Nosso Desemprego

Por que a "Política" é o menor de nossos problemas?

Há alguns dias atrás, uma reportagem do Diário de Pernambuco sobre desemprego, onde estava escrito que 70% do “Desemprego por desalento” no Brasil, estava concentrado nos Estados da região Nordeste. O “desemprego por desalento” significa que o trabalhador desistiu de procurar emprego, após ter tentado, sem sucesso, por mais de um ano. Mas como chegamos a este ponto, posto que há alguns atrás atrás, vivíamos uma situação de quase “pleno emprego”.

De maneira geral, entre todos os que votaram nas últimas eleições no candidato Fernando Haddad, a “culpa” por todas as mazelas do Brasil, e em especial a grave crise econômica que o Brasil vem enfrentando desde 2014, deve-se pura e unicamente, ao “Golpe de Estado”, desfechado inicialmente para impor à Presidenta Dilma Rousseff, que terminou em seu impeachment, em 2016, e posteriormente, na eleição de Jair Bolsonaro. Percebe-se claramente a existência de uma narrativa que atribui a causalidade da crise econômica e por extensão ao desemprego à instabilidade política provocada pela queda de Dilma Rousseff e pela ascensão de um candidato populista de direita, como Jair Bolsonaro.

Por outro lado, existe uma narrativa que atribui as origens desta crise à sucessão de erros, casos de corrupção e equívocos realizados pelos sucessivos governos do PT, desde a eleição de Lula, em 2002. O aumento do desemprego, por exemplo, segundo esta narrativa “antipetista”, é que as políticas adotadas sobretudo por Dilma Rousseff foram cruciais para o agravamento da crise econômica. O principal argumento desta narrativa é que Dilma Rousseff, ao assumir a Presidência da República pela 2ª vez, em 2014, a economia brasileira amargava uma taxa de desemprego que já batia nos 12%, ao passo que quando Lula entregou a faixa presidencial em 2010, o desemprego era menor do que 5%.

Desde então, o desemprego passou a ser uma das principais preocupações do brasileiro comum, ao lado da Segurança. Temos portanto, duas “grandes narrativas” que servem como estrutura para que os fatos e os dados sobre a economia e o desemprego sejam escolhidos, de acordo com as posições ideológicas de cada uma das correntes, ainda em disputa.

Dependendo de sua posição política, “centro”, “esquerda’, ou “direita”, a “narrativa” sobre as causas do desemprego pode escolher determinados fatos e fatos, em detrimento de outros, de maneira que estes acabem se ajustando à visão de mundo e crenças políticas dos diferentes grupos em disputa.

Em um ambiente político altamente polarizado, é muito fácil atribuir as causas do desemprego a esta, ou aquela posição/partido político. Na verdade, o debate público sobre as causas do desemprego pode ser considerado um dos vários níveis de debate sobre as razões e as soluções para o desemprego.

Mas então, me dei conta de que um assunto como este poderia perfeitamente entrar uma sala de aula. Fiquei imaginando como fazer uma conexão entre “a Sala de Aula”, e o mundo de fora deste ambiente.

Bem, eu começaria mais ou menos assim:

Sim, a Revolução Industrial nos ajuda a compreender a Automação no Mundo trabalho do Século XXI

A Revolução industrial é um termo que engloba um conjunto de mudanças tecnológicas, econômicas e culturais de escala continental, iniciando-se na Europa nos séculos XVIII e XIX, mas que depois se espalharam pelo mundo.

Geralmente, este processo é descrito como tendo a principal característica a substituição do trabalho artesanal pelo assalariado, e o uso intensivo das máquinas. Isso é o que praticamente os todos os alunos ouvem nas aulas de História neste país, mas a coisa é um pouco mais complicada. Essa definição leva a uma série de mal entendidos, a primeira deles é acreditar que antes desta “Revolução Industrial”, não havia trabalho assalariado, o segundo é que o emprego de máquinas foi uma decorrência direta desta “industrialização”.

O trabalho assalariado e o uso intensivo de máquinas na produção tiveram a suas utilizações potencializadas em uma escala até então sem precedentes, com o advento da “Revolução Industrial”, mas estes dois elementos, a mecanização e o trabalho assalariado já existiam, mas não em uma escala que levasse a uma mudança social e econômica qualitativa. Basicamente, este é um caso onde é possível compreender que uma mudança qualitativa, o surgimento de uma sociedade industrial e capitalista, foi uma decorrência de uma transformação quantitativa, ou seja, o aumento no número de máquinas empregadas na produção mudou completamente o cenário da economia, um caso típico em que “mais é também diferente”.

