O Passado é uma Arma Quente

A muito antiga e sempre eficaz sedução de Cavaleiros, Cruzes e Impérios

Nos anos 70, um John Lennon apaixonado por Yoko Ono disse que o “Amor era uma Arma Quente”. Parafraseando Lennon, poderia dizer que “o Passado é uma Arma Quente”. A percepção de que o uso do “Passado”, ou melhor, a sua reconstrução é uma poderosa arma de propaganda política é mais antiga do que podemos supor. E o uso desta manipulação, desta reconstrução do passado, foi largamente aplicado, seja por governos de “Esquerda”, seja por outros de “Direita”. Alguns exemplos ajudam a entender isso melhor.

Quem tem medo de uma Cruz em Chamas? Como surgiu a Ku Klux Klan

Desfile da Ku Klux Klan em Washington D.C., 1926. Não, nem sempre a “Klan” vestiu branco e seus membros cobriam seus rostos.

Nosso primeiro ponto de chegada é os Estados Unidos do período de “reconstrução”, aquele período histórico posterior à Guerra de Secessão, que destruiu a economia dos Estados do Sul, e colocou na ordem do dia, o problema do lugar do negro em uma nova sociedade pós Abolição.

A Escravidão foi extinta, Abraham Lincoln foi morto em um atentado, e os Estados Unidos tinham diante de si a seguinte questão: como integrar milhões de negros, antes considerados escravos, mas agora considerados “livres”, mas sem terras, sem empregos, sem educação, sem literalmente nada além de sua ‘liberdade”?

A “integração” do Negro na sociedade americana tornou-se uma política de Estado de uma complexidade que não caberia no espaço desta coluna. Mas pelo menos uma coisa podemos afirmar, esta política de Estado foi incompleta e longe de atingir o objetivo de “integrar” o negro à sociedade, criou sim novas formas de discriminação.

Quando a Guerra Civil terminou, muitos negros do Sul dos Estados Unidos, em vez de permanecer nas suas terras decidiram migrar para os Estados do Norte, um processo migratório, que passou a ser conhecido como a “Grande Migração”. Cidades como Nova York, Detroit ou Chicago receberam um número a cada ano maior de negros buscando reconstruir suas vidas, longe da pobreza, do desemprego, mas principalmente da discriminação racial do “Jim Crow”, nas cidades do Sul.

Sou de opinião de que é muito importante compreender o que foi esta instituição do “Jim Crow”, para comparar como o pós Abolição se processou em duas sociedades escravistas, mas que passaram por processos abolicionistas diferentes, como o Brasil e os Estados Unidos. O “Jim Crow” passou a ser conhecido como o conjunto de medidas que os estados do Sul dos Estados Unidos criaram para estabelecer uma clara fronteira entre brancos e negros. Na prática, era um apartheid sem dever nada a sociedades como a África do Sul.

Uma das coisas criadas a partir do “Jim Crow” foi a Ku Klux Klan. Originalmente, “a Klan” foi criada para tentar demover os negros do Sul a continuarem a migração para os estados do Norte, ou seja, a ideia era usar a tática do terror como uma forma de manter o negro na terra, e mostrar que havia uma “ordem” onde os brancos estavam no controle, apesar de terem perdido a guerra. Seus métodos de intimidação eram didáticos o suficiente para fazer com que todos entendessem claramente sua mensagem, no entanto, eles não foram capazes de impedir a continuidade da “grande migração’.

A ku klux klan é um exemplo claro de manipulação do passado com um fim claramente político. Uma sociedade secreta, que buscou no passado da Escócia, os “antecedentes históricos”, os símbolos, os rituais, a sua “missão civilizatória”, tudo enfim transferido para uma sociedade pós escravista. Na época da criação da Ku Klux Klan, não existia o termo “fatos alternativos”, mas a manipulação do passado atendia ao mesmo objetivo.

A Cruz pegando fogo, eternizada na cultura popular como a principal marca da atuação da Ku klan Klan, mostrava que sim, o “Passado” era uma arma quente.

Anauê, o Sigma e o Império

Como o Integralismo Brasileiro resgatou a ideia de Império

Uma reunião dos muitos núcleos da Ação Integralista Brasileira-AIB. A ideia de “integrar” todos os membros da sociedade brasileira sob um mesmo Estado centralizador e autoritário, significava que até os negros poderiam fazer parte desta utopia. Acervo Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro

Outro ponto dessa curta viagem pelo país do Passado Recomposto é o Brasil da década de 30. Esse foi o contexto do crescimento do movimento Integralista no Brasil. Na época, o Integralismo e o surgimento da Ação Integralista Brasileira, liderados por intelectuais como Gustavo Barroso e Plínio Salgado usou e abusou da manipulação do Passado para a construção de um discurso com fortes identificações com o Fascismo europeu.

Nesta operação de “reconstrução do Passado”, o movimento Integralista “redescobriu” a ideia de “Império”, ou melhor de “IV Império”, como assim escreveu Gustavo Barroso. O “Império” segundo Barroso era a construção política capaz de promover a “integração”, a “síntese” dos vários elementos sociais, políticos e econômicos da sociedade brasileira. A República, ainda segundo Barroso, não conseguiu entregar aquilo que prometeu, quando foi inaugurada em 1889 em um golpe militar, em 15 de Novembro.

A Ação Integralista Brasileira, a AIB elegeu o Sigma como o símbolo de seu projeto de “integração da sociedade”, a partir de uma liderança e um Estado forte e centralizador. É neste contexto que a ideia de “Império” passa a fazer sentido neste discurso. E também não foi coincidência que este mesmo discurso “recuperou”, ou melhor, ressignificou o Estado Monárquico Brasileiro. Para Gustavo Barroso esta interpretação da Monarquia como um Estado centralizador, ia de encontro ao seu ideal de construir no Brasil uma ordem social e econômica que integrasse as diferenças regionais e culturais de um país de dimensões continentais como o Brasil.

Foi a época em que mais uma vez, a valorização de uma Idade Média romantizada como uma época de monarquias com a missão civilizatória e salvacionista também voltou a ser valorizada.

A razão para esta breve viagem “ao país dos passados recompostos” deve-se simplesmente a uma simples questão. Não é de hoje que estes passados são reconstruídos de acordo com os interesses políticos dos mais diversos grupos.

E sim, parafraseando mais uma vez Lennon, o Passado sempre foi uma arma quente.

*Paulo Roberto Araújo é professor de História e suburbano convicto

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