Búzios completa 24 anos, e eu, sou só amor

Em 2017, auge de um golpe político que tirou uma presidenta eleita do poder, eu escrevi um texto no facebook, que desde então, retorna às minhas memórias e me coloca em posição de reflexão acerca dos rumos que minha vida tomou desde então.

Antes de qualquer reflexão o reproduzo aqui:

12 de novembro de 2017 às 21:05Armação Dos Búzios

Senta que lá vem textão!

Ano passado eu estava grávida do Lucas quando a #Dilma foi impichada. O meu marido era editor em um jornal em Macaé, carteira assinada e direitos. Eu, estava na assessoria de imprensa e tinha quatro clientes, bons clientes. Nossa vida estava estável, e eu esperava ter muito sossego na reta final da gravidez e no primeiro ano do bebê.

Foi só mudar o governo pra esse Temeroso nos atolar em problemas, foi uma cascata:

– De carteira assinada, o marido teve que assinar contrato de prestação de serviço. Rescisão paga em 3 vezes, e um serviço combinado não pago. Tudo com atraso e virando uma bola de neve nas nossas contas. Com um bebê de cinco meses.

– As minhas assessorias de imprensa e marketing digital, três eram de candidatos a cargos eletivos, que trataram de esquecer que me conheciam no dia seguinte às eleições, e todo o trabalho profissional e correto que fiz durante pelo menos 1 ano com cada um, foi esquecido. A quarta assessoria já esperava, pois era a única comercial.

– No mês de maio, não tivemos nenhum provento, se não fossem os cartões de crédito, teríamos feito não sei o que. Mas eles tinham limite, acabaram e nossos nomes estão no SPC, óbvio.

Nos dias atuais vivemos dos poucos anúncios que temos no site. Mas não desistimos. Mas porque estou contando isso? Para chegar nesse momento, hoje, no Supermercado:

R$9 reais no bolso, um saco de pão e dois sabonetes( um para os 4 e outro para o bebê) porque sem sabonete e pão não dá. Fome e fedor acabam com um ser humano.

Senti vontade de chorar ali mesmo, no corredor, mas estava com o bebê e o filho mais novo e um marido cabisbaixo. A dor nos atingiu de forma dura e certeira. Voltamos para casa em silêncio.

Não somos os mesmos desde que um bando de gente sem escrúpulo e a troco de seus próprios interesses desestabilizou um país inteiro e colocou a minha família nessa situação, e a de muitas outras pessoas. Funcionários que não recebem salários, famílias desempregadas, de volta ao mapa da fome, de volta à pobreza extrema. Esse é o Brasil dos ‘camisa amarela da CBF’, e sou eu quem estou pagando o pato.

Sou parte das estatísticas. Nos jogaram aqui nesse momento, e estamos enfrentando, com dignidade e luta, porque somos de luta. E vamos vencer. Certamente não com a ajuda de um monte de “amigos”, “parceiros”, “camaradas”, “amigões”, que nos dizem NÃO sem a menor cerimônia.

Enquanto observo gente que recebe e não trabalha, gente sem talento e sem nenhum profissionalismo ocupando espaços por serem bajuladores ou coniventes com a corrupção. Porque nesse caminho, já mais de uma vez sutilmente entre os dentes, recebi propostas para criar fakes, espalhar boatos, publicar inverdades. Sim! E a minha resposta sempre foi um sonoro NÃO! NÓS FAZEMOS TRABALHO PROFISSIONAL, e SÓ!

Vejo gente esbarrando com a gente na rua e se encolhendo de vergonha, por nunca mais ter nem passado a mão no telefone para saber se precisávamos de alguma coisa. As mesmas que frequentavam nossa casa, nossa vida.

Tô me expondo aqui pra ver se essa cidade de uma vez por todas finda essa hipocrisia em que vivemos. Aqui meu bem, não tem nada de friendly, é cada um por si e meu prato de lentilhas primeiro. A gente segue trabalhando, mas buscando sempre pra fora, porque aqui amigos, tá osso!

Um beijo para os que são parceiros de verdade e em nenhuma linha dessas que escrevi com o coração sereno, se viram, aos que lêem e vestiram a carapuça, só lamento! Talvez haja tempo.”

Muito difícil ler esse texto, tão bem escrito e cheio de detalhes sem sentir a pele queimar com quentes e grossas lágrimas. Mas elas são de gratidão. Às pessoas, todas que estão na minha vida hoje. Que me abrem portas hoje. Aos que caminham ao meu lado, enquanto cresço como profissional, hoje em outra cidade.

Hoje estou ainda me reerguendo, trabalhando na minha profissão, e tentando reorganizar uma vida que tinha em 2016. A sensação que tenho é de que tudo ruiu para ser reconstruído em seguida, em outra perspectiva. Ainda lembro do medo de ter apenas 9 reais no bolso, e carrego esse trauma ainda não curado. Quem sente dor, não esquece.

Sempre que vejo, leio ou ouço alguém tentando diminuir a minha história, lembro desses dias e sigo em frente, porque pouquíssimos conhecem ou sabem a história, seguraram na minha mão ou choraram comigo.

Sou grata a tudo que Búzios me proporcionou, nesses últimos 14 anos de vivência com o Victor, 24 de emancipação e 28 de caminhadas na Orla Bardot com 10,11, 12 anos. Íamos, eu, minha esteira, minha mãe e minha irmã, para chegar à praia Azeda, enquanto cantarolava até enlouquecer minha mãe – “Quem dera ser um peixe, para em teu límpido aquário mergulhar”.

Obrigada Búzios, por me ajudar a ser quem eu sou, e contar as história sobre você, como conto. Não sinta ciúmes de Cabo Frio, eu ainda te amo!

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