Bumbos, caixas, silêncios, sorrisos e tristezas

3h15 da manhã o som para no baile. Não é ação policial, é luto. Logo, logo a música voltaria e luto é vivenciado na dança, no sorriso, na dispersão da sensação de errante pelo Estado, pela sociedade. Alguma história de um enterro com batuque, cachaça e malemolência pra lembrar? Maneiras de lidar com a dor, apenas isso.

Torpor que se mostra na ineficiência de abordagem a uma parte significativa da juventude, aquela herdeira dos pedreiros, serventes, motoristas, empregadas, ferreiros, cozinheiras, ambulantes, viventes, retirantes. A truculência cognitiva no seu limite de lidar com os corpos, além do respiro e manuseio de ferramentas capazes de modificar realidades.

Entre a omissão do ensino de cálculo no Ensino Básico e o entendimento corpóreo da quantidade de batidas por minuto, os desviantes ousam a conjugar o verbo de combate a barbárie daqueles que comandam a gestão pública, daqueles que se consideram parecidos com um espantalho, numa plantação, espantando corvos e promovendo boas colheitas.

A percepção dos gestores sobre como lidar com os indesejados assemelha-se a maçãs podres numa ceia orquestrada para comemorar mais um ano de lucros, propinas e intenções de voto na cidade com ruas esburacadas, trânsito lento e pessoas aglomeradas na busca da promoção pra se comprar alimentos ultraprocessados.

Entre os olhares, comoções, mortes e projeções, o vácuo de se realmente transformar realidades a partir de pessoas reais se torna cada vez mais ilusório. Pessoas reais são pessoas cujo olhar é constantemente marejado por um parecer, por um projeto de lei, por uma ação institucional, por uma reportagem enviesada e pela mais eficaz das condutas: a invisibilidade.

Os invisíveis inventaram a roda, construíram os alicerces, limparam os salões, costuram as roupas. Conhecem as batidas do tempo, do coração, das quadras e das ruas. Ainda não dominam os algoritmos, mas tecem as linhas da vida para que aqueles que mandam, continuarem a acreditar que são representantes da alta: cultura, intelectualidade. Seres divinos com pavor de perderem suas cadeiras que foram montadas pelos invisíveis.

No País democrático em que mais se concentra renda, a indisciplina e a indocilidade são propagandas eficazes para se tentar exterminar jovens ou jogá-los numa zona cinzenta e débil, em que nenhuma batalha valha a pena ser lutada. Tentam narrar a sua história, tentam mediar a sua palavra. A democracia coloca perversos no poder.

Quais são as ferramentas as mãos para sermos boas pessoas? A memória tenta se dissolver, mas o corpo ainda balança, o corpo ainda emerge do rio de bactérias produzidas pela famigerada política pública. Por mais que se camuflem dados, as paisagens são reconfiguradas na crueldade da punição iminente.

Não temos o direto de nascer, crescer e morrer de acordo com a teoria biológica. Nesse intervalo ainda sorriremos, ainda amaremos, ainda gritaremos e ainda revelaremos que a atual política é contra nossa emancipação. Não há manipulação de percepção, nem batidão o suficiente pra se ir contra…

*Fábio Emecê é mc, ativista anti-racista, poeta e professor de Língua Portuguesa da Rede Estadual de Ensino.

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