Se empregamos cada vez mais máquinas no processo de trabalho, isso não significa somente “mais máquinas”, mas uma nova forma de trabalho, totalmente diferente daquilo que existia anteriormente. Podemos pensar um paralelo entre os primeiros anos desta revolução Industrial, e os dias de hoje.

Quando as manufaturas fabricavam peças de vestuário, a produção, assim como o preço das peças dependia diretamente da capacidade destas manufaturas atenderem à demanda. Mas a mecanização do trabalho têxtil mudou isso de maneira radical. A substituição do trabalho artesanal pelo mecânico, elevou a quantidade da produção em uma escala inédita. Não eram apenas “mais tecidos no mercado” para serem vendidos, era uma coisa muito diferente.

O mesmo acontece no século XXI. Um robô em uma linha de produção de uma fábrica ou outra, tem um determinado impacto no mundo do trabalho, mas quando os robôs passam a figurar em praticamente todos os lugares, tornando-se quase onipresentes, então, o mundo do trabalho será transformado inteiramente.

Este gráfico conta a seguinte história: ele mostra a quantidade robôs empregados nas indústrias de 4 grandes economias industriais do mundo, a China, a Coreia do Sul, o Japão, os Estados Unidos e a Alemanha.

Ele mostra claramente que atualmente a China é a maior exportadora/fornecedora de robôs do mundo. Ao mesmo tempo, o gráfico faz uma expectativa do crescimento do uso de robôs em unidades industriais.

Em 2013, segundo os dados da Federação Internacional de Robótica eram fabricados anualmente 178 mil robôs. Em apenas 7 anos, ou seja, em menos de uma década, entre 2013 e 2020 este número saltará para 521 mil robôs, um crescimento de quase 300%! Agora, pensemos no seguinte: atualmente, as taxas de crescimento populacional, em todo o mundo, estão com uma projeção para a tendência de declínio, no entanto, a população que mais cresce no mundo hoje é exatamente a de robôs.

Na verdade, a “Revolução Industrial” voltou a ser tema quente exatamente porque estamos passando pela maior mudança da indústria, em mais de 100 anos. Muitos empregos domésticos evaporaram com a Globalização, e a automação ameaçam substituir mais trabalhadores, todos os dias, e isso significa que a maneira como construímos e entregamos os bens e produtos que alimentam nossas economias e nossas vidas nunca mais será a mesma.

Atualmente, o Brasil enfrenta uma das mais graves crises de desemprego de sua história. Embora os especialistas afirmem de pés juntos, que está havendo uma recuperação, ele tem sido tão lenta que não tem sido suficiente para diminuir na população, a sensação de que as coisas vão de mal a pior. Ao mesmo tempo, a parcela da população mais atingida pelo desemprego é exatamente, a população mais jovem, aquela que possui hoje entre 18 e 30 anos. Ainda nem sequer tocamos na delicada questão da substituição dos empregos por robôs e algoritmos. O que aconteceria em uma economia como a brasileira, se além da crise desemprego, outra mudança social que seria o aumento da automação no trabalho, diminuísse ainda mais as já débeis perspectivas de encontrar emprego?

Nos Estados Unidos, assim como na Europa, as empresas estão pagando enormes salários a profissionais que trabalhem com Inteligência Artificial. Ao que parece, a IA realmente está começando a sair do restrito ambiente dos laboratórios de pesquisa e entrando agora no mundo corporativo.

As aplicações da IA para fins comerciais só crescem a cada ano, o mesmo se pode dizer com os lucros das empresas que investem nestas tecnologias.

Não resta dúvida que a Inteligência Artificial vai interferir profundamente no mundo do trabalho, em todos os aspectos. Uma das facetas mais visíveis destas mudanças está no mercado de trabalho. Profissões inteiras estão fadadas a desaparecer, segundo os prognósticos de especialistas mais pessimistas. Outros, no entanto, alegam que a IA abrirá uma gama de outros empregos que compensará a perda dos antigos postos de trabalho.

Esta discussão, embora muito atual, guarda uma grande semelhança com aquilo que se debatia nos primórdios da Revolução Industrial. Afinal, a indústria era boa ou má, perguntavam todos na Inglaterra, o primeiro país a passar por estas mudanças.

A relevância da Revolução Industrial não se resume apenas a conhecer os fatos que deram origem a este processo, mas sim estabelecer uma possível conexão entre aquele contexto específico e o atual.

