uns 15 quilômetros à esquerda. Era para lá que o vento me levaria caso alguma parte do meu equipamento quebrasse. Essa possibilidade não era tão ruim.

Eu velejava paralelamente à foz do rio Una, rumo à foz de outro rio, o São João. Essa mistura de água doce e salgada atrai muita vida marinha, o que inclui tubarões. Todo o norte fluminense é famoso por seus cações, ainda que sempre longe da praia, e Búzios não foge à regra.

Já estava muito distante de terra quando resolvi voltar. “Será que arrisco o jibe ( mudança de direção)?”, pensei. Em 80% das vezes, eu optava por entrar na água, ainda mais com a prancha nova com a qual ainda não estava acostumado; mas esse era meu dia de sorte. Resolvi arriscar o jibe.

Deixei o corpo leve e fui acompanhando o movimento; completei a manobra. Estava de pé, na prancha, com a vela na mão, apontando para a terra, mas fiquei sem velocidade, e minha prancha começou a afundar. Eu acabara de ficar num buraco de vento — a mesma onda que me empurrou para completar a manobra criou uma parede, bloqueando o vento na sequência.

Eu tinha duas opções: inclinar a vela para frente e ganhar pressão, correndo o risco de ser catapultado, com uma bela chance de me machucar ou quebrar meu windsurfe, ou entrar na água, levando a vela junto comigo, confortavelmente, sem nenhum risco. A segunda opção seria, certamente, a maneira mais tranquila de sair daquela situação.

Era só a ação de entrar na água por frações de segundos, para aliviar o peso da prancha e deixar o vento me puxar de volta para cima. Quando estivesse no topo da próxima onda, já estaria velejando de novo. Decisão tomada, estiquei o braço de trás para liberar o vento, tirei o pé da prancha e entrei na água. Imediatamente, senti uma batida na minha perna. “Caramba! Bati em alguma coisa!”. Em seguida, um puxão tão violento quanto inesperado me levou para debaixo d’água. Não tive dúvida!

Não fiquei assustado ou desesperado. Foi matemático como um mais um é igual a dois. Tive certeza de que iria morrer –  seria rápido e sem sofrimento. O tubarão veio de baixo para cima, do fundo do oceano, e abocanhou minha perna, segurando-a com seus dentes e rasgando minha pele.

Em seguida, deu um golpe de corpo, mudando sua direção em 180 graus, numa espécie de “jibe submerso”. Vi um pedaço do seu dorso passando na velocidade de uma bala bem na minha frente. Em seguida, sua nadadeira, saindo da água, bateu na minha vela que, ainda nas palmas das minhas mãos, caía sobre nós. Pude ouvir o estrondo da batida; levado pelo tubarão, parti para o que acreditei ser meu último mergulho.

De repente, o tubarão me soltou, provavelmente desistiu da sua presa fácil por medo da prancha. Eu me vi numa poça de sangue, em mar aberto, a quilômetros da praia. A partir dali, comecei a velejada mais importante da minha vida. ‘Já sei! Estou sonhando, estou sonhando!’ Foi esse meu primeiro sentimento assim que comecei a velejar de volta à vida. Não acordaria daquele pesadelo. Um casal encostado em um carro na praia Rasa me salvou. Não lembro o nome deles tampouco suas feições, mas sou eternamente grato. Com muito esforço, velejei até a beira da praia. Fui engatinhando, dando braçadas, avançando como conseguia sobre a areia fofa e pesada daquela parte da praia, até entrar no campo de visão deles.

Com muito esforço, consegui me levantar, mas dezenas de pontos brilhantes invadiram minha visão. Berrei para os dois. ‘Socorro! Tubarão!’. Estava imundo de areia e sangue. Eles me levaram até a casa de um amigo, que me levou até a Clínica Búzios, e ali recebi os primeiros socorros. Depois foram longos três meses para pôr o pé no chão e mais 10 meses para me recuperar totalmente. Ganhei uma cicatriz que virou meu carimbo do mar e a chance de reviver!

Gostou da história? Compre o livro e leia ainda mais sobre as aventuras de João Pedro Portinari Leão em “A isca” (Editora Edite) que será lançado dia 9 na Livraria Argumento, Leblon, zona sul do Rio.

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