Tecno Otimismo: A Nova Ética Protestante

ou As aventuras de Max Weber no Vale do Silício

Toda mudança significa, ao mesmo tempo, uma janela de oportunidades, mas também o surgimento de problemas que antes não existiam. É uma realidade da qual não se pode escapar. É ingenuidade supor que a mudança, quando ocorrer trará somente coisas boas, a isso chamamos de “utopia”, ou seja, algo que a rigor, não existe em nenhum lugar, a não ser em nossa imaginação e em nossos corações. No entanto, nem toda mudança é totalmente negativa, e por isso não devemos nos enganar a ponto de acreditarmos que vamos viver no pior dos mundos. A isso chamamos de ‘distopia”, também um não lugar, que geralmente está localizado somente em nossos pesadelos.

Ambas as coisas nos são apresentadas nos dias de hoje. De um lado, as promessas da inteligência artificial, da robótica, das viagens espaciais infundem em nós um tipo de otimismo no qual viveremos em um futuro livre de todos os males, posto que a Tecnologia será capaz de redimir se não todos, a maioria dos nossos males. Essa atitude tem sido chamada de “tecno otimismo”, ou seja, a fé algo ingênua, de que bastam a Ciência e a Tecnologia para salvar o mundo da fome, do aquecimento global, da desigualdade e das guerras.

Se fôssemos localizar geograficamente a capital do “tecno otimismo”, com certeza, o ponto a ser indicado no mapa seria aquela região da Costa Oeste dos Estados Unidos, mais precisamente na Califórnia, que chamamos de ‘Vale do Silício”.

Talvez em nenhum lugar do mundo esteja mais arraigada a crença de que a tecnologia, quando bem usada, pode ser usada como uma ferramenta para “consertar o mundo”.

Um dos lemas da Google, a gigante da internet é justamente “Don’t be Evil”, quer dizer, “Não faça o Mal”, ou melhor, o grande negócio é “fazer o bem”. É preciso ter estado lá, pelo menos por algum tempo, para se dar conta de que isso não é apenas um slogan motivacional, destes que a gente encontra nos livros de autoajuda em encontros de empresas. O Vale do Silício é um pedaço do mundo onde a maioria das pessoas realmente acreditam que não existe conflito entre ganhar dinheiro criando coisas que de alguma maneira resolvam os problemas das pessoas.

Para compreender isso, é preciso fazer quase que uma imersão em uma cultura movida a tecnologia, inovação e dinheiro, muito dinheiro. Eu recomendaria a todos os que pudessem ter a oportunidade de viajar aos Estados Unidos, estando na Califórnia, deixarem um pouco de lado o papel de “turista” ( vá lá, eu sei que é difícil), e procurar agir como se fosse um “antropólogo” improvisado.

Este antropólogo, ao invés de embrenhar-se em alguma região afastada do mundo, em busca de uma tribo que ainda não entrou em contato com a ‘civilização”, teria como “campo de análise”, a ultrassofisticada região do Vale do Silício.

Ao fazer esta ‘imersão” agindo ao mesmo tempo como um “nativo”, mas também como um “observador engajado”, um “Malinovski improvisado”, o que descobriremos? Bem, vamos lá.

Em primeiro lugar, vamos perceber que lá, nesta “tribo” do Vale do Silício, ao contrário do que pode parecer, há um forte culto religioso. Este culto não possui “templos”, nem “sacerdotes” ordenados, muito menos um “livro sagrado”, mas seus seguidores são tão fervorosos em suas crenças quanto um católico convicto. Mas que culto seria este? Basicamente, seria a profunda crença de que o uso da Tecnologia é uma ferramenta para proporcionar prosperidade, inclusão e oportunidade para as pessoas.

Essa crença não é pode ser compreendida sem levarmos em consideração de que ela, de alguma maneira, é uma versão modificada e atualizada de uma antiga tradição que os primeiros colonizadores americanos trouxeram, quando chegaram da Europa. Pode parecer paradoxal, mas de alguma maneira, o vocabulário, as atitudes e as iniciativas de muitas pessoas que vivem e trabalham no vale do Silício são muito, mas muito parecidas com aquelas que moldaram as vidas dos colonos americanos.

Ali na Califórnia é possível perceber que para os americanos, a tecnologia é compreendida como uma maneira dele americano, conseguir autonomia e controle sobre sua própria vida, sem depender de outras pessoas ou mesmo do “Estado”.

Quer dizer, a tecnologia que se produz ali, no Vale do Silício pode ser a mais sofisticada que conhecemos, mas os valores que estão “por baixo”, que sustentam as decisões daquelas pessoas que ali trabalham são muito, muito antigos. Mas isso é algo que só nos damos conta quando temos alguma informação histórica sobre a maneira como aquele país foi colonizado, e também quando por algum momento testemunhamos ao vivo, como “as coisas funcionam por lá”.

Escrevo estas coisas em uma tentativa de colocar no papel uma experiência que sempre me causou muito interesse, a de tentar traduzir os valores de uma cultura estranha à minha. Sim, é claro que se quisermos entendermos a tecnologia que se produz no Vale do Silício como mais uma etapa do Capitalismo de nos explorar, vamos perceber que de uma certa maneira, essa tese está correta. Sim, o Google não é uma instituição de caridade, ele é hoje uma das empresas capitalistas mais bem-sucedidas da história, e o Vale do Silício é um lugar de competição feroz.

Mas eu creio que de alguma maneira, Max Weber tinha razão, quando escreveu “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, ele queria entender ‘o equipamento mental”, o “software” que o capitalista trazia em sua cabeça, e que o impulsionava a sempre buscar mais e mais o lucro.

Creio que de certa maneira, foi o que me guiou nessa “tecno etnografia”, quer dizer, compreender a “ética”, o conjunto de valores por trás das pessoas e das empresas que são responsáveis pela parte mais moderna, rica e dinâmica do Capitalismo no século XXI.

Se pudesse resumir essa mentalidade em uma palavra, eu poderia arriscar o “Tecno Otimismo”, um conjunto de crenças e atitudes que não necessariamente “de Esquerda”, ou de “Direita”, pelo menos da maneira como compreendíamos estes termos nos séculos XIX e XX.

Eu acho que Max Weber iria se interessar muito em conversar fiado com alguns engenheiros no Vale do Silício, e quem sabe, talvez entrasse na folha de pagamento do Google ou do Facebook.

*Paulo Roberto Araújo é professor de História e suburbano convicto

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