Corrida de Obstáculos, ou uma Escola de Costas para o Século XXI

O ENEM é um dos maiores concursos públicos do país, perdendo talvez apenas para a Olimpíada Brasileira de Matemática, a OBMEP. No início, ele era chamado pejorativamente de “Provão”, boicotado sistematicamente pelas universidades públicas e pelos estudantes. No fim dos anos 90, não fazer o “Provão” era um emblema de protesto contra a “política neoliberal e privatizante do Governo Fernando Henrique Cardoso”.

É uma coisa bem interessante a memória nacional. Com o tempo, fazer o ENEM, deixou de ser uma “capitulação aos ditames da educação privatizante”, para se transformar em um símbolo do acesso de amplas parcelas da população brasileira ao Ensino Superior. Isso tudo é História e um dia vou escrever um pouco mais sobre isso. Mas este texto não trata bem disso.

Na prática, pode-se considerar o ENEM um gigantesco concurso público do país e dependendo da carreira almejada, um dos mais disputados também. Comparado aos vestibulares que tive que prestar para entrar em uma universidade, a prova atualmente é infinitamente superior. Mesmo assim, o acesso à universidade pública continua restrito. Arrisco afirmar que hoje este acesso seja até mais difícil do que antes. Explico. A resposta começa não quando os portões se abrem para os candidatos prestarem o ENEM, mas bem antes

A coisa começa no Ensino Fundamental, nas séries que hoje correspondem aos 6º e 9º anos. Uma turma que inicia o 8º ou o 9º ano, é muito menor do que aquela que começou o 6º. Evasão escolar, repetência (hoje conhecida pelo eufemismo de “distorção série-idade”), vão deixando pelo caminho um número considerável de alunos. Esses, muito provavelmente, só voltarão à Escola muitos anos mais tarde, quando já adultos. Em algumas escolas não é raro haver dificuldade para formar turmas dos anos finais do Fundamental, simplesmente porque aqueles que ficaram pelo meio do caminho são em número muito maior do que os aprovados.

Isso significa que o sistema escolar brasileiro, embora tenha praticamente universalizado o acesso à Escola, não conseguiu eliminar o problema da evasão escolar e da repetência (prefiro o termo antigo mesmo). O resultado é que mesmo com todos os seus problemas, o Ensino Médio ainda é acessível a um número pequeno de alunos, se compararmos com os números daqueles que ingressam no Fundamental. Ou seja, “a boca do funil” até aumentou de largura, posto que o acesso ao Ensino Fundamental se democratizou mas, lá no final, a saída deste funil continua estreita.

O sistema educacional brasileiro atualmente possui quatro níveis, o Infantil (0 a 6 anos); o Fundamental (7 a 14 anos), o Médio (15 a 17 anos); e o Superior (18 a 25 anos). Segundo dados dos censos escolares as matrículas na Educação Básica, ou seja, Fundamental e Médio abarcam a maior parte das vagas escolares, sendo que deste total 60,6% estão concentrados na etapa fundamental. De cada 10 crianças no Brasil estudando em alguma série do Fundamental, pelo menos 8 estão em alguma escola pública dos mais de 5600 municípios do Brasil.

Olhemos esta realidade mais de perto. Se a maioria dos jovens brasileiros está matriculada em alguma escola pública, é válido supor que esta permanência terá um impacto bem sério no acesso ao Ensino Superior, certo? Ou seja, na prática, o simples fato de estudar em uma escola pública, para a grande maioria das crianças brasileiras já é um fator importante, no sentido de determinar as oportunidades que esta pessoa terá ao Ensino Superior, e também fora da Escola.

Imagine que todos os anos que um jovem brasileiro passa em uma Escola podem ser comparados a uma carreira, como ser um militar, um médico ou um advogado que começam como ‘novatos”, e vão gradativamente ‘progredindo” nessa carreira. De certa maneira, o percurso que uma pessoa faz desde o Ensino Fundamental ao Curso Superior pode ser comparado também a uma carreira. Agora imaginemos que este percurso seja idealmente percorrido em um período de tempo esperado. Existe gente que percorre este trajeto antes do tempo, mas a grande maioria o faz em períodos de tempo muito além do “esperado”.

Se esse percurso não é realizado na idade esperada, então ocorre aquilo que atualmente é chamado de “distorção Série-Idade”, que na prática corresponde a um desvio deste percurso. Há alguns anos, essa distorção recebia o nome de “repetência”, ou seja, a permanência do aluno em uma determinada etapa de sua vida acadêmica. Por um lado, a distorção idade série é um indicador do desempenho do aluno dentro do sistema educacional. Mas, olhando mais de perto, como agora tenho a oportunidade, pode-se perceber que a distorção idade-série, ou simplesmente “repetência”, é um fenômeno bem mais complexo. Ele revela a maneira como o aluno percorre o sistema, o que ele enfrenta pela frente.

Esta “distorção série-idade” sempre foi entendida a partir de uma lógica estritamente “acadêmica”, ou seja, “Por quê motivos Joãozinho não passou de ano”? Bem, ele não passou de ano simplesmente porque não alcançou o mínimo exigido para que ele passasse para uma nova etapa de seus estudos. A questão toda reside em saber as causas deste fenômeno.

Foi no final dos anos 60 e início dos anos 70, que estema deixou de ser apenas uma preocupação de “educadores”. Ele passou a ser estudado também por sociólogos, economistas, entre outros, com o objetivo de entender os seus determinantes. Nos anos 70, estudiosos como o sociólogo José Pastore e o economista Claudio Moura e Castro, dentre outros, já apontavam como as duas maiores deficiências do sistema educacional brasileiro, a repetência e a evasão escolar.

Mas porque a preocupação com a repetência? Eu creio que compreendemos melhor um problema científico quando contextualizamos as perguntas a ele pertinentes, em um período específico. Nessa época, início dos anos 70, o Brasil era governado por uma ditadura militar que implementou uma série de mudanças profundas na Educação.

Acreditava-se que a criação de um sistema de educação de massa superaria os inúmeros atrasos que a economia brasileira enfrentava para se desenvolver plenamente. A escola pública deixava, desde a LDB de 1971, algo exclusivo de poucos. Do ponto de vista sistêmico, a educação básica tinha uma taxa muito baixa de inclusão, além de um alto número de repetência e evasão. Essas taxas, embora altas, apresentam variações regionais, mostrando índices mais altos no Nordeste. Mostra também como está distribuída espacialmente a desigualdade na educação. Depois de meses trabalhando em escolas municipais percebo que o fenômeno da distorção série idade é mais rural do que urbano, mais concentrado nas escolas públicas do que nas privadas, e assim por diante. Não sei, mas me parece que a distorção série idade é algo cujos determinantes estão mais “fora” da escola do que dentro.

O governo do Estado do Rio de Janeiro, decidiu diminuir a distorção série-idade, com projetos como o Acelerando, Correção de Fluxo, etc., são na verdade, medidas paliativas que apenas mascaram a origem do problema.

Para o Poder Público, a evasão e a repetência são problemas contábeis, na medida em que isto implica em mais custos para o Estado. Os programas de aceleração do aprendizado começaram a ser implementados no Brasil desde a década de 1990. Mesmo assim, eles não conseguiram diminuir a alta taxa de repetência.

Não é à toa que o simples diploma do Ensino Médio, para muitos ainda é uma grande conquista, e isso vale tanto para os adultos quanto para os mais jovens. Um estudo de dois pesquisadores investigou se era viável o sistema de ensino superior brasileiro continuar a investir na criação de novos cursos de Engenharia. A conclusão foi um redondo NÃO. Segundo os autores do estudo, não valia a pena investir em novos cursos de Engenharia, simplesmente porque não haveria alunos suficientes para irem à Universidade. A maratona anterior ao ENEM, aquela responsável por deixar uma grande parte dos alunos para trás no ensino fundamental foi mais seletiva do que o próprio ENEM.

Por isso, quando a imprensa mostrar aquelas reportagens de alunos zumbis que não dormem há semanas, de aulas que varam a madrugada, embaladas por professores igualmente zumbis, é bom levar em consideração que nesta corrida de obstáculos, a grande parte dos competidores já ficou para trás, antes mesmo de ser dado o tiro de largada. Ainda estamos muito, mas muito longe mesmo da realidade vivida por muitos países, onde quase metade da população já foi para uma universidade.

Segundo cálculos de economistas, para dobrarmos o número de estudantes universitários, ou seja, para que o número de pessoas entre 18 e 30 anos deixe os minguados 10% atuais para apenas 20% seriam necessários mais 15 anos de investimento em educação básica. Ou seja, somente em 2030, 2040 teríamos um número de estudantes universitários parecido com o que os Estados Unidos tiveram na década de 1920. Na prática, um século de atraso. Quando os portões forem abertos no Domingo, talvez essa imagem fique como uma metáfora da corrida de obstáculos que este país ainda tem de percorrer, antes de fazer valer o slogan de que somos uma Pátria Educadora.

*Paulo Roberto Araújo é professor de História e suburbano convicto

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