Nega maluca ou travesti: Bora pular carnaval?

É carnaval e a caminhada breve, é um “rio que passou em minha vida” e que rapidamente “o sol estava quente e queimou a nossa cara”…

Por Sara Wagner York

Então aproveite e se jogue nas folias deste carnaval, seja nos blocos, grupos, parques e salões de sua cidade, ou na cidade onde estiver, faça tudo e esteja feliz, com duas máximas na cabeça, respeito e responsabilidade.

É muito comum vermos nos blocos e nos salões duas fantasias recorrentes e naturalizadas pelos foliões, a “nega maluca” e “Os travestis” (forma errônea de dizer sobre a identidade trans, mas aqui me refiro a homens vestidos de mulher e não as mulheres trans e as travestis).
Dai você pergunta, como diferenciar A travesti de O travesti?
Primeiro que não é da sua conta a vida do sujeito ou sujeita em questão, a menos que você queira um algo mais, e nesse caso o melhor é começar (com respeito) perguntando o nome e não o que uma pessoa tem entre as pernas, né!?).

A professora, mulher trans, e ativista Sara Wagner escreve na Prensa/ InfoPrensa

Em vários momentos assistimos nos noticiários, no ano passado, o modo como ocorre a ação letalizante do estado junto a alguns grupos. Jovens negros e negras, crianças negras mortos, homens trans em situação de estupro e mulheres trans ou travestis, todos vitimas de atos criminosos e de ódio, que vão desde ser impedidas e impedidos de usar o banheiro até serem mortas e mortos (aproximadamente 123 casos catalogados pela ANTRA em 2019).

Sendo a maior parte da população brasileira negra, como sabemos, as agências e televisão nacional, por anos invisibilizaram esta informação quando não apresentavam nossas representações. Somos pobres, negros, latinos e periféricos que em grande maioria crescemos acreditando ser a classe média -representada nas novelas da Globo – branca, americana e moradora da zona sul carioca. E o resultado era uma tv aberta e uma mídia que (não muito diferente de 2020) era representada apenas por sujeitos brancos, cisgêneros e heterossexuais.

Assim a “nega maluca” foi uma dessas formas que o racismo, chamado de recreativo, fez se piada nas mãos daqueles que estando assentados em seus lugares de poder (e muitas vezes sem pensar seus privilégios, numa sociedade complexa como a nossa) se davam ao luxo de brincar com características de alguns grupos subalternizados (lidos como menores) em práticas recreativas, mas que ao final transformava as vidas destas pessoas (negrxs/LGBTIs) em um grande momento de inferiorização e deslegitimação.

“O travesti”, termo que nunca deve ser usado, por remeter sempre, algum membro pertencente a identidade de gênero feminina – dAS travestis – à ridicularização, é outra “fantasia” favorita de muitos homens para o carnaval. Ou seja, eles saem dos seus lugares de privilégios e se fantasiam de mulheres, trazendo para o salão o melhor do esteriótipo feminino. Ano passado eu encontrei um menino vestido de vestido branco curtíssimo e um travesseiro vermelho na região genital, que ao pedir uma selfie, revelou me estar “menstruado”.

Homens fazendo piadas para outros homens, sobre mulheres, até quando?

Por que usar a “nega maluca” ou se “vestir de mulher” no carnaval? Você de fato, acha pessoas pretas engraçadas, por serem pretas?

O Mapa da Violência mostra que enquanto o homicídio de mulheres negras experimentou um crescimento de 54,2% entre 2003 e 2013, no mesmo período, o homicídio de mulheres brancas caiu 9,8%. Não bastasse a violência contra si, a mulher negra também experimenta com maior intensidade a violência contra seus filhos, irmãos e companheiros. De acordo com o Mapa da Violência de 2012, dos cerca de 30 mil jovens entre 15 e 29 anos assassinados por ano no Brasil, 93% são homens e 77% são negros.https://anistia.org.br/o-racismo-nosso-de-cada-dia-e-situa…/

O sujeito da “brincadeira de carnaval”, acha engraçado ser mulher no 5° país que mais estupra e violenta e mata mulheres?

O Brasil é o 5º país no mundo – em um grupo de 83 – em que se matam mais mulheres, de acordo com o Mapa da Violência de 2015, organizado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso). Entre 2003 e 2013, o número de mulheres mortas em condições violentas passou de 3.937 para 4.762 – o que representou 13 feminicídios por dia –, registrando um aumento de 21% na década. Para as mulheres negras, o índice foi ainda pior: os homicídios, nesse caso, aumentaram 54,2% no mesmo período, passando de 1.864 para 2.875 vítimas. https://www.unifesp.br/…/2589-brasil-e-o-5-pais-que-mais-ma…

Ou ainda ser travesti no país que mais mata pessoas trans no mundo?

Pesquisa da ANTRA lançada por ocasião do dia Internacional de Combate a LGBTIfobia aponta que 99% da população de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e intersexos (LGBTI) não se sente segura no Brasil. https://antrabrasil.files.wordpress.com/…/dossic3aa-dos-ass…

Se, em 2020, o sujeito acha graça nessas fantasias, ele precisa rever vários de seus conceitos.

A “cabeleira do Zezé”, que sempre foi ofensiva, legitimou a expulsão de vários gays e pessoas trans de suas casas, por que “ao final do carnaval”, as famílias sentiam vergonha de seus filhos, baseando se nas piadas recreativas. Que sujeito nascido no século passado, nunca frequentou o baile e cantou, “zuando os amigos”? Essa prática tem nome: homofobia e transfobia, e é crime!

A “Mulata Bossa nova” ou “O seu cabelo não nega mulata!”, hits do século passado, violentaram muitas mulheres negras, enquanto os machões, a grande maioria do proletariado que sonhava ser uma classe média, curtiam seu carnaval em “família” e “as escondidas” exotificavam, inferiorizavam e objetificavam os corpos dessas e de tantas outras mulheres que consideravam “para o uso” e não para exposição social.

Aquele sujeito que acha que as empregadas domésticas, as bichas, as travestis e negras, podem ser submetidas ao seu folclore e entretenimento pessoal, dizia sem pensar, “que respeito é bom. Nós dizemos, respeito é bom e TODO MUNDO (inclusive as domésticas que vão pra Disney) gosta!

Vestir de mulher ou pintar se de negro no carnaval?
PARE, isso NÂO É FANTASIA DE CARNAVAL são identidades letalizadas no Brasil por quem não pensa!

Penso, logo existo!
Em 2020, penso, logo divirto-me!!!

Sara Wagner é  professora, pesquisadora e ativista transsexual. Escreve na Prensa.